Rotinas…

Queixamo-nos de que a vida é demasiado rotineira, em que os gestos se repetem numa monotonia sem surpresa nem espanto.

Mas quantas vezes olhamos e não vemos, ouvimos e não escutamos e sentimos mas não nos emocionamos.

Idealizamos de tal maneira a vida que nos perdemos nos seus labirintos impedindo-nos de prosseguir e de a cumprir.

Mas o meu espírito inquieto leva-me a procurar novos caminhos, degustar novas sensações e fazer da esperança uma arte ao meu alcance.

Seduzida pelo reflexo de um entardecer, sacudo o pó da mente e eternizo esses instantes, que me dão a necessária força para subir a montanha e ver mais longe.

E neste confronto entre a previsibilidade e o desconhecido, vou encontrando o meu equilíbrio, onde mato a monotonia e acordo dos sonhos para um mundo novo.

Transportando a paz na alma, gosto do impulso e da surpresa, para nāo deixar o tempo ser varrido pelo vento, desaparecendo sem deixar lembranças.

Gosto de transformar a rotina numa monotonia fecunda, que me preenche pelo conteúdo do seu silêncio, onde se abrem janelas para mundos invisíveis.

Assim, podemos sempre recomeçar sem sair do mesmo lugar!

(Manuela Resendes)

Agosto…

Abro a janela e deixo entrar agosto, respirando o azul do céu que está agora mais perto.

Vou descortinando o propósito deste dia, qual a sua subtil novidade e o que carrega nos detalhes do quotidiano.

Vou aprendendo novos pontos, para ir bordando sentimentos num ajuste de doses diarias de sonho e realidade, medo e superação, tristeza e euforia.

Viajo para destinos abstratos onde os sonhos debandam em voos solitários, à procura de novas conquistas.

E nas longas tardes, contemplando o sol a perder a luz, ilumino o silêncio com um rasgo de assombro e descoberta que a leitura me permite.

Este sentir, que extravasa a minha alma errante, suaviza dores ocultas nesta minha sede de infinito, envolto em doces emoções.

E nas sombras da noite, vou desatando os nós da vida, dando espaço à escuta, à reflexão, permitindo que os pensamentos fluam e habitem a minha realidade.

Quando o sono chegar quero dançar na espuma das ondas!!!

(Manuela Resendes)

Caminhos…

Caminho pela rua quase deserta e sinto uma brisa hostil imbuída de nostalgia.

Ouço, numa linguagem de segredos, palavras que se soltam da calçada, perturbando a minha paz e perseguindo a minha sombra.

Tento em vão decifrar o seu significado, porque apenas resta o eco do seu silêncio.

Cruzo-me com olhares disfarçados de risos, que provocam em mim uma sensação de estranheza e desconforto.

Neste vazio, de espaços infinitos povoados de muros de angústia, vou temperando as vicissitudes da vida, com uma bondosa esperança perfumada de futuro.

E neste tempo sem acostagens, olho os barcos que chegam e partem, carregados de lutas que intimidam e de emocionantes despedidas.

Mas esta luz vaga que rasga as nuvens, carrega fragmentos de vida com infinitas possibilidades de acolhermos a novidade do mundo.

E quando a fadiga começa a pesar, e a mente a silenciar, esta vivência da nossa própria vulnerabilidade é a alavanca que nos permite progredir para outras dimensões da vida, reinventando os alicerces do nosso equilíbrio.

E porque a vida é maior do que nós, o tempo que nos pertence, e o que fazemos dele, é o nosso mais importante legado.

(Manuela Resendes)

Sol…

O dia amanheceu radioso, transportando nos raios de sol ondas de alegria e fragrâncias da alvorada.

Gosto da transmutação serena da natureza, mas este azul intenso do céu e do mar levam-me a viver outras vidas.

O êxtase desse brilho que incandeia, varrendo medos e enganos, resgatam a esperança perdida em dias sombrios, em estações que se sucedem alheias aos problemas do mundo.

E o meu olhar, por vezes debruçado sobre neblinas e incertezas, contempla agora os jardins floridos e vê com clareza o sabor da eternidade.

A brisa que passa, deixa as folhas paralisadas no chão, mas aquece a minha pele salgada, refletindo o colorido do verão e a vastidão desse mar de novidade.

Embalo-me na rede, protegida pela sombra que me abraça, e no prazer da leitura liberto os sonhos, que voam nas asas de uma gaivota. Entre o céu e o mar vão-se soltando fragmentos de risos e instantes de felicidade, até se perderem na linha do horizonte.

E quando a noite surge de mansinho, nessa imensidão de vida que é um céu estrelado, de onde espreita a lua, sinto-me imersa nessa magia e só quero parar o ponteiro do relógio, de um tempo que se solta e corre veloz.

(Manuela Resendes)

sdr

Notícias…

Todos os dias somos invadidos por notícias de todo o tipo de tragédias, de um mundo onde parece nāo acontecer nada de bom.

Temos de nos proteger dessa avalanche de informação, que nos provoca ansiedade e medo, daí resultando baixas espetativas de um futuro que abrigue os nossos sonhos.

Esse ruído perturbador de violência, indiferença e desumanidade, convidam-me a voltar para a minha “concha” de silêncio, onde só ouço o barulho do mar.

Prefiro olhar o lado bom das coisas, rir dos meus pequenos dramas e viver a realidade através das sensações.

Quero quebrar os muros de angústia e viajar para um país onde possa ver o amanhecer que ilumina o escuro da noite, a chuva que lava o caminho e a novidade que permita visitar o futuro, com a chama da esperança.

Quero ser a voz das conquistas, da superação, da solidariedade, que nos permita acreditar que nesta breve passagem pela vida podemos assistir aos maiores horrores, mas também ficar deslumbrados com os melhores exemplos.

Este é um tempo conturbado, de desequilíbrios e muita perturbação, onde temos de procurar em todos os nossos recursos a resiliência que nos permita prosseguir em mares mais calmos.

Por vezes é preciso passar o “cabo das tormentas” para se avistar novamente a bonança…

Nāo se pode é desistir!

(Manuela Resendes)

Jardins…

Gosto de me sentar num banco de jardim, rodeada de flores coloridas e sentir o pulsar de muitas vidas.

Gosto de ouvir o chilrear dos pássaros e o riso das crianças, no seu reino passageiro de inocência.

Olho os jovens enamorados, que fazem juras de amor, seladas pelo fogo da paixão, convictos da sua invencibilidade.

Mas cruzo-me também com olhares vazios, marcados por sulcos de melancolia, salpicados por resquícios de uma juventude perdida.

Devoram as horas, consumidas numa solidão que dói, numa presença quase ausente, mergulhados num mar de recordações e ilusões silenciadas.

Nāo se percebe em que ponto do caminho, ficaram entre a luz e a sombra, entre a alvorada e o crepúsculo, entre a carência e o desamparo.

Têm as mãos cheias de marcas, que a vida vai desenhando, nesta espera vagarosa que mata o tempo e a solidão.

Quero ir ao jardim, para renascer todos os dias, sentir a imortalidade da alma, perfumada pelo aroma das rosas e adormecer à sombra de uma árvore secular, num banco que me conte histórias de embalar!

(Manuela Resendes)

Emoções…

As emoções são fundamentais para a nossa sobrevivência e dão sentido às nossas vidas.

Mas não é fácil despojarmos-nos das nossas emoções, numa sociedade de intenso escrutínio, em que não são bem vistos estados de tristeza ou de melancolia, sendo as vidas aparentemente felizes e perfeitas que fazem o protótipo de sucesso.

No entanto, não é saudável negarmos ou reprimirmos o que sentimos, pelo que devemos aprender a desatar os nós que nos permitam exprimir, de forma serena e genuína, os nossos estados de alma.

Não nos devemos apegar à dor ou ao prazer, mas sim deixar fluir as emoções num movimento natural, de acordo com as circunstâncias da vida, não refreando momentos felizes, nem reprimindo a tristeza inerente a momentos menos bons.

As emoções que não nos permitimos expressar não desaparecem, e nem tão pouco se desvanecem. Antes, vão-se acumulando, desvirtuando e escravizando o pensamento, com um poder corrosivo para o corpo e para a mente.

Gosto de rir e de comemorar, mas também choro quando a tristeza me visita ou algo me atormenta.

Gosto de expressar as minhas emoções com sinceridade, para as depurar por forma a que não se tornem “tóxicas” ao ponto de contaminarem a minha mente e me roubarem a paz.

Por outro lado gosto de “saborear” intensamente as emoções positivas, durem elas uma eternidade ou apenas um instante, pois é assim que dou pinceladas de colorido a vida.

Também me perco por vezes no meu caos emocional, dos meus medos e inquietações, das injustiças do mundo, mas logo procuro o caminho que me devolva a capacidade de me sentir novamente inteira.

Normalmente não sinto raiva ou rancor, procurando uma explicação que me dê paz e que não deixe marcas perenes na alma, mantendo assim aquela inocência que dá jovialidade, mesmo com o passar dos anos e o desgaste do corpo.

Olho o futuro de forma esperançosa, e tudo o que sinto pode ler-se nos meus olhos!

(Manuela Resendes)