Ler, escrever e viajar…

Estamos sempre a ouvir que “o tempo voa”, que “a vida é um sopro”, porque os dias se esboroam num quotidiano alucinante, sem deixar rasto de memórias.

Esta inquietude por vezes deixa-nos alienados, presos numa teia labiríntica de afazeres que ocupam corpo e mente, de onde não nos conseguimos libertar.

Muitas vezes preferimos assistir resignados a esta erosão da vida do que dar voz aos nossos silêncios, com receio do confronto com a nossa própria realidade.

Não nos podemos fechar a novos conhecimentos, evitar o desconhecido ou utilizar sempre o mesmo caminho, mesmo que isso possa abalar as nossas verdades absolutas.

Temos de procurar na viagem a novidade, o que ainda não sentimos e o que amplia o nosso mundo. Entender outras culturas e religiões, ouvir novas histórias de vida e degustar sabores do que nem sabíamos existir.

Através dos livros também podemos viver pedaços de outras vidas, realizar novos sonhos e participar em acontecimentos em latitudes distantes, sem sair do mesmo lugar. Este é um superpoder que não podemos desperdiçar, porque cada livro é uma nova oportunidade de viver uma história que nos acrescenta e faz feliz.

E depois vem a escrita que é o resultado da depuração de todas as emoções e sentimentos despoletados pelas nossas vivências, traduzidas por palavras que são ditadas pelo coração.

(Manuela Resendes)

Chuva e mais chuva…

Ouço uma melodia que me é familiar e que chega até mim através da janela do tempo. As ruas vazias e silenciosas deixam sobressair a musicalidade de grossas gotas de chuva a cair, com uma cadência ritmada como as batidas do coração.

Não vejo o azul do mar nem do céu, mas vou desenhando nuvens com as formas e cores do meu pensamento.

Resgato memórias de vazios não explorados, navegando no lençol de água e tendo como bússola o perfume destes dias chuvosos.

Vou juntando estes pequenos retalhos de vida que vão sendo costurados com o fio do pensamento, ganhando assim forma, sentido e transportando novas emoções.

Apesar da chuva e trovoada, estes também podem ser dias serenos e harmoniosos, de lavagem da alma dos resíduos tóxicos de dias ruidosos e fúteis.

Gosto destes dias de aconchego e poesia…

(Manuela Resendes)

Manhãs de nevoeiro

Não se vê o céu nem o mar, as nuvens não têm forma e o denso nevoeiro encobre até as doces lembranças.

Os sítios parecem estar fora do mapa, entre sombras e vazios, onde se espelham pensamentos numa escuridão arbitrária.

A água vai caindo gota a gota do beiral, lavando saudades indefinidas, à espera de uma luz que se irá refazer.

Estes dias têm de ser temperados de riso e ironia, em que se colhem as palavras mal habitadas e delas se faz poesia.

E para abrir clareiras é preciso espreitar além do escuro, procurar portos abrigados, não permitindo perder o norte e de forma livre acolher o futuro.

Nestes dias até os pássaros ficam em silêncio, não sei se por med,o ou por falta de alegria, mas é preciso ousar romper o nevoeiro!

(Manuela Resendes)

O prazer de partilhar

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Escrever é cada vez mais uma necessidade e um prazer. Partilhar o que escrevo faz sentido neste novo caminho que vou trilhando e aos poucos os sonhos vão-se concretizando.

Assim foi com muita satisfação que vi selecionados dois poemas da minha autoria para serem incluídos no Coletivo de Poesia intitulado “No Calor da Poesia, A Esperança”, vol. 2, Edições Vieira da Silva.

Vou percorrendo este caminho de forma serena e saboreando cada detalhe…

Manuela Resendes

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Últimos dias de outubro

As madrugadas são escuras, surgindo de mansinho um fio de luz a anunciar a nova aurora.

Nas folhas das plantas aninham-se as gotas de orvalho noturno à espera que um raio de sol as torne resplandecentes.

Há uma névoa de incerteza no ar, que não permite assomar as paisagens que deslizam na distância, embaladas por uma brisa suave que faz estalar as folhas crepusculares que se deslocam sonolentas rastejando ou flutuando em movimentos sincronizados.

O ar fresco matinal, remete-me para a lembrança da casa silenciosa de uma indizível paz e das alegrias ruidosas, carregando uma saudade que se aconchega no calor da pele.

E apesar das palavras estarem ainda carregadas de noite, os primeiros raios de sol são o estímulo para a tarefa sempre inacabada de procura de felicidade!

(Manuela Resendes)

O farol

Ao longe avisto um farol

Que ilumina o mundo sombrio

Cais que vai abrigar do frio

Noites sem perfume de lençol

Em noites de tempestade

Almas inundadas de anseios

Olhos que são pátria de receios

Matam a fome com a dignidade

Mar incerto, espelho do mundo

Reflexo de uma luz inconformada

Onde se acendem velas de esperança

E neste momento que é fecundo

Nasce o sol, rompendo a madrugada

Soltando o grito da vitória, mudanca!

(Manuela Resendes)

A casa que deixei…

A casa que um dia deixei, com a voz embargada e os olhos marejados, não permanece mais lá.

Quando regresso, tudo está tão distante daquela manhã, que nem reconheço os abrigos de rigorosa ternura, nem os esconderijos de pedra morna e suave, restando apenas uma esperança desvitalizada.

A algazarra das crianças foi engolida por noites de temporais, onde as emoções se insinuam tão subtilmente através de fios de silêncio à espera de serem escutados.

O jardim viçoso e colorido é agora um terreno alagado, que percorro num passo desamparado e solitário sentindo o perfume insinuado das roseiras e do jasmim.

O aconchego que alumiava a escuridão da alma é agora um misto de sensações devolutas, que apenas dão sentido ao tempo.

Os dias inocentes perderam-se no meio das ruínas carregadas de histórias escritas a partir das teias da realidade.

A soleira da porta que servia de varanda para o mundo, não tem mais o encanto de perscrutar a novidade, nem tão pouco serve para descansar o corpo deste tempo dilatado.

Mas a janela do meu quarto, onde o sol cedo o iluminava, ampliando a sua luz, permanece lá com os vidros salpicados com vestígios dessas manhãs.

Foi então que me senti em casa…

(Manuela Resendes)

O vento

Ali, num recanto do meu jardim

A folhear um velho livro de poesia

Olho as folhas e nuvens em romaria

Pássaros a saltitar num grande frenesim

Palavras soltam-se, no vento da madrugada

Transportam com ele o perfume da saudade

E vejo pétalas que caem por pura vaidade

Deixando assim a sua alma subjugada

Não sei a forma nem a cor do vento

Leva mil promessas e traz alguns sonhos

Inventa futuros que podem ser risonhos

Que são magia e outras vezes lamento

Nasci em tempos ainda áridos e rudes

Em noites que despem madrugadas

Luzes que iluminam, almas enganadas

Sofrimentos feitos de grandes virtudes

Mas mesmo quando estou ausente

Sei de cor a textura do meu chão

Que me deixa aguçada a impressão

De sempre ter estado lá, presente.

(Manuela Resendes)

Caminhada nas Furnas

Aliar o exercício físico com o prazer de desfrutar da natureza e, em silêncio, usufruir de paisagens deslumbrantes, da brisa macia e do perfume das conteiras, transmite-me uma sensação de paz, que tanto aprecio.

Nunca me canso de voltar a este lugar místico, nuances e mistério. A luz, o nevoeiro, o vapor das caldeiras, fazem das Furnas um lugar impar e sempre diferente.

E hoje a lagoa exibia-se em espelho, deslumbrante, de uma forma tão inspiradora que cativou de forma especial, o meu olhar.

Este lugar é pura poesia…

(Manuela Resendes)