Ao Francisco (meu terceiro sobrinho-neto)…

O Francisco tem apenas horas de vida mas já conseguiu inundar os nossos corações de alegria, fazer-nos sentir um Amor transbordante e uma vontade infinita de o proteger nos nossos braços.

O “nosso” bebé também ainda nāo sabe que chegou a um mundo virado do avesso, a que também nós nos estamos a habituar a viver. Por isso as fotos e os ecrãs são por estes dias a única forma que temos de acompanhar este momento tão especial das nossas vidas.

Chegaste como um prenúncio de Primavera, com perfume de novidade, espaço onde podem germinar todos os sonhos, e com uma luz que varreu as nuvens de dias sombrios.

Tens um nome que nos vai saber bem pronunciar, remetendo para felizes lembranças, mas o que vemos através dos teus olhos é um futuro cheio de promessa, onde te queremos ver feliz e completo.

Em dias de maior tempestade, seremos o teu abrigo, pois tens a sorte de ter tanto colo para te acolher, Meu Amor Pequenino.

Parabéns Ana e Tomás!!!

(Manuela Resendes)

Sentido de Pertença…

Durante uma fase da minha vida senti que pertencia a vários lugares mas que não tinha as “medidas padrão ” que me permitissem encaixar em algum deles. Esse sentimento de não pertença a um lugar provocava-me uma sensação de algum desamparo.

Como a planta que colhemos pela raiz, à qual roubamos a oportunidade de florir, no caminho percorrido até aqui senti muitas vezes a fragilidade de uma maturidade roubada à infância.

O percurso não foi linear, fui-me ajustando, defendendo, sentindo-me tantas vezes invisível, e outras tantas em destaque fruto de um trabalho silencioso e persistente, mas sem saber lidar com uma pele que não se ajustava ao corpo. Quanto mais mundo, mais rica é a vida, quanto mais experiências, mais ensinamentos, quanto mais questões resolvidas mais perguntas surgem.

Mas aos poucos aprendi a confiar em mim, a vincar a minha identidade e a potenciar as minhas capacidades, acreditando na bondade dos caminhos longos, percorridos numa solidão consentida. Fiz assim a ligação do passado ao futuro, adquirindo uma serenidade e bem estar que me permite viver de forma harmoniosa, quer com o meu mundo interior , quer com a realidade que me rodeia.

Hoje vivo sem ressentimentos nem angústias, olhando sempre o lado bom das coisas, exultando com as alegrias próprias e dos que vivem no meu coração, e ultrapassando as dores da vida com serenidade e capacidade de aceitação.

Agora percebo que há um sitio que nos pertence, onde estão as nossas raízes, ponto de partida para todo o tipo de viagens onde voltamos sempre por ser o abrigo mais aconchegante do mundo.

Que a vida me permita sempre ter esta curiosidade quase infantil de olhar para o que está para além do horizonte e sentir vida a acontecer…

(Manuela Resendes)

Abro as gavetas…

Todos nós temos aquelas gavetas misteriosas, onde se escondem tesouros de um passado guardado num recanto da nossa memória.

Posso encontrar mapas de estradas já percorridas, relógios onde o tempo parou ou fotos de um registo feliz; ainda roupas de encenação de outros tempos, cartas escritas com muita emoção ou poemas que nunca viram a luz do dia.

É uma viagem de sensações, em que a novidade está no que já foi vivido, onde se encontra o que nunca se perdeu e se avistam horizontes carregados de nostalgia.

E vem-me à memória um dia de chuva, um cheiro a perfume, uma casa fechada…

Lembranças reencontradas, como se as não tivesse sempre possuído, dum património silencioso sempre à espera de ser revisitado.

(Manuela Resendes)

Em Dia de São Valentim

O Amor, não tem dia nem hora

O tempo nele é uma constante

Onde cabe a eternidade e o instante

Na ambiguidade da presença e demora

É brisa refrescante no abraço

Voo de asa solta no azul do céu

Levantando assim as pontas de véu

Navegando nas ondas do espaço

A ver a luz do sol a desmaiar

E de novo a aurora a raiar

Entre o sonho, o sono e a realidade

E de tanto te compreender, sinto

A cor da dor e da alegria, por instinto

Sem amarras, presa no fio da liberdade

(Manuela Resendes)

“Conta sempre comigo”

Esta é uma frase que tantas vezes dizemos a amigos e familiares, e ouvimos outras tantas, mas que muitas vezes nāo se traduzem em atos, quando é verdadeiramente preciso estar presente.

Hoje comemora-se o Dia Mundial do Doente, e se há situação em que ter um amigo por perto dá um conforto inexplicável é quando nos sentimos doentes. Quer pelas limitações físicas, que roubam autonomia, quer pela vulnerabilidade acolhida ou pela solidão sentida, o calor de um abraço solidário é o que permite encontrar as respostas sábias.

O “conta comigo” nāo pode corresponder a palavras vazias, de circunstância ou de cortesia; têm de ser sentidas, porque podem ser a luz em horas de abandono ou em noites que parecem nāo ter fim.

É estar quando a coragem dos dias antigos vacilar, e ajudar a encontrar o caminho onde a identidade se perdeu. É estar em silêncio, ou ouvir a musica preferida, encontrando o espaço certo para encaixar na necessidade do outro.

É deixar que o eco das palavras faça ressoar uma mensagem de coragem e esperança nas ausências consentidas.

“Conta comigo” é chegar antes de ser necessário, antecipar dias de solidão e acolher a vulnerabilidade, porque a vida faz muito mais sentido se soubermos partilhar os bons e os maus momentos!

(Manuela Resendes)

“Entre o sono e o sonho”

Fui desafiada pela Chiado Editora para contribuir com um poema da minha autoria para o livro “Entre o sono e o sonho”.

O meu poema reuniu os critérios para ser incluído no referido livro, não podendo deixar de fazer um agradecimento à Chiado Editora por mais esta oportunidade de dar a conhecer a um publico mais vasto um pouco da minha escrita. Não posso também deixar de agradecer a todos aqueles que seguem o meu blogue e que todos os dias me incentivam a prosseguir nesta caminhada.

O meu muito obrigada!!!

(Manuela Resendes)

Tempos exigentes…

Olho à minha volta e tudo está agreste…

As nuvens de cinza escuro movem-se com a urgência da descarga, o vento sopra forte de norte e a chuva cai de forma raivosa.

Vejo olhares vagos, perdidos num tempo sem medida, e gestos meigos escurecidos de silêncio, fugindo de lengalengas fastidiosas e inférteis.

Ouço um murmúrio de queixume e o alento vai esmorecendo como o arome do perfume, restando uma coragem feita de cansaços.

E quando o sol desaparece a poente, os pensamentos surgem alados de medos prematuros, tocando as arestas do futuro.

Mas há sempre um novo raiar, que nos permite olhar os amplos horizontes e encher de novo a alma de uma energia retemperadora que nos reconcilia com a vida, vendo em cada gota de orvalho o germinar de um tempo harmonioso.

Que nestes tempos incertos nunca nos faltem os Sonhos e a Fé…

(Manuela Resendes)

Carta a um Amigo de infância…

Na sequência do desafio lançado pela Editora Letras Lavadas para escrever uma carta a um amigo/a no âmbito das comemorações do dia de Amigos/as, tradição açoriana que este ano devido à pandemia teve de ser feita à distância, dei o meu contributo com a escrita de uma missiva endereçada a um amigo de infância.

Estas cartas foram publicadas pela referida editora no e-book “Longe da vista, mas perto do coração“, que pode ser consultado através do link letras lavadas.pt, sendo o download gratuito.

Partilho aqui a carta com que respondi ao referido desafio….

Meu Caro Luís,

Espero que esta carta te encontre bem, apesar das circunstâncias mais difíceis e desafiantes que estamos a viver. Mas como tantas vezes dissemos, a vida é feita de saltos e sobressaltos e são os amigos a tecer a rede que nos ampara ou serve de trampolim para voos mais altos.

Nestes dias mais introspetivos dei por mim a pensar nas nossas brincadeiras de infância, e no quanto ficávamos felizes com as pequenas transgressões, como saltar na poça com mais água ou visitar aquele vizinho que tinha sempre uma história engraçada para contar, atrasando o regresso a casa, com a consequente repreensão.

Mais tarde eram as longas conversas, em que tudo era questionável, fazendo-nos perder a noção do tempo, mas ganhando estatuto de gente crescida com opiniões bem demarcadas e sentindo-nos donos da verdade.

E foi-se gerando assim uma tal cumplicidade entre nós que um olhar, ou um silêncio, era imediatamente percebido, e o seu significado descodificado. Os sonhos eram também eloquentes, com projetos conjuntos com grande impacto no futuro da humanidade.

Entretanto quis o destino que a nossa vida decorra separados pelo mar, mas sempre soubemos transmitir a coragem, o otimismo e o alento de que o outro precisa.

Quantas vezes depois de um momento triste acabámos com uma gargalhada, desconstruindo e tornando mais leve a realidade, inventando soluções quase mágicas, nesta conexão mental que perdura, apesar do tempo e da distância.

E enquanto te escrevo espreito pela janela e um raio de sol rasga o cinza do céu deste dia nublado e triste, e avisto a roseira que um dia me ofereceste acompanhada de uma mensagem que me acompanha até hoje, que não, sei se te lembras, dizia o seguinte: “mesmo as rosas vermelhas de que tanto gostas, apesar da sua beleza, têm espinhos; a vida também é assim…”. Com esta recordação o dia ganhou um novo colorido, e ao ver os botões de rosa a desabrochar livremente, indiferentes ao que se passa á sua volta, senti-me voltar à infância com uma inocente sensação de liberdade.

E como a carta já vai longa, despeço-me na esperança de um reencontro breve e na expetativa de receber notícias tuas.

Um grande beijinho desta tua amiga que te traz sempre no coração.

Manuela Resendes