Cansaços…

Hoje acordei cansada… despertei do sono e para alcançar a luz da aurora tive de atravessar densos nevoeiros.

O vento soprava de forma cruel e ouvia o rumorejar das folhas, ressequidas pelo sol, a serem revolvidas junto ao chão.

Os meus olhos viajavam em silêncio, encontrando mundos onde as crianças nascem já para uma vida miserável.

A minha revolta espelhava-se num mar tempestuoso, que batia com ira nos rochedos, rasgando as velas dos sonhos que embalava.

Um misto de sensações abstratas invadiram-me, com indecifráveis medos e disfarces de esperança, e vem-me à memória a angústia das primeiras despedidas, num roubo à infância, deixando no caminho uma curva invisível, apesar de mantido o rumo.

Agora, nesta melancolia que deambula em mim, nem alegre nem triste, espero a noite aconchegante, o sono que adormece o corpo e a serenidade que me acalme a alma.

Escuto, mas apenas ouço a voz da minha consciência, sempre atenta…

Mas a madrugada clara irá nascer, plena de promessa de vida feliz para cumprir!

(Manuela Resendes)

Prenúncio de Outono…

O dia amanheceu chuvoso e triste, anunciando a aproximação do Outono.

Senti o passar do vento na pele, onde se vão apagando as marcas do sol e desvanecendo o sabor a sal, tal memórias do Verão.

Cobri-me com a manta do silêncio e fiquei a ouvir a chuva límpida que caía de nuvens com a cor da melancolia.

Saio a rua e vejo pessoas de olhar vazio à espera de nada, vendo no reflexo da água resíduos de juventude, e no arrepio da pele o travo da solidão.

Vejo as folhas a soltarem-se das árvores e a serem transportadas pelo vento, lembrando o eco das despedidas e convidando à introspeção.

Os dias encurtaram, mas nāo vou deixar de caminhar na areia molhada, onde a espuma das ondas acaricia a pele e o azul do mar já denuncia a sua inquietude.

Esta brisa marítima, carregada de liberdade e imprevisto fascina-me e convoca o encontro com a esperança num reduto de paz.

E quando chega a noite, sem se anunciar, no conforto da casa rodeio-me de livros que me alargam horizontes e devolvem a luz que vai alumiar os dias mais sombrios.

Porque o Outono nāo tem de ser triste!!!

(Manuela Resendes)

Novo ano letivo…

E hoje, na maior parte das escolas do país, começou um novo ano letivo…

Apesar de alguma incerteza e medo, provocados pela situação de pandemia que vivemos, o primeiro dia de aulas não deixa de ser um marco importante na vida de qualquer criança ou jovem.

O cheiro dos livros novos, as folhas em branco e as canetas coloridas, materializam o futuro sonhado, com a grandeza do desconhecido.

O reencontro com os amigos/colegas e professores, ou a sempre exultante possibilidade de fazer novas amizades, é também motivo de alguma ansiedade, mas também de uma incontida alegria.

Guardo na memória estes dias como felizes e gratificantes, num recomeço apetecido, depois das “férias grandes” de Verão.

É na escola que se abre todo um mundo novo repleto de possibilidades, onde adquirimos conhecimentos e desenvolvemos capacidades que nos permitem começar a desenhar o nosso projecto de vida.

Aprendi nomes de países longínquos, os quais só sabia apontar de forma certeira no mapa, e nos quais viajava através do meu imaginário, espicaçando a curiosidade e o conhecimento.

Sabia de cor todos os rios de Portugal, e o mar onde desaguavam, sem nunca os ter visto, apurando-me a curiosidade pelo novo.

Aprendi a dizer toda a tabuada sem hesitações, assim como a fazer contas, cujo resultado atestado pela prova dos nove me dava uma satisfação como quem ganha um jogo.

Mas aprender a ler e a escrever foi a porta que ficou escancarada para o mundo, sendo que ainda hoje continuam a ser das atividades que mais prazer me dão…

Através dos livros o mundo amplia-se para números próximos do infinito.

Hoje sinto o perfume desse tempo reencontrado!!!

(Manuela Resendes)

Santa Maria…

Foste o berço da minha infância

E de entre todas foste a primeira

O oceano marca a tua fronteira

Sonhos brotam desta circunstância

No esteio dos campos verdejantes

Na vastidão deste mar de intenso azul

Sem destino vou de norte para sul

Faço o caminho, com o olhar dos viajantes

Encontro gente que sabe ler a lua e o céu

Recantos que contam histórias fascinantes

Bebo a água das nascentes revigorantes

E aprendo a decifrar a ladainha do tedeu

No deserto argiloso de terra vermelha

Senti o apelo para gritar ao mundo

Que sempre foste a minha centelha

(Manuela Resendes)

Os Deuses zangaram-se…

A noite foi de tempestade, com chuva abundante a cair ao som de uma trovoada ensurdecedora e iluminada por intensos clarões de relâmpagos.

Olhei da janela e tinha tanto de belo como de tenebroso, em que os céus se abriam em estradas de luz que desabavam as suas mágoas em jorros de água.

Despertaram em mim medos sentidos na infância, quando era necessário enfrentar tempestades em que, na aparente valentia, escondia o medo de monstros com contornos sombrios.

Hoje percebo que a natureza também tem os seus dias de revolta, mas com a água da chuva lavo a alma, com o barulho da raivosa trovoada aprendo a saborear o silêncio e com a luz dos relâmpagos ilumino os claustros mais profundos da mente, donde resgato questões pertinentes.

A natureza tem de ser respeitada e nunca devemos subestimar o seu poder avassalador de destruição, ou de nos deslumbrarmos com as suas fascinantes cambiantes.

Aos poucos volta a acalmia, surgindo o arco-íris a colorir o horizonte, e vou serenando a minha inquietude e volto a ter o meu olhar tranquilo sobre a realidade.

Os meus olhos avistam agora o futuro em novos céus!

(Manuela Resendes)

Brisa Outonal…

Despertei lentamente, sem pressa, nem sobressalto.

Saí à rua e senti uma brisa outonal a soprar levemente e quis ser vento, sempre tentada pelo voo.

Pareceu-me ser tão livre, vagueando carregado de saber, dominando a cartografia, vivendo desamparada, mas sem medo.

A sua força é capaz de movimentar as ondas e impulsionar a viagem dos navegantes. Muda de direção a qualquer momento, e sem ter asas toca nas nuvens, abrindo brechas e descendo as montanhas a alta velocidade.

Solta as folhas das arvores e as pétalas das flores, para que dancem livremente no chão, e parte impregnado de perfume .

Os ventos podem ser frios e tempestuosos, ou apenas uma brisa que nos afaga, numa carícia consentida e se nos deixarmos levar por ele, conseguimos levitar e soltar as amarras da nossa mente.

Mas esta ladainha do vento, a anunciar o Outono, com as janelas pontilhadas de gotículas de chuva e as nuvens quase a desabar em pranto, emprestaram-me a serenidade de saber que a natureza é feita de promessa.

E o vento com a sua invisibilidade misteriosa continua a ser o milagre que nos resgata, por ser sempre poesia ou prosa!

(Manuela Resendes)

Setembro…

Este é um mês de setembro atípico, que nasce cheio de medos e incertezas.

É hora de recomeços, num tempo de angústias purificadas em entardeceres avermelhados e dias serenos.

A solidão volta agora aos bancos de jardim, em gestos de ternura fatigados de infinitas esperas, colmatadas por palavras que devoram melancolias silenciosas.

Este é também o tempo de implementar novas rotinas, estrear novas estradas, aproveitando sempre os bons ventos e as boas marés.

E como a nascente de água se renova constantemente, vamos acolher os dias com as suas inevitabilidades, ateando a alegria com uma faísca de esperança, contagiando com essa força motivadora aqueles que connosco interagem.

E quando o desalento nos atingir vamos colher a noite, com a certeza que os dias morrem em cada madrugada e nascem em cada despertar, dando vida às flores sedentas das gotas de orvalho.

E num regresso diferente e atípico vamos tentar fazer mais e melhor!!!

(Manuela Resendes)

Flores…

Como são belas as flores!

Gosto de ver as flores num jardim bem cuidado, as que despontam no meio das pedras, fruto da sua resiliência, ou as que dão colorido e perfume em vastas planícies.

As flores têm uma delicadeza e uma linguagem própria, que fazem cintilar as nossas emoções.

Impossível ficar indiferente defronte da beleza exuberante de uma rosa vermelha, face à paz que nos transmite a rosa branca ou a alegria contida numa rosa amarela.

Difícil ficar indiferente à personalidade forte do cravo, a luz que emana do girassol ou à timidez da violeta, que prefere viver na sombra da sua frágil beleza.

Pressentimos a introspecção de um botão de flor que, ao beber uma gota de orvalho e absorver um raio de sol, se abre ao mundo, deixando as suas pétalas partirem, embaladas pelo vento, para audaciosas aventuras.

As flores são o esteio onde as borboletas exibem as suas maravilhosas danças ao som de melodias risonhas entoadas pelos pássaros, alimentando-se deste néctar dos deuses.

E num dia de sol intenso, quero adormecer à sombra de uma árvore frondosa, com vista para um campo florido!

(Manuela Resendes)

Dizer adeus…

Nunca aprendi a dizer adeus sem sentir uma dor indecifrável, que me paralisa.

Procuro o mar e o vento, sigo o voo da gaivota, mas os meus olhos nāo conseguem alcançar o horizonte.

Há um silêncio em mim, que aos poucos vai ganhando eco nas palavras que escrevo e nos olhares que me fazem sorrir.

Vou calcorreando todos os caminhos, saboreando todas as lembranças e começo a pressentir a alegria do reencontro.

Percebo então que cada despedida é também uma nova possibilidade de recomeço. Volto a abrir a janela e sinto o calor do dia ensolarado.

Sinto a vida lá fora a cumprir-se e ganho alento para abrir portas fechadas, que encerram novos sonhos, novas histórias e muita vida para viver.

Encontro assim o caminho do futuro, esperançoso e sorridente!

(Manuela Resendes)