Mais passado do que futuro…

Há um tempo em que nos sentimos eternos, tudo nos parece tangível e podemos arriscar tudo porque inconscientemente sabemos que ainda podemos voltar de novo ao ponto de partida.

E assim vamos construindo o futuro, com o passado como legado e alicerce, tanto ao nível das emoções como da sabedoria que vamos acumulando.

E agora chegada a um tempo em que o futuro é mais escasso vou habitando novos espaços, mas sabendo que a estrada que me fez chegar até aqui e a bagagem que transporto, porque faz intrinsecamente parte de mim, segue comigo

Vou inventando novos labirintos, refazendo os sonhos, procurando entender a mística destes tempos em olhares distraídos que captam belezas indecifráveis.

Vou preferindo o degustar do tempo ao esticar das horas, em noites que se fazem dias numa fúria de viver, anestesiada por emoções fugazes, pela alegria inventada e pela adrenalina do momento, que nem chegam a ficar devidamente registados na memória.

Sabendo agora que a flor murcha, e se bem cuidada volta a florir, reparo mais na beleza das coisas do que na sua utilidade, e assistir ao despontar do dia enche-me a alma de esperança.

Não quero ficar presa ao passado mas sim retirar dele o que foi e continua a ser importante para a pessoa que sou e para o que ainda quero vir a ser. Vou continuar a lançar ao vento sementes de novidade, mesmo em terrenos inóspitos e corações endurecidos, permitindo ver outras paisagens a partir da mesma janela.

Agora sei que a alquimia do tempo, resulta de ser uma matéria prima sublime e revestida de Amor e de Mar que permite tocar a eternidade!

(Manuela Resendes)

Serra Devassa

Este é um trilho que se faz ao longo de cones vulcânicos, com vista para lagoas e uma vegetação sempre exuberante, podendo assim usufruir-se de paisagens deslumbrantes.

As condições meteorológicas têm de ser favoráveis, sendo que a altitude se situa entre os 750m e os 900m, zona de nevoeiros e neblinas frequentes.

O esforço é largamente recompensado pela paisagem, caminho percorrido ao som do coaxar das rãs e cantar dos pássaros, ar puro e sensação de um “lavar de alma”.

Pronta para o próximo…

(Manuela Resendes)

Passeio…

Olho o mar e é como se olhasse a vida…

Concentro-me no movimento das marés, que tal como o tempo nunca param e sinto-me serena sem razão. Vêem-me à memória lembranças nebulosas de vida devorada por um tempo invisível.

Mas desta teia de pequenos instantes, brotam também esperanças que estavam perdidas na luz incandescente que nos impede de ver, mas que de alguma forma se revelam.

Deixo-me embalar pelo movimento leve e sincronizado das ondas e sinto uma avidez transbordante de vida. Não deixo que o ruído da multidão me impeça de ouvir o meu silêncio, os meus medos e os meus sonhos.

E prossigo…

(Manuela Resendes)

Trilhos…

E hoje foi dia de fazer o trilho da “Rota da Água – Janela do Inferno”, que de inferno não tinha nada pois apenas vi um pequeno paraíso.

Foram 9 km com paisagens deslumbrantes, ao som da água a correr e do canto dos pássaros, entre vegetação luxuriante ou caminhos mais duros, com algumas subidas e pisos a puxar pelo corpo e pela mente.

Que leveza nos traz este “saborear” a natureza, e que bem faz à mente este desligar de tudo para usufruir na plenitude o que a natureza nos oferece.

É uma experiência a repetir…

(Manuela Resendes)

Feriado…

Hoje é feriado…

Quero apenas poder pensar, sem desejos ou convicções, sentindo as várias tonalidades do dia e captando as que me provocam uma maior serenidade.

Não quero medir a velocidade de nada, nem cronometrar o tempo, deixando que este passe por mim de forma escorreita e sem sobressaltos.

Vou deixar as palavras ecoarem em mim, rasgando os silêncios dos meus olhares fascinados a captar o que existe em vazios profundos.

Carrego em mim tantas memórias, de um tempo que não é de hoje nem de ontem, e que existe na sombra da luz que me ilumina.

E porque a minha maior capacidade é a de sentir, quando a luz orvalhada da madrugada surge já reflete em espelho o que me vai na alma, coberta por véus transparentes.

E o tempo escorregadio vai-se sumindo e vai descendo o crepúsculo, fazendo nascer em mim uma nostalgia de não conseguir escrever uma história.

Amanhã terei uma nova oportunidade…

(Manuela Resendes)

Chegadas e partidas…

A vida ocorre entre chegadas e partidas, planos e acasos, encontros e desencontros…

E é neste fluir de emoções que vamos trilhando o caminho entre madrugadas hesitantes e memórias graníticas. Neste balanço entre perdas e ganhos, encontros improváveis e reencontros esperados, vamos sendo iluminados pela inexorável luz da alegria, que dissipa a neblina das partidas.

Somos assim abrigo dos nossos próprios cansaços, acreditando em regressos numa nuvem apressada, numa onda bem esculpida ou numa rajada de vento de norte.

E se a saudade aperta, peço ao mar para me levar em vez de me ancorar.

Encontro assim novamente a paz que tanto persigo…

(Manuela Resendes)

Vida…

Em silêncio vejo passar o mundo

Em vastos e distantes horizontes

Brumas que sobem aos montes

Captam meu olhar mais profundo

Vejo gente que de tanto sofrer

Sem voz, abandona a esperança

Na espuma vou colher a mudança

E já renovada a quero devolver

Alheia a primaveras sombrias

Pressinto já novas alegrias

De palavras gastas, faço um poema

E despertei com vontade infinita

De apagar o fogo que ainda crepita

E de Paz e Justiça fazer o nosso lema

(Manuela Resendes)

Que mundo é este?

Por vezes não sei lidar…

Não sei lidar com a violência, com a guerra, com a morte de inocentes em nome de um qualquer credo ou de um pedaço de território.

Não sei lidar com as exploração dos pobres e desvalidos, em que tudo lhes é retirado a começar pela sua dignidade.

Não sei lidar com o abandono a pessoas vulneráveis, com a falta de empatia e solidariedade em nome de um egoísmo feroz.

Não sei lidar com o tanto que no mundo me incomoda e o tanto que sinto que me transborda.

Mas ainda assim sou sonhadora, ancorada nos valores que vou vendo desmoronar e mantendo uma inocente esperança de que pequenos contributos poderão fazer germinar necessárias mudanças.

Vou refazendo os sonhos para que sejam tangíveis, e busco na natureza a serenidade e energia para os combates fatigantes.

Não me sinto perdida, mas desencontrada por teimar em carregar comigo objetivos exigentes, seguindo o rumo traçado pela minha consciência cívica e emocional.

E vou reinventando a vida, procurando na poesia conforto para as situações dolorosas e fazendo da saudade o trampolim que dá o impulso, rumo a um futuro esperançoso. E neste voo sem asas, mas pleno de intenção, recomeço com a força de quem nunca deixou de acreditar!!!

(Manuela Resendes)

“Azuis”

Estes despertares azuis, radiosos e com borboletas coloridas em voo, são prenúncio de dias de sossego.

Esta luz do amanhecer clareia cada pensamento escuro e permite descansar o olhar em horizontes longínquos, que ficam plasmados na retina límpida.

O mundo, agora já um pouco mais vasto, depois de quebrados alguns muros, já permite matar a sede infinita de liberdade. Agora é preciso recriar a vida, que se foi tornando mesquinha e sonolenta, acreditar na humanidade e na ciência, superar as angústias e fazer brotar poesia de palavras sombrias e inertes.

Carrego em mim todos os caminhos que percorri para alcançar azuis distantes, seguindo o sol que me foi servindo de clarabóia do futuro.

Mas quando os dias se enchem de vazios é nos lugares secretos da minha infância que procuro o colo que me embala e me dá o necessário impulso para novas travessias.

Por vezes é preciso dar um passo atrás, para ganhar o impulso para o salto…

(Manuela Resendes)