Angústia…

Tento serenar, mas as imagens que percorrem o meu pensamento não o permitem…

São vidas derramadas pelo chão, pessoas amputadas de futuro e olhares vazios de onde já não brota nada.

A fuga sem plano é feita apenas com o instinto de sobrevivência, num abismo de emoções, rumo a uma qualquer geografia onde haja paz e possibilidade de recomeçar. Os gritos são silenciosos e detonam para dentro da própria alma.

Crianças inocentes brincam alegremente num qualquer abrigo de refugiados de guerra, emprestando alguma alegria e normalidade, e comovendo…

Não me conformo com estas atrocidades, cometidas por ambições estreitas, mas sinto-me esmagada pelo peso dos obstáculos e por esta dor, mas vou ligar o meu fio de esperança ao de tantos outros, gerando um ponto de luz que permita relançar a vida.

Não sabemos para onde caminhamos, neste mundo incerto e intrincado de problemas que nos deixa a sensação de desamparo, onde os sonhos não habitam.

Mas nestes dias em que a vida já nos assoma embaciada, é preciso dar espaço àquela brecha por onde pode entrar um raio de sol, que faça derreter o gelo de corações empedernidos. E a partir dessa pequena porção de energia, conseguiremos ver tudo mais claro e encontrar o norte.

(Manuela Resendes)

Dia Internacional da Mulher

Enquanto houver em alguma parte do mundo mulheres que vivem privadas de liberdade por razões religiosas e/ou culturais, silenciadas e desrespeitadas…

Enquanto houver mulheres que vivem com o medo estampado no olhar por serem vitimas de violência física e psicológica…

Enquanto houver discriminação das mulheres nos locais de trabalho, tanto a nível salarial, como no acesso a cargos de chefia…

Enquanto se justificar haver um mero dia no calendário para trazer à ordem do dia estas e outras questões relacionadas com desigualdades de género, este será sempre mais um dia para refletir.

Hoje deixo a minha sentida homenagem às mulheres refugiadas de guerra, que tudo deixam para trás, ou arriscam ficar, para salvarem ou permanecerem com os seus filhos.

E sonho com o dia em que não se justifique existir este dia, por estarem assegurados os mesmos direitos e o respeito pela diferença.

(Manuela Resendes)

Guerra…

A Guerra

Não sei a quem a guerra serve

Porque a vida é sempre breve

Desumanidade que tanto doi

Destruindo povos e nações

Por eloquentes aspirações

Levam ao caos que tudo destrói

A vida corre, aparentemente

E a morte surge disfarçadamente

Soldado que morre e é herói

Auroras que rompem escurecidas

Porque as armas já estão munidas

Levam ao caos que tudo destrói

São os donos do povo e da nação

Não olham ao rasto de destruição

Indiferentes ao que a Paz constrói

Roubam o futuro, que se quer abraçar

A antiga coragem começa a faltar

Levam ao caos que tudo destrói

Sobra a fome para repartir

Sobra injustiça e vontade de ir

Sobra a dor e o medo, que corroi

Levam ao caos que tudo destrói!

(Manuela Resendes)

Avessos…

Existem dias em que os silêncios nascem de palavras que acordam já fatigadas. Os vazios multiplicam-se e ficam repletos de sombras que não são filhas da luz.

Os dias adormecem antes da noite, numa inércia que se faz de um movimento sem fim, num cansaço sonolento de rotinas banais.

Na casa pequena, em que do telhado se faz chão, são os sonhos que a ampliam até nela caber o universo.

O vento que bate na janela não vem acompanhado de tempestade mas sim de calmaria. O sol entra quando é já poente e a visão do vizinho do lado está para além do horizonte.

Os dias estão vestidos do avesso, pretendendo a dignidade que injustiça não confere. As guerras fazem-se não para matar a fome, mas para auferir mais riqueza.

As lágrimas são disfarçadas de sorrisos, a tristeza tapada com máscara e a dor anestesiada com químicos, porque o mundo é dos “fortes”.

Só um trapezista de almas, com saltos vistosos e arriscados, poderá virar novamente tudo ao contrário!

(Manuela Resendes)

Sem roteiro…

Caminho por entre pedras negras, bafejada por uma brisa fresca e reparo na onda que se demora no encontro com a rocha, numa ternura amarrotada.

As palavras são sufocadas por um falso silêncio, e ao longe avisto um barco que passa alheio à minha presença.

Neste transbordar de infinito, mergulho nas memórias, que tal como as ondas se quebram ou abraçam a enseada me remetem para novas vontades. Estas verdades exiladas, pelo correr do tempo, são suavizadas por palavras luminosas que bradam por acolhimento.

Vou vendo a vida ao longe, a partir deste grão de rocha que o vento vai desgastando como os pensamentos se vão desvanecendo.

E no limite da praia, descubro esconderijos disfarçados para melhor ouvir a voz do mar, perene como o interminável movimento das ondas.

Na conquista desta paz harmoniosa, sinto-me caminhar no Olimpo, na sombra dos Deuses!

(Manuela Resendes)

Dia Mundial da Rádio

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Rádio, tendo esta data sido escolhida por ter sido a 13 de fevereiro de 1946 que a United Nations Radio, emitiu pela primeira vez. Contudo, só em 2011 a UNESCO declarou o Dia Mundial da Rádio, que se comemorou pela primeira vez em 2012.

A rádio acompanhou os principais acontecimentos históricos mundiais, continuando a ser um dos meios de comunicação social mais fiável e acessível em todo o mundo.

Aproveito a efeméride para agradecer a oportunidade que me foi dada pela Rádio Atlântida, na pessoa do seu Diretor, para ter uma crónica semanal intitulada “Alquimia das Palavras”. Esta rubrica pode ser ouvida às terças-feiras e quintas-feiras na Rádio Atlântida, pelas 18h30m (hora dos Açores), e às quartas-feiras e sextas-feiras na R80, às 8h30m (hora dos Acores).

Parabéns a todos os profissionais da rádio!

(Manuela Resendes)

Horizonte…

Abro a janela do tempo e avisto o horizonte, que surge na minha retina como um enigma opaco. Em manhãs claras, descortino ilusões desenhadas nos recortes das sombras e invento pontes para a realidade, em tardes de céu ao rubro.

Perscruto a coreografia da dança das nuvens, carreadas pelo vento a uma distância imprecisa em harmoniosos movimentos num espetáculo irrepetível.

É nesta visão da liberdade que os sonhos vão faiscando, e através da sensibilidade do olhar o poema se escreve.

As velas brancas agitam-se ao vento, onde incide uma luz que tudo reveste, feita de estrelas cintilantes e de uma lua como um espelho.

Ganho assim asas de Condor que me permitem ir mais além, derrubando muros e desvendando mistérios manifestos.

Vou assim seguindo o fio da vida até ao infinito, porque o horizonte norteia mas nunca se deixa alcançar.

(Manuela Resendes)

Decifrar o mundo…

Vivemos com uma clara falta de aproximação, alheados de tudo e sem escutar o que nos rodeia. Deixamos de decifrar estados de espirito nos rostos com quem nos cruzamos, de prever a chuva a olhar o céu ou de perceber a passagem do tempo pelo germinar das sementes.

Olhamos a lua só como espetáculo, alvo de foto para o Instagram, sem tão pouco a correlacionar com os ciclos da natureza.

Olhamos as flores porque as cores são apelativas e o belo nos atrai. Mas não nos detemos nos pormenores, na delicadeza de cada pétala, na interação com o sol ou na subtileza do seu perfume.

Mas tudo isto é poesia, permitindo-nos mergulhar num mar de ternura, de esperança que nos alavanca para um olhar mais humanizado.

Esta transcendência é o melhor ansiolítico para amenizar a inquietude em que vivemos e conquistar uma serenidade harmoniosa, dando um salto de fé que nos vai permitindo compreender melhor a infinita complexidade da vida.

E não estamos sós, podemos sempre ir buscar a necessária inspiração e exemplo a outras vidas que connosco partilham esta misteriosa aventura que é a vida, para que o futuro encontre o seu espaço, ligado ao passado por fios invisíveis que fazem a devida conexão.

(Manuela Resendes)