Palavras ao vento (10)

Partilho com todo o gosto o último dos textos que redigi no âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que apreciem…

Incompletude

E num tempo consumido de forma voraz chegámos à primavera de 2024, sem o apelo concedido aos condenados e o agravo cometido aos penitentes.

Sinto que tudo à minha volta está um pouco diferente, em desalinho, mesmo numa revolução silenciosa que tudo cobre com o seu manto invisível, de tal modo que a estação do ano me parece indecisa e vacilante na sua pujança. Sinto o aroma inebriante das flores, ouço o canto das aves, as hortênsias começam a sorrir, mas, contudo, o sol aparece de forma tímida e o vento carrega até mim nuvens escuras em horizontes nublados.

A angústia invade-me ao ver que os dias nascem já crispados e feitos de metades, numa incompletude que ofusca a magia dos entardeceres suaves. O céu pesado, vergado de recalcamentos acumulados ao longo de invernos solitários, faltando as auroras inspiradoras e luminosas que me seduziam e tingiam de cor todos os meus passos, construindo sucessivos rastos pintados como arco-íris.

Nesta reflexão fui percorrendo o caminho mecanicamente até chegar finalmente ao meu destino, o consultório do doutor Pedro Sousa, que me recebeu de sorriso aberto, aliviando a tensão alimentada por medos antigos, quando as pernas à entrada do dentista pareciam pesar tanto como a quem sobe para um cadafalso.

Hoje a consulta no dentista, outrora muito temida, funcionou como uma terapia pois a ténue dor física aliviou a minha ansiedade, sendo que a luz forte que sobre mim incidiu foi o foco que me permitiu alumiar a visão do futuro.

Esta desconcertante simplicidade da vida, e a sua não linearidade, quando a distância entre o hoje o amanhã pode ser mais longo, enche de plenitude os meus vazios de alma. Despedi-me então do doutor Pedro com um sorriso no rosto e com avidez de ser mais, estar mais e fazer mais.

(Manuela Resendes)

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