Sábado, a olhar o céu

O dia amanhece revestido de tons cinza, com uma pitada de sol a abrilhantar o mar que se reveste de prata.

Sinto saudades de um mundo alegre, sem o frio das incertezas provocado por aragens de descontentamento, que procuram abrigo na alma.

Vejo olhares submersos em solidão, olhando para o infinito, que cabe na palma de uma mão.

O céu tem as mesmas cores de sempre, mas falta a luz imaculada das auroras. As aves dançam sobre espumas frondosas, mas já não ouço o canto das cigarras.

As tardes alaranjadas, com as cores do fogo, já nāo têm a mesma harmonia de outros tempos, agora pontuadas pela angústia do anoitecer sem o brilho de um céu estrelado.

Sinto pouca felicidade no mundo, mas a esperança irá renascer de segredos escondidos nos abismos dos mares e no infinito que se abrirá para nos oferecer a liberdade.

(Manuela Resendes)

O baloiço

O baloiço sempre foi um dos meus brinquedos preferidos, ainda que o poder de escolha não fosse muito diversificado.

A sensação de voar, de ser levada e desenhar sonhos no ar, sempre me fascinou. Rasgava os céus para atingir destinos longínquos, inventava novas vidas, fugindo assim à monotonia dos dias que corriam sem novidade.

Neste voo, dançava com o vento e cantava para ouvir o eco das palavras, ganhando a voz que não tinha, prenúncio de um novo tempo.

Aproveitando cada impulso deixava a vida fluir, perdendo a medida do tempo na certeza que um novo sol iria sempre raiar.

E neste vai e vem deixava cair medos e angústias, e colhia a liberdade e audácia de querer ver para além do horizonte.

Ainda hoje gosto de andar de baloiço, num movimento que sinto como uma metáfora da vida: com altos e baixos, ganhar impulso para o voo com os pés assentes na terra, com a inevitabilidade de que o caminho nāo é linear e que a corda pode ruir.

Mas se nāo ousarmos, o tempo passa e a vida acaba por seruma promessa por cumprir!

(Manuela Resendes)

Desafios

Estes são tempos desafiadores, em que os dias se sucedem mas a passagem do tempo faz-se num silêncio perturbador.

O sol vai e vem e os dias enchem-se de vazios, despojados de proximidade, espontaneidade, parcos em afetos, num quotidiano inventado para preencher os espaços vazios de vidas suspensas.

Olhares que se perdem, em rostos colados à janela, bálsamo para a ansiedade resultante destes dias tão cheios de nada.

O vazio de olhares que se perdem a procura de uma mão amiga, do perfume conhecido, do calor que humaniza quartos frios onde quase nada resta, de vidas tão repletas de tudo.

Em caras tapadas, descortinamos olhares de medo, incerteza, revolta, de vidas adiadas, numa nova realidade destruidora de sonhos e de futuro.

Mas é nestes momentos que temos de pôr à prova a nossa resiliência, focar no que é essencial, adaptando as nossas rotinas e inventando novos sonhos.

É o tempo de sorrir com os olhos, tocar na alma e abrir o coração, reinventando a corrente dos afetos.

E com a certeza de que na Primavera as flores voltarão a florir, teremos na natureza uma fonte inesgotável de força e inspiração.

(Manuela Resendes)

Cores quentes…

E o Outono chegou, ora de mansinho, ou num tom mais agreste, numa paleta de cores que contemplamos e acolhemos, num verdadeiro convite ao recolhimento em abrigo seguro.

Nas suaves madrugadas de brisas amenas encontro o colo que me embala e as palavras que me inspiram.

Olho a janela por onde assombro o futuro e vejo o despontar do sol em tons dourados, que se esbatem à passagem das nuvens, onde descortino uma estrada de luz.

Quando as manhãs se revestem de nevoeiro revelam-se mistérios e segredos por entre as brumas, de anjos com asas transparentes.

E nas tardes incandescentes, em que línguas de fogo invadem os céus, antevejo um convite ao recolhimento, para que a vida aconteça num registo mais silencioso e intimista.

E em noites de luar, ao som de melodias do vento, alimento sonhos demorados que varrem orvalhos do meu rosto. Caminhando sobre um tapete de folhas de Outono invento caminhos inusitados, onde as doces lembranças me devolvem a esperança que acolho com um infinito sorriso.

Gosto destes dias em que a alegria é feita de poesia!

(Manuela Resendes)

Cansaços…

Hoje acordei cansada… despertei do sono e para alcançar a luz da aurora tive de atravessar densos nevoeiros.

O vento soprava de forma cruel e ouvia o rumorejar das folhas, ressequidas pelo sol, a serem revolvidas junto ao chão.

Os meus olhos viajavam em silêncio, encontrando mundos onde as crianças nascem já para uma vida miserável.

A minha revolta espelhava-se num mar tempestuoso, que batia com ira nos rochedos, rasgando as velas dos sonhos que embalava.

Um misto de sensações abstratas invadiram-me, com indecifráveis medos e disfarces de esperança, e vem-me à memória a angústia das primeiras despedidas, num roubo à infância, deixando no caminho uma curva invisível, apesar de mantido o rumo.

Agora, nesta melancolia que deambula em mim, nem alegre nem triste, espero a noite aconchegante, o sono que adormece o corpo e a serenidade que me acalme a alma.

Escuto, mas apenas ouço a voz da minha consciência, sempre atenta…

Mas a madrugada clara irá nascer, plena de promessa de vida feliz para cumprir!

(Manuela Resendes)

Prenúncio de Outono…

O dia amanheceu chuvoso e triste, anunciando a aproximação do Outono.

Senti o passar do vento na pele, onde se vão apagando as marcas do sol e desvanecendo o sabor a sal, tal memórias do Verão.

Cobri-me com a manta do silêncio e fiquei a ouvir a chuva límpida que caía de nuvens com a cor da melancolia.

Saio a rua e vejo pessoas de olhar vazio à espera de nada, vendo no reflexo da água resíduos de juventude, e no arrepio da pele o travo da solidão.

Vejo as folhas a soltarem-se das árvores e a serem transportadas pelo vento, lembrando o eco das despedidas e convidando à introspeção.

Os dias encurtaram, mas nāo vou deixar de caminhar na areia molhada, onde a espuma das ondas acaricia a pele e o azul do mar já denuncia a sua inquietude.

Esta brisa marítima, carregada de liberdade e imprevisto fascina-me e convoca o encontro com a esperança num reduto de paz.

E quando chega a noite, sem se anunciar, no conforto da casa rodeio-me de livros que me alargam horizontes e devolvem a luz que vai alumiar os dias mais sombrios.

Porque o Outono nāo tem de ser triste!!!

(Manuela Resendes)

Novo ano letivo…

E hoje, na maior parte das escolas do país, começou um novo ano letivo…

Apesar de alguma incerteza e medo, provocados pela situação de pandemia que vivemos, o primeiro dia de aulas não deixa de ser um marco importante na vida de qualquer criança ou jovem.

O cheiro dos livros novos, as folhas em branco e as canetas coloridas, materializam o futuro sonhado, com a grandeza do desconhecido.

O reencontro com os amigos/colegas e professores, ou a sempre exultante possibilidade de fazer novas amizades, é também motivo de alguma ansiedade, mas também de uma incontida alegria.

Guardo na memória estes dias como felizes e gratificantes, num recomeço apetecido, depois das “férias grandes” de Verão.

É na escola que se abre todo um mundo novo repleto de possibilidades, onde adquirimos conhecimentos e desenvolvemos capacidades que nos permitem começar a desenhar o nosso projecto de vida.

Aprendi nomes de países longínquos, os quais só sabia apontar de forma certeira no mapa, e nos quais viajava através do meu imaginário, espicaçando a curiosidade e o conhecimento.

Sabia de cor todos os rios de Portugal, e o mar onde desaguavam, sem nunca os ter visto, apurando-me a curiosidade pelo novo.

Aprendi a dizer toda a tabuada sem hesitações, assim como a fazer contas, cujo resultado atestado pela prova dos nove me dava uma satisfação como quem ganha um jogo.

Mas aprender a ler e a escrever foi a porta que ficou escancarada para o mundo, sendo que ainda hoje continuam a ser das atividades que mais prazer me dão…

Através dos livros o mundo amplia-se para números próximos do infinito.

Hoje sinto o perfume desse tempo reencontrado!!!

(Manuela Resendes)

Santa Maria…

Foste o berço da minha infância

E de entre todas foste a primeira

O oceano marca a tua fronteira

Sonhos brotam desta circunstância

No esteio dos campos verdejantes

Na vastidão deste mar de intenso azul

Sem destino vou de norte para sul

Faço o caminho, com o olhar dos viajantes

Encontro gente que sabe ler a lua e o céu

Recantos que contam histórias fascinantes

Bebo a água das nascentes revigorantes

E aprendo a decifrar a ladainha do tedeu

No deserto argiloso de terra vermelha

Senti o apelo para gritar ao mundo

Que sempre foste a minha centelha

(Manuela Resendes)

11 de setembro…

Faz hoje 19 anos que o mundo assistiu incrédulo ao maior ataque terrorista da história, em que cerca de 3000 pessoas perderam a vida.

Da responsabilidade da organização fundamentalista Al Qaeda, que lançou quatro aviões comerciais de passageiros contra alvos americanos, tendo sido o ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque, o mais grave e donde resultou a maior parte das vítimas.

O dia tinha amanhecido com o céu azul, prometendo ser um dia agradável e igual a tantos outros, mas pelos piores motivos passou a ser aquele que ninguém esquece, que todos sabem onde estavam e o que faziam naquela hora, deixando uma marca que não há tempo que consiga apagar.

No meu caso pessoal, encontrava-me em serviço no estrangeiro e, depois daquele choque brutal da notícia, a única coisa que queria era regressar rapidamente para junto dos meus e para o meu porto de abrigo, a que chamo casa.

Nesse dia o meu – e o nosso – mundo também mudou!

(Manuela Resendes)

Os Deuses zangaram-se…

A noite foi de tempestade, com chuva abundante a cair ao som de uma trovoada ensurdecedora e iluminada por intensos clarões de relâmpagos.

Olhei da janela e tinha tanto de belo como de tenebroso, em que os céus se abriam em estradas de luz que desabavam as suas mágoas em jorros de água.

Despertaram em mim medos sentidos na infância, quando era necessário enfrentar tempestades em que, na aparente valentia, escondia o medo de monstros com contornos sombrios.

Hoje percebo que a natureza também tem os seus dias de revolta, mas com a água da chuva lavo a alma, com o barulho da raivosa trovoada aprendo a saborear o silêncio e com a luz dos relâmpagos ilumino os claustros mais profundos da mente, donde resgato questões pertinentes.

A natureza tem de ser respeitada e nunca devemos subestimar o seu poder avassalador de destruição, ou de nos deslumbrarmos com as suas fascinantes cambiantes.

Aos poucos volta a acalmia, surgindo o arco-íris a colorir o horizonte, e vou serenando a minha inquietude e volto a ter o meu olhar tranquilo sobre a realidade.

Os meus olhos avistam agora o futuro em novos céus!

(Manuela Resendes)