O farol

Ao longe avisto um farol

Que ilumina o mundo sombrio

Cais que vai abrigar do frio

Noites sem perfume de lençol

Em noites de tempestade

Almas inundadas de anseios

Olhos que são pátria de receios

Matam a fome com a dignidade

Mar incerto, espelho do mundo

Reflexo de uma luz inconformada

Onde se acendem velas de esperança

E neste momento que é fecundo

Nasce o sol, rompendo a madrugada

Soltando o grito da vitória, mudanca!

(Manuela Resendes)

A casa que deixei…

A casa que um dia deixei, com a voz embargada e os olhos marejados, não permanece mais lá.

Quando regresso, tudo está tão distante daquela manhã, que nem reconheço os abrigos de rigorosa ternura, nem os esconderijos de pedra morna e suave, restando apenas uma esperança desvitalizada.

A algazarra das crianças foi engolida por noites de temporais, onde as emoções se insinuam tão subtilmente através de fios de silêncio à espera de serem escutados.

O jardim viçoso e colorido é agora um terreno alagado, que percorro num passo desamparado e solitário sentindo o perfume insinuado das roseiras e do jasmim.

O aconchego que alumiava a escuridão da alma é agora um misto de sensações devolutas, que apenas dão sentido ao tempo.

Os dias inocentes perderam-se no meio das ruínas carregadas de histórias escritas a partir das teias da realidade.

A soleira da porta que servia de varanda para o mundo, não tem mais o encanto de perscrutar a novidade, nem tão pouco serve para descansar o corpo deste tempo dilatado.

Mas a janela do meu quarto, onde o sol cedo o iluminava, ampliando a sua luz, permanece lá com os vidros salpicados com vestígios dessas manhãs.

Foi então que me senti em casa…

(Manuela Resendes)

O vento

Ali, num recanto do meu jardim

A folhear um velho livro de poesia

Olho as folhas e nuvens em romaria

Pássaros a saltitar num grande frenesim

Palavras soltam-se, no vento da madrugada

Transportam com ele o perfume da saudade

E vejo pétalas que caem por pura vaidade

Deixando assim a sua alma subjugada

Não sei a forma nem a cor do vento

Leva mil promessas e traz alguns sonhos

Inventa futuros que podem ser risonhos

Que são magia e outras vezes lamento

Nasci em tempos ainda áridos e rudes

Em noites que despem madrugadas

Luzes que iluminam, almas enganadas

Sofrimentos feitos de grandes virtudes

Mas mesmo quando estou ausente

Sei de cor a textura do meu chão

Que me deixa aguçada a impressão

De sempre ter estado lá, presente.

(Manuela Resendes)

Caminhada nas Furnas

Aliar o exercício físico com o prazer de desfrutar da natureza e, em silêncio, usufruir de paisagens deslumbrantes, da brisa macia e do perfume das conteiras, transmite-me uma sensação de paz, que tanto aprecio.

Nunca me canso de voltar a este lugar místico, nuances e mistério. A luz, o nevoeiro, o vapor das caldeiras, fazem das Furnas um lugar impar e sempre diferente.

E hoje a lagoa exibia-se em espelho, deslumbrante, de uma forma tão inspiradora que cativou de forma especial, o meu olhar.

Este lugar é pura poesia…

(Manuela Resendes)

Caminhada matinal

Tão bom começar o feriado com uma caminhada matinal, sob uma temperatura amena, a ouvir o mar e com o cheiro a maresia.

Foram 5 km percorridos a um ritmo de 8,32 minutos por km, sem se sentir o esforço tão distraída estava com a paisagem.

Este tipo de exercício físico, para além de agradável, faz bem ao corpo e à mente, empoderando-nos de uma energia e bom humor que nos permite acolher o dia com outra disposição.

Bom Feriado

(Manuela Resendes)

Gratidão…

A gratidão é um sentimento de almas nobres que se sentem em paz com o passado e têm capacidade de aceitação ao que a vida vai proporcionando, dando-lhe assim sentido.

A vida não é uma linha de montagem na qual o que já conseguimos, os sonhos concretizados e os objetivos alcançados, são passado sem história porque o nosso foco está apenas no que está por concretizar.

É tão bom perceber o caminho percorrido com o inesperado, os obstáculos e as vitórias.

Tudo contribui para a nossa construção como pessoas e a capacidade de usufruir do que temos/somos é que permite a nossa realização.

Tão bom sonhar e fazer por concretizar, ser persistente, mas se a vida nos mostrar alternativas não podemos deixar de as olhar como novas possibilidades, mapear novos caminhos e permitirmo-nos avistar outros patamares.

Não nos podemos fechar em “bunkers” em nome da segurança, seguir à risca os planos em nome do medo e não nos entregarmos aos outros em nome do sofrimento, correndo o risco de perdermos assim os momentos mais mágicos, inesperados e surpreendentes da vida.

Que saibamos sempre acolher o que a vida tem de memorável!

(Manuela Resendes)

Batizado do Francisco

E já batizámos o Francisco…

O Francisco é um bebé arco-íris, sorridente e cativante, que veio enriquecer ainda mais as nossas vidas.

Recebeste o sacramento do batismo, uma benção divina que irá iluminar o teu caminho, as tuas decisões e a tua vida.

Foi com o coração apertado, e um enorme orgulho, que assistimos a tão importante momento da tua vida, comemorado em família e amigos, numa festa cheia de luz, cor e muito amor.

Esta é uma memória que será guardada no “cofre” dos momentos especiais e fará parte das histórias que te vamos contar mais tarde.

Que bom ter-te nas nossas vidas, Francisco….

(Manuela Resendes)

Na passagem do tempo…

Sinto o cheiro da terra lavrada onde germina a semente do tempo, num ciclo infinito onde aos dias se sucedem as noites.

O sol debruça-se sobre a planície, num jogo de luzes e sombras, aquecendo a pedra fria, testemunha de tantos segredos.

Mas faço a viagem sem medir a passagem do tempo, não sou de hoje nem de ontem, porque só me sinto inteira onde não me impõem limites. Perco-me por caminhos invisíveis, como as estrelas no céu da liberdade e sigo leve como o voo do pássaro.

Caminho descalça na areia, para deixar pegadas de momentos felizes e subtis angústias, numa soma de histórias que fazem as nossas memórias.

Guardo comigo todos os instantes onde as paisagens eloquentes se estendem na distância, à luz de um doce entardecer, percorridas como as nuvens no céu, sem tempo, nem amarras.

Porque o tempo não são as horas contadas e os dias medidos, é sim a vida a acontecer, com os mistérios e evidências na sua infinita sabedoria.

(Manuela Resendes)

Aconchego…

Todos nós temos um sítio que nos aconchega, nos cura e nos transmite uma paz reveladora que emerge do nosso íntimo.

Vivemos num certo sobressalto, pelos acontecimentos de um mundo que “tritura” inocentes em guerras, pela violência gratuita e pobreza extrema, deixando-nos vulneráveis e com sentimentos de desamparo.

Mas para nos protegermos da dor não nos devemos refugiar em rotinas previsíveis e fechar no nosso pequeno mundo. Temos de fazer da nossa casa a varanda com vista para além de nós, e confrontarmo-nos com a realidade numa perspetiva transformadora.

Porque é nos momentos de crepúsculo, de desafio e desesperança que nos revelamos. Recorrendo às nossas ferramentas espirituais, renegar a uma existência sonâmbula carente de sentido, abrindo o coração na procura de um oásis de alegria para mitigar a nossa dor.

Devemos dizer “presente” à vida com entusiasmo e motivação, para nos alavancar até ao sítio das visões claras, não nos entregando ao desânimo, remoendo mágoas e ressentimentos. Na maior parte das vezes apenas precisamos de um outro olhar, para o mesmo caminho, retirar automatismos ao quotidiano e permitirmo-nos saborear a gratuitidade da nossa existência.

Quantas vezes a felicidade está onde nunca a procuramos…

(Manuela Resendes)

Brisa outonal

Os dias já não se estendem em longas tardes de brisa suave e morna, lembrando-nos que o Verão está prestes a acabar. O tempo incerto e o sol tímido, que aparece para logo se esconder por baixo das nuvens, é prenúncio de que os dias sem horas, descontraídos, e com a pressa estacionada numa qualquer praia, vão ficando para trás.

Mas este é o eterno ciclo da natureza, da mutabilidade das coisas que vamos absorvendo com a passagem de uma aragem carregada de liberdade.

As cores vão desmaiando e adquirindo novas tonalidades, mais quentes e temperadas de utopia, de uma espera com portas abertas para o horizonte.

Mas é no silêncio das tardes de Outono, que agasalho a alma com poesia ao som de melodias suaves, para que possa albergar em mim todas as cores e todos os sentimentos, reinventando-me, mas sempre na procura de azuis suaves.

Mas como num olhar atento tudo tem uma beleza peculiar, fico extasiada a ver os tapetes de folhas secas que se estendem à minha passagem…

(Manuela Resendes)