Cansaços…

Sinto em mim um estranho cansaço, que nāo sei se é angústia da alma ou os limites do corpo. Há uma ausência de mim, neste viver rodeada de exiguidade.

O meu olhar vai-se esvaziando na exaustão dos dias, nesta busca constante de transcendências, inventando um chão infinito para tocar as distâncias.

Acordo todos os dias, na esperança de boas marés que permitam fazer-me à viagem, na esperança de avistar novos azuis que me devolvam o brilho no olhar.

Esta inquietude, de olhar o Mundo desequilibrado e desequilibrador, num silêncio perturbador que faz um eco fascinado por palavras, tira-me a Paz.

Mas ao abrir todas as cortinas e deixar entrar a luz do Sol, em todas as minhas janelas, afastei a escuridão que me suga a energia e me rouba a alegria dos amanheceres. Começo então a sonhar que o calor que sinto, dos raios solares que me inundam, serão capazes de destruir o ódio, a violência e a injustiça, e volto a ter esperança na Humanidade.

Talvez seja utopia, ou a minha inabilidade para lidar com esperas inúteis…

(Manuela Resendes)

Mães…

As Mães “nascem” com os filhos, mas são eternas…

São coragem e medo, força e delicadeza, e a personificação do Amor incondicional. Vivem em permanente estado de alerta, sempre presentes mesmo que de forma invisível.

O seu colo é a maior fortaleza, âncora que não estremece e abrigo para as tempestades da vida. Vivem entre a inquietude e o contentamento, numa prisão feita de Amor e Liberdade.

Feliz Dia a todas as Mães (de sangue ou de coração).

(Manuela Resendes)

Não é uma dádiva, conquista-se…

Vou conquistando a minha liberdade, seguindo devagar e apreciando as coisas simples, pensando sem a pressa dos cansaços e acolhendo a novidade.

Com gestos delicados vou abrindo as nuvens para me abrigar ao luar, protegendo-me assim de egoísmos e hipocrisias que toldam a claridade dos dias.

E com um toque de magia vou alcançando o outro, provocando fecundas emoções e deixando impressa a marca do Amor, motor de todas as transformações.

Vou assim calcorreando velhos caminhos, trilhados sob densos nevoeiros com uma brisa suave, perfumada de giestas em flor, donde ecoam vozes nostálgicas. Voam assim palavras silenciadas por poderes obscuros e injustiças disfarçadas de bom senso, para horizontes de ausência.

Ao longo da viagem, vou ganhando a leveza das nuvens e a alegria do Sol, numa sabedoria feita de vida em que apesar do medo escolho a ousadia.

E quando preciso de me regenerar, volto à inocência dos dias em que refrescava a vida bebendo a água da nascente, pura e cristalina, numa folha de jarro, e caminhando por dentro da sombra.

Volto assim à conquista de uma vida mais plena…

(Manuela Resendes)

Aniversário sombrio…

Ontem só te dei os Parabéns, mas nāo consegui escrever…

Mais um aniversário sem te ter, sem te ouvir e sem te sentir. Mas carrego esta solidão agora de uma forma apaziguada sentindo-te tantas vezes perto e outras tantas longe, talvez quando alcanças as estrelas que eu não consigo tocar.

Mas o Amor preenche toda essa imensidão, mesmo quando todos os sons são calados, todas as luzes são apagadas, brota do frio o conforto das boas memórias.

Olho as estrelas e vejo os teus olhos luminosos, como campos verdejantes iluminados pelo sol da primavera, com sombras de águas profundas.

Mesmo nos dias em que a escuridão espreitava, o teu olhar não deixava de ser intenso e sedutor, tendo ficado plasmado na minha memória e na minha retina.

Depois de ter feito uma travessia no vazio, encontrei novamente palavras coloridas e leves que são transportadas pelo vento e alcançam o céu.

E quando esta luz nos visita e vemos uma pequena nascente de esperança é a véspera de encontrar a Paz, com a certeza de que vais sempre alumiar os meus caminhos, inspirar os meus sonhos e ser esteio das minhas decisões.

Serás o meu eterno Anjo da Guarda…

(Manuela Resendes)

Constrangimentos…

E vamos trilhando este caminho, presos por correntes invisíveis, digerindo sentimentos e emoções que nos acomodam as vulnerabilidades.

Gosto de viver de claridades, ler as entrelinhas e interpretar os silêncios. Só assim consigo esticar os horizontes e fazer a catarse dos meus medos, quando a noite cai e o sol desaparece no mar.

Procuro conforto nas alegrias gratuitas da amizade, neste encher de alma que se faz de dar e receber atenção, esta doação de tempo, que é a mais bela forma de generosidade que conheço.

Mas a beleza e valor das coisas, depende da sensibilidade de quem as olha e as habita, porque nos tocam de forma diferente, dependendo da “riqueza” do nosso mundo interior.

Mesmo em dias mais difíceis, de ventos agrestes e chuvas fortes, gosto de vozes melodiosas, olhares doces e mensagens de paz de espíritos livres e inquietos.

E apesar do mundo estar estranho, recordo a alegria de encontrar um trevo de quatro folhas que guardava entre as folhas de um livro, para a ele voltar quando necessitava da força de um punhado de esperança.

Hoje já não preciso de abrir o livro, para saber que o trevo está lá…

(Manuela Resendes)

Detalhes…

Gosto de olhar a vida em espelho, em que a realidade aparece refletida de forma crua, sem preconceitos nem arrogâncias, descobrindo o caminho à medida que o vou percorrendo.

Vou-me detendo nos detalhes que me escaparam, e que agora me parecem surgir de uma janela que vaza a luz de uma manhã luminosa. Dou assim espaço para que outras vidas me habitem, com as suas peculiaridades e subtilezas reveladoras de outras sensibilidades e novas emoções.

E em silêncio, num olhar que transcende a visão, vou calando os desapontamentos da alma até ouvir apenas o bater do meu coração, num compasso que marca o tempo.

Aprendo, assim, que se há horas inúteis existem também instantes que marcam toda uma vida, fazendo a alma transbordar de serenidade.

E volto assim ao meu olhar “inocente”.

(Manuela Resendes)

Somos ilhéus…

O mar é o nosso chão e a ponte que nos liberta para uma existência maior do que nós. Somos fascinados por navios que rasgam ondas e aviões que perseguem nuvens, possibilitando ver o que está além do horizonte e tocar a linha mágica, onde o mar e o céu se encontram e a vida se refaz.

Convivemos com naturalidade com a fúria do mar encapelado, com os ventos que correm apressados e com as chuvas que se transformam em cascatas deslumbrantes, nesta sofreguidão de delícia e dor, ou de trevas e luz, que constitui afinal a essência da vida.

Respeitamos quando das profundas entranhas da terra a fúria telúrica nos abala, para logo nos deliciarmos com águas que brotam quentes e saborosas.

E ao ritmo das marés deixamos que as palavras se soltem, temperadas de maresia e concebidas em ondas de desassossego, para serem cantadas pelas gaivotas.

E não há melhor ouvinte para os meus segredos do que o mar, onde desnudo a minha alma e embalo os meus sonhos a partir daquela praia onde o vento faz o voo do meu pensamento.

E a ilha, por vezes, cabe toda nesse pequeno quinhão de areia…

(Manuela Resendes)

Um dia de cada vez…

Estamos todos um pouco cansados de viver neste limbo de imprevisibilidade, neste equilíbrio precário onde nos faltam horizontes límpidos.

O mundo mudou e nós também, damos agora valor ao que nos parecia banal e as rotinas agora são apetecíveis num mundo em constante mutabilidade.

Esta foi a realidade que nos coube experienciar e não podemos baixar os braços: é preciso resgatar vida em cada olhar, em cada sorriso, no abrigo do nosso desamparo.

Mas esta é também uma oportunidade de ouvir o nosso pensamento, de iluminar partes mais sombrias da nossa mente , empoderando-nos da coragem que nos permite fazer travessias desafiadoras, perante a irrupção do inesperado.

É nestes momentos de maior provação, que temos de deitar mão a todos os nossos recursos, de pôr em alerta todos os sentidos e enriquecer a nossa literacia emocional.

E assim vamos criando as nossas memórias com a verdade deste tempo, vencendo a apatia e o desânimo, valorizando outras dimensões da vida, no horizonte infinito que nos redime.

Que saibamos ver em cada aurora o fio condutor da esperança…

(Manuela Resendes)

Jogo do belamento…

Esta era uma tradição na minha infância e jogava-se precisamente durante a quaresma, acabando na sexta-feira Santa.

Crianças e adultos jogavam ao belamento, que consistia em combinar com outra pessoa (o nosso adversário no jogo) que durante um determinado numero de dias quem se avistasse mutuamente, e dissesse primeiro “belamente”, ganhava um ponto. No final do jogo ganhava quem tivesse conseguido mais pontos, e o prêmio previamente combinado era normalmente um pacote de amêndoas.

Era curioso o envolvimento que se punha no jogo, inventando estratégias para lubridiar o adversário, alterando rotinas, descobrindo esconderijos e cumplicidades, sempre com o objetivo de surpreender, levando sempre a sonoras gargalhadas e até alguns sustos.

Claro que o melhor era sempre a brincadeira, mas a sensação de vencer, e o prémio inerente, também faziam parte e não eram menosprezados.

Esta tradição tem vindo a cair em desuso e as amêndoas agora chegam-nos a casa em abundância, sem esforço ou disputa, mas seria interessante recuperar uma brincadeira feita de estratégia, cumplicidades e capacidade de imaginação.

Uma Santa e Feliz Páscoa

(Manuela Resendes)

Dias elásticos…

Como são promissores estes dias de março, que começam a espreguiçar-se para se alongarem em tardes infinitas em que se abrem portas invisíveis.

Os jardins ficam coloridos com as rosas a desbrocharem, as camélias repletas de cor e as estrelícias transportam consigo luz e vitalidade.

Os pássaros ensaiam melodias, para anunciar promissoras auroras, e o sol ainda morno varre neblinas e nevoeiros, descendo encostas verdejantes.

O mar exibe a sua cor prateada cheia de reflexos, como quem veste um fato domingueiro, e as nuvens passeiam-se no céu com pressa de explorar tanto azul.

Com os pés descalços na areia sinto a vibração deste tempo em que tudo germina, recolho aquela pedrinha com forma de concha e cor de arco-íris, e penso na história do seu percurso, escolhendo este sitio para se perpetuar.

Nas tardes de brisas suaves observo as borboletas em voos sincronizados, e espero aquele pôr-do-sol laranja, que me transporta para lembranças, sonhos e saudade, com uma alegria terna.

E nas noites que caem devagar, estreladas e luminosas, gosto de divagar em amenas conversas, embalada pela esperança colhida num abraço entre passado e futuro.

Gosto destes dias harmoniosos, de poesia e mistério…

(Manuela Resendes)