Quando cai a noite…

Vejo a noite a espreitar por entre as cortinas e fixo-me na luz que vai sendo cada vez mais precária e fugidia.

Penso nas pessoas para quem a noite é tempo de inquietude e sobressalto, num mundo que vai morrendo à mingua do que é essencial.

Penso nas crianças que são violentadas, sendo-lhes roubado os olhares inocentes que eram a janela para as maravilhas do mundo.

Penso nos idosos que passaram mais um dia sedentos de atenção e afetos, olhando o tempo a fugir e a esperança a desvanecer-se.

Penso nas pessoas que são” invisíveis “para a sociedade, e que cansados de lutar se afogam nas águas turvas da desilusão.

Penso em quem é vitima de ódios crispados, fazendo dos céus estrelados noites opacas.

Penso naqueles que não têm voz e no silêncio da noite ouvem o eco do seu grito.

E penso se estarei a fazer a minha parte para tornar este mundo injusto e hipócrita num lugar melhor.

A sós comigo irei fazer essa reflexão!

(Manuela Resendes)

Silêncios que falam

Existem silêncios que dizem mais do que vozes que soltam palavras ao vento…

Quando o silêncio nos aborda, carregado de melancolias que brotam das nossas sombras, emergem as verdades silenciadas.

Quando somos invadidos por medos, nas noites infinitas onde o futuro nos vai sendo confiscado, o silêncio pesa mais do que qualquer aurora sonolenta.

Quando a promessa de resistir à dura realidade se desvanece, e a réstia de esperança se esfuma, vivemos a mais radical experiência da nossa vulnerabilidade.

Mas o silêncio também pode ser paz e reconciliação, momentos em que se decifram enigmas opacos que permitem destravar bloqueios. Permite-nos, assim, um manuseamento tão atento e tão íntimo das palavras, fugindo a juízos mecânicos e precipitados.

E neste tempo em que fomos obrigados ao recolhimento, à travagem do quotidiano vertiginoso, que nos saibamos inspirar em existências mais atentas e humanizadas.

Que saibamos sair dos claustros e olhar as transparências, donde irrompe o inesperado para ser acolhido e habitado num lugar chamado Futuro!

(Manuela Resendes)

O meu olhar…

Gosto de florestas e de mares onde me possa perder, para me distanciar do que melhor quero ver.

Quero que os meus olhos se habituem à calma e à serenidade para me permitir deter nos pormenores.

Gosto de olhar a vida do alto de uma montanha, neste desejo insano de voar, almejando tocar a eternidade.

Gosto de perscrutar os recantos da vida, sondar rostos e corações, permitindo que a miséria não me pareça estranha, tendo assim oportunidade de ser solidária com quem precisa.

Persigo nas ruínas luzes raras que produzam sombras claras, donde se possa avistar o céu.

Gosto de olhares ternos, verdadeiros e que vêm por bem, fazendo esquecer a feira de egos e vaidades que vai predominando no mundo.

Gosto de aplaudir o sucesso dos que trilharam o caminho do esforço, do talento e do mérito.

Não me calo perante a injustiça em que tropeço a cada passo, e ponho todo o meu empenho no resgate da esperança numa sociedade em que me reveja.

Gosto de preencher os meus vazios com sonhos, encetando assim as raízes de novas emoções, que permitam atravessar os desertos mantendo-me inteira.

E a minha sensibilidade leva-me por vezes às lágrimas quando consigo abrir as janelas que fazem ponte para o mundo, tocando a alma do outro e apaziguando assim a minha inquietude!

(Manuela Resendes)

Cidadania…

Se estamos cansados das restrições impostas pela pandemia? Claro que sim, são muitos meses de uma vida vivida pela metade, de sonhos roubados e perdas irreparáveis.

Mas esta não é hora para desistir porque este é o tempo de exercer o nosso dever de cidadania, cumprindo de forma responsável todas as recomendações preconizadas pelas autoridades de saúde, protegendo-nos e protegendo os outros.

Sem esta corrente de cuidado, respeito e solidariedade intergeracional colocamos em risco o esforço de muitos e esbanjamos os preciosos, mas escassos, meios alocados ao combate a esta pandemia.

Por vezes os dias nascem já desmaiados de motivação e o medo visita-nos, mas nem assim podemos ficar indiferentes às lutas do outro, evitando sermos tocados pelo seu sofrimento.

Não podemos deixar de comparecer aos pedidos de socorro que reconhecemos em olhares de súplica.

Temos de ser a luz que entra em janelas abandonadas para aquecer corações onde já não habita a esperança.

Que cada um de nós se inspire a ser exemplo de cidadania, responsabilidade e solidariedade.

Juntos somos mais fortes!!!

(Manuela Resendes)

Um dia…

Um dia quero ser o que nunca fui, construindo o futuro sobre sonhos ainda não fantasiados e alcançar objetivos não planeados.

Quero desapegar-me de tudo o que não me acrescenta e continuar esta busca incessante e sempre inacabada da felicidade.

Quero ver a vida a ampliar-se, não em resultado da mera contemplação do arco-íris mas de olhar para além dele.

Quero procurar a espiga no meio do restolho e fazer dela semente de esperança que irá germinar para dar trigo.

Quero aproveitar a rajada de vento, para me apropriar da sua energia e contrariar a inércia que por vezes me impede de prosseguir.

Quero fazer do Amor e da Poesia a alavanca para os recomeços que permitam avistar novos céus, ultrapassando as sombras e vencendo as fragilidades.

Mas sobretudo quero saber escutar e decifrar os silêncios que habitam nas conversas da vida!

(Manuela Resendes)

Leituras…

Comecei a gostar de livros ainda antes de saber ler!

Os livros contam histórias e acrescentam memórias, são passado e futuro e abanam o nosso pensamento, destruindo preconceitos e ensinando a tolerância.

A leitura conduz-nos a madrugadas de esperança e abre-nos caminhos por mares abertos a novos mundos, que aprendemos a compreender.

Faço dos livros as asas que transportam os meus sonhos, dando o toque de magia que alimenta as ilusões.

A matéria prima são as palavras, mas o que nos fica na alma são as emoções, que são alimento e remédio e remetem-nos para reflexões profícuas.

Uma casa onde não existem livros é como uma casa sem luz, sem janelas e sem jardim.

O conhecimento é a melhor “arma” que podemos carregar!

(Manuela Resendes)

Revisitar a infância

Neste tempo de incerteza, onde não sabemos bem onde vão dar os caminhos que percorremos, senti necessidade de revisitar a minha infância.

Por vezes é preciso desatar os nós do fio que une passado, presente e futuro, para podermos calibrar a bússola e encontrar novamente o norte.

Viajar através do pensamento, pelos lugares onde fui criança, deambulando por estradas e campos, vendo as mesmas casas e os mesmos rostos e sentindo os mesmos cheiros de um tempo agora reencontrado.

Mas num olhar mais atento, senti um vazio, vislumbrei sombras e ouvi o eco da falta de mim própria.

Vi crianças de rostos desconhecidos, rindo e saltando nos mesmos espaços e com a mesma alegria barulhenta. Olharam-me com indiferença, como se aquele sítio não tivesse também sido meu um dia.

Cruzei-me com rostos carregados de marcas do tempo, com ruínas cobertas de plantas invasoras, que ocuparam o espaço deixado pelos seus habitantes, devorando a sua história e as suas memórias.

Entro no “minha igreja”, onde os silêncios estão à espera de serem escutados, para melhor compreender a biografia do meu íntimo e olhar a janela da minha alma.

A partir deste olhar ampliado do meu lugar no mundo, percebi que se deixar uma pequena dose de esperança a quem vive despido dela deixo algo que vai para além de mim.

Imprevisibilidades

A ideia de que temos tudo controlado, a falsa sensação de segurança que os bens materiais e as apólices de seguro nos dão, fazem-nos por vezes pensar que estamos a salvo das tempestades.

Mas a vida vai-nos mostrando que nada é totalmente linear, existindo inúmeros labirintos e curvas não assinaladas, recheando a nossa existência de incerteza.

Não existem fórmulas certas, cálculos matemáticos, nem cartilha, que nos indique qual o melhor caminho.

Traçamos o nosso plano, mas temos de aprender a resiliência, por forma a fazer dos tropeções uma alavanca para os recomeços.

Nāo podemos ficar presos ao passado, correndo o risco de que o futuro nos escape do nosso horizonte, hipotecando os sonhos de dias ainda em construção.

Temos que acreditar nas nossas verdades, mesmo que inventadas, na cumplicidade e conexão das almas, que nos robustecem emocionalmente e alumiam os nossos dias escuros.

A vida não se constrói com nível e fio de prumo; não podemos esperar pelo tempo ideal para realizar, pelo longínquo, é preciso ser permeável ao novo, à surpresa, e aceitar o risco, mesmo que isso por vezes faça doer a alma.

Vivo grandes alegrias e tristezas absolutas com a mesma intensidade, com as mesmas lágrimas, e sempre com uma dose inesgotável de esperança que me permite tocar o infinito!

(Manuela Resendes)

Frio…

E de forma repentina a temperatura baixou e o Outono corre indiferente, num tempo vazio onde nem a palavra nem o silêncio aquietam a alma.

O frio que sentimos vem também de dentro para fora, do gelo da indiferença, de silêncios feitos de hostilidade em janelas abertas para espaços plenos de solidão.

Os dias são mais pequenos e menos luminosos, e as nuvens ocultam a visão da lua.

O calendário lembra-nos que se aproxima o Dia de Finados, mas os cemitérios fecham-se, deixando ausências tatuadas no nosso coração e uma saudade inquieta.

As luzes de Natal vão-se acender, mas nāo vão dar brilho aos dias em que as distâncias ficam desenhadas nas estradas da nossa memória.

Mas assim como por entre a enigmática bruma, surge um raio de sol que faz luzir a gota de orvalho, um olhar atento pode derreter o gelo de um dia triste.

Venceremos assim o frio e o medo, com coragem e ousadia, na certeza de que os abraços nos voltarão a dar abrigo e a melancolia nos irá revelar o céu!

(Manuela Resendes)

Sábado, a olhar o céu

O dia amanhece revestido de tons cinza, com uma pitada de sol a abrilhantar o mar que se reveste de prata.

Sinto saudades de um mundo alegre, sem o frio das incertezas provocado por aragens de descontentamento, que procuram abrigo na alma.

Vejo olhares submersos em solidão, olhando para o infinito, que cabe na palma de uma mão.

O céu tem as mesmas cores de sempre, mas falta a luz imaculada das auroras. As aves dançam sobre espumas frondosas, mas já não ouço o canto das cigarras.

As tardes alaranjadas, com as cores do fogo, já nāo têm a mesma harmonia de outros tempos, agora pontuadas pela angústia do anoitecer sem o brilho de um céu estrelado.

Sinto pouca felicidade no mundo, mas a esperança irá renascer de segredos escondidos nos abismos dos mares e no infinito que se abrirá para nos oferecer a liberdade.

(Manuela Resendes)