
Aqui fica mais um dos textos que preparei para a minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que seja do agrado de todos…
Realidade virtual
Decorre o ano de 2100 e neste 3 de julho, dia do meu aniversário, voltei à praia da minha infância, em que em tempos a areia dourada se aninhava numa pequena baía cercada por altos promontórios. Já não estava lá a imensidão dos sedimentos, palco de muitas brincadeiras esculpidas nesse chão, por ter sido engolida pelo mar, como por muitos outros lugares onde as alterações climáticas acabaram por mandar. O mar foi galgando a terra implacavelmente ano após ano, batendo galhardamente nos muros altos que agora lhe servem de fronteira, e hoje só as ferramentas tecnológicas que alimentam o quotidiano dos meus netos, e poderosamente inescrutáveis para mim, nos permitem sentir os pés a enterrarem-se na granularidade textural da areia.
Sentei-me num dos bancos disponibilizados à população e, após colocar os óculos de realidade virtual disponibilizados aos visitantes, conectei-os com o hipocampo do meu cérebro, logo revivendo a imagem tridimensional daquela praia tal como a memorizei naquele passado longínquo. Nos meus olhos, emergiu a memória do dia em que jogava à bola na areia, com o entusiasmo pueril que só a adolescência nos oferece, quando um cão que por lá vadiava, e se tinha aproximado paulatinamente, lançou-se sobre a bola com impetuosidade, abocanhando-a e dilacerando-a sem hesitação.
Quando a bola ferida deixou o ar escapar explosivamente num estertor paradoxalmente quase orgânico, o cão, nunca percebi se cumulativamente também em resultado dos meus gritos, saltou para o meu colo, tremendo assustado e quase exangue, o que logo aplacou a minha fúria pelo que tinha feito. Naquele momento, estranhamente, gerou-se uma cumplicidade entre ambos, e logo pedi aos meus pais para o adotar. Desde essa altura passou a ser conhecido por King, e foi sempre um companheiro fiel das minhas brincadeiras até ao fim dos seus dias.
(Manuela Resendes)
