Flores…

Como são belas as flores!

Gosto de ver as flores num jardim bem cuidado, as que despontam no meio das pedras, fruto da sua resiliência, ou as que dão colorido e perfume em vastas planícies.

As flores têm uma delicadeza e uma linguagem própria, que fazem cintilar as nossas emoções.

Impossível ficar indiferente defronte da beleza exuberante de uma rosa vermelha, face à paz que nos transmite a rosa branca ou a alegria contida numa rosa amarela.

Difícil ficar indiferente à personalidade forte do cravo, a luz que emana do girassol ou à timidez da violeta, que prefere viver na sombra da sua frágil beleza.

Pressentimos a introspecção de um botão de flor que, ao beber uma gota de orvalho e absorver um raio de sol, se abre ao mundo, deixando as suas pétalas partirem, embaladas pelo vento, para audaciosas aventuras.

As flores são o esteio onde as borboletas exibem as suas maravilhosas danças ao som de melodias risonhas entoadas pelos pássaros, alimentando-se deste néctar dos deuses.

E num dia de sol intenso, quero adormecer à sombra de uma árvore frondosa, com vista para um campo florido!

(Manuela Resendes)

Dizer adeus…

Nunca aprendi a dizer adeus sem sentir uma dor indecifrável, que me paralisa.

Procuro o mar e o vento, sigo o voo da gaivota, mas os meus olhos nāo conseguem alcançar o horizonte.

Há um silêncio em mim, que aos poucos vai ganhando eco nas palavras que escrevo e nos olhares que me fazem sorrir.

Vou calcorreando todos os caminhos, saboreando todas as lembranças e começo a pressentir a alegria do reencontro.

Percebo então que cada despedida é também uma nova possibilidade de recomeço. Volto a abrir a janela e sinto o calor do dia ensolarado.

Sinto a vida lá fora a cumprir-se e ganho alento para abrir portas fechadas, que encerram novos sonhos, novas histórias e muita vida para viver.

Encontro assim o caminho do futuro, esperançoso e sorridente!

(Manuela Resendes)

Sonhos de verão…

Quero habitar num sonho de verão!

Nas auroras resplandecentes ganho o impulso das ondas que me permite transpor os muros e vislumbrar paisagens deslumbrantes, onde encontro o silêncio e a paz que me regeneram.

Solto os cabelos, que soprados pelo vento ganham asas, permitindo-me aceder a misteriosos caminhos. Conquisto a liberdade, prendendo o tempo com o fio invisível da ousadia, a esse instante.

E no meu barco de papel, deslizo em aguas calmas e transparentes, iluminadas por luares de agosto.

Aporto num lugar seguro, onde deixo a saudade e esbanjo esperançosas vontades, lendo poemas nos troncos das arvores, nas pétalas das flores e nos bancos de jardim, que inspiram a mudança.

E nas águas que correm de um rio sem fim vi o futuro a nascer em gente de rosto luminoso, num mundo reconfigurado.

Quero saber transportar esta sabedoria, emprestada pelos deuses, até onde a minha voz possa ser ouvida.

(Manuela Resendes)

Contemplação…

Todos nós somos persuadidos pelo belo!

A beleza expressa-se de inúmeras formas, quer seja através de uma paisagem deslumbrante, um gesto bondoso ou uma obra de arte, despoletando em nós boas sensações.

O belo atrai-nos, podendo ser transformador, e ajuda-nos a inventar uma vida menos sombria em que o futuro se reveste de tons dourados.

Não ficamos indiferentes perante um lago sereno, mas cheio de vida e reflexos de luz, ou assistindo à passagem do rio que perante o nosso olhar embevecido, prossegue o seu caminho indiferente ao despertar do nosso imaginário.

E o pôr do sol que ocorre num tempo fugidio, deixa a sua beleza plasmada na nossa memória com solidez granítica, resgatando assim o abstrato sentido da vida.

E não esqueço os sorrisos que exalam o perfume da alegria, bem como os olhares mágicos que tornam fascinante tudo à sua volta, numa intrusão inesperada que acolhemos de forma ternurenta, amortecendo os duros combates da vida.

(Manuela Resendes)

Verão do nosso (des)contentamento

Este é um verão diferente, sem festas, nem festivais, sem convívios alargados, nem viagens exóticas.

Mas estes dias de luz intensa e muito colorida podem-nos trazer a tão almejada paz, de um tempo sem tempo com que tanto sonhávamos.

Contemplando um pôr do sol laranja, que se mistura com o azul do mar, sentindo a brisa que me refresca, sinto um desejo que me transcende de eternizar estes momentos.

Passeiam-se em mim lembranças e saudades, mas também novos encontros e reencontros, em que não só se esbanjam risadas e emoções como se sacia a sede de uma alegria quase inocente.

Não podemos deixar que a nostalgia nos impeça de sentir o aroma das amoras silvestres e da terra molhada, perfumes de verão que nos inebriam.

E dos azuis que irrompem do mar e do céu soltam-se palavras desertas e desamparadas, que ganham agora um novo sentido. E a natureza prossegue o seu ciclo, indiferente, como a seara de trigo que depois de ser restolho, germina novamente.

Na hora de acolher a noite, a olhar as estrelas, sinto-me fascinada pelo silêncio, em que calo as palavras para poder usufruir de tantas sensações, que uma noite de verão pode despoletar.

(Manuela Resendes)

Rotinas…

Queixamo-nos de que a vida é demasiado rotineira, em que os gestos se repetem numa monotonia sem surpresa nem espanto.

Mas quantas vezes olhamos e não vemos, ouvimos e não escutamos e sentimos mas não nos emocionamos.

Idealizamos de tal maneira a vida que nos perdemos nos seus labirintos impedindo-nos de prosseguir e de a cumprir.

Mas o meu espírito inquieto leva-me a procurar novos caminhos, degustar novas sensações e fazer da esperança uma arte ao meu alcance.

Seduzida pelo reflexo de um entardecer, sacudo o pó da mente e eternizo esses instantes, que me dão a necessária força para subir a montanha e ver mais longe.

E neste confronto entre a previsibilidade e o desconhecido, vou encontrando o meu equilíbrio, onde mato a monotonia e acordo dos sonhos para um mundo novo.

Transportando a paz na alma, gosto do impulso e da surpresa, para nāo deixar o tempo ser varrido pelo vento, desaparecendo sem deixar lembranças.

Gosto de transformar a rotina numa monotonia fecunda, que me preenche pelo conteúdo do seu silêncio, onde se abrem janelas para mundos invisíveis.

Assim, podemos sempre recomeçar sem sair do mesmo lugar!

(Manuela Resendes)

Agosto…

Abro a janela e deixo entrar agosto, respirando o azul do céu que está agora mais perto.

Vou descortinando o propósito deste dia, qual a sua subtil novidade e o que carrega nos detalhes do quotidiano.

Vou aprendendo novos pontos, para ir bordando sentimentos num ajuste de doses diarias de sonho e realidade, medo e superação, tristeza e euforia.

Viajo para destinos abstratos onde os sonhos debandam em voos solitários, à procura de novas conquistas.

E nas longas tardes, contemplando o sol a perder a luz, ilumino o silêncio com um rasgo de assombro e descoberta que a leitura me permite.

Este sentir, que extravasa a minha alma errante, suaviza dores ocultas nesta minha sede de infinito, envolto em doces emoções.

E nas sombras da noite, vou desatando os nós da vida, dando espaço à escuta, à reflexão, permitindo que os pensamentos fluam e habitem a minha realidade.

Quando o sono chegar quero dançar na espuma das ondas!!!

(Manuela Resendes)

Caminhos…

Caminho pela rua quase deserta e sinto uma brisa hostil imbuída de nostalgia.

Ouço, numa linguagem de segredos, palavras que se soltam da calçada, perturbando a minha paz e perseguindo a minha sombra.

Tento em vão decifrar o seu significado, porque apenas resta o eco do seu silêncio.

Cruzo-me com olhares disfarçados de risos, que provocam em mim uma sensação de estranheza e desconforto.

Neste vazio, de espaços infinitos povoados de muros de angústia, vou temperando as vicissitudes da vida, com uma bondosa esperança perfumada de futuro.

E neste tempo sem acostagens, olho os barcos que chegam e partem, carregados de lutas que intimidam e de emocionantes despedidas.

Mas esta luz vaga que rasga as nuvens, carrega fragmentos de vida com infinitas possibilidades de acolhermos a novidade do mundo.

E quando a fadiga começa a pesar, e a mente a silenciar, esta vivência da nossa própria vulnerabilidade é a alavanca que nos permite progredir para outras dimensões da vida, reinventando os alicerces do nosso equilíbrio.

E porque a vida é maior do que nós, o tempo que nos pertence, e o que fazemos dele, é o nosso mais importante legado.

(Manuela Resendes)

Sol…

O dia amanheceu radioso, transportando nos raios de sol ondas de alegria e fragrâncias da alvorada.

Gosto da transmutação serena da natureza, mas este azul intenso do céu e do mar levam-me a viver outras vidas.

O êxtase desse brilho que incandeia, varrendo medos e enganos, resgatam a esperança perdida em dias sombrios, em estações que se sucedem alheias aos problemas do mundo.

E o meu olhar, por vezes debruçado sobre neblinas e incertezas, contempla agora os jardins floridos e vê com clareza o sabor da eternidade.

A brisa que passa, deixa as folhas paralisadas no chão, mas aquece a minha pele salgada, refletindo o colorido do verão e a vastidão desse mar de novidade.

Embalo-me na rede, protegida pela sombra que me abraça, e no prazer da leitura liberto os sonhos, que voam nas asas de uma gaivota. Entre o céu e o mar vão-se soltando fragmentos de risos e instantes de felicidade, até se perderem na linha do horizonte.

E quando a noite surge de mansinho, nessa imensidão de vida que é um céu estrelado, de onde espreita a lua, sinto-me imersa nessa magia e só quero parar o ponteiro do relógio, de um tempo que se solta e corre veloz.

(Manuela Resendes)

sdr

Notícias…

Todos os dias somos invadidos por notícias de todo o tipo de tragédias, de um mundo onde parece nāo acontecer nada de bom.

Temos de nos proteger dessa avalanche de informação, que nos provoca ansiedade e medo, daí resultando baixas espetativas de um futuro que abrigue os nossos sonhos.

Esse ruído perturbador de violência, indiferença e desumanidade, convidam-me a voltar para a minha “concha” de silêncio, onde só ouço o barulho do mar.

Prefiro olhar o lado bom das coisas, rir dos meus pequenos dramas e viver a realidade através das sensações.

Quero quebrar os muros de angústia e viajar para um país onde possa ver o amanhecer que ilumina o escuro da noite, a chuva que lava o caminho e a novidade que permita visitar o futuro, com a chama da esperança.

Quero ser a voz das conquistas, da superação, da solidariedade, que nos permita acreditar que nesta breve passagem pela vida podemos assistir aos maiores horrores, mas também ficar deslumbrados com os melhores exemplos.

Este é um tempo conturbado, de desequilíbrios e muita perturbação, onde temos de procurar em todos os nossos recursos a resiliência que nos permita prosseguir em mares mais calmos.

Por vezes é preciso passar o “cabo das tormentas” para se avistar novamente a bonança…

Nāo se pode é desistir!

(Manuela Resendes)