Silêncios que falam…

O silêncio é quase imperturbável!

Ouço apenas o rasgar do vento e os pássaros a cantar mas, ao invés de me apaziguar, esta aparente serenidade remete-me para as minhas vozes interiores.

Ecoam em mim os gritos do mundo, o choro de fome das crianças, o desespero de mães em salvarem os seus filhos e o medo da morte que leva a atos tresloucados.

Vejo imagens de inocentes a morrer numa total desvalorização pela vida, violência gratuita em nome de deuses evocados em vão, fazendo desaguar o desespero em becos sem saída.

Ouço gritos de revolta de sonhos de uma vida desfeitos por uma bala perdida, dores que não têm analgesia que as cure, injustiças que não vêm uma fresta de luz.

Sinto-me impotente mas inquieta e incomodada perante esta avalanche de violência, opressão e injustiça de que o mundo padece, para além de doenças, invejas e egoísmos odiosos.

É então que abro a minha janela e o espetáculo da natureza devolve-me uma nesga de esperança, regeneradora, porque me faz acreditar que gota a gota, com os nossos pequenos contributos, possamos contribuir para mitigar as dores do mundo, não nos escudando na nossa pequenez perante a grandiosidade dos problemas.

As dores que não vemos ou sentimos não deixam de existir…

(Manuela Resendes)

Fim de agosto

O vento já faz voar as folhas secas caídas no chão, pressentindo-se nesta mutação da natureza a aproximação do final do verão.

Os fins de tarde com cheiro a amoras, o doce dos figos acabados de apanhar e a frescura das uvas, degustadas sob uma luminosidade perfeita, faz amadurecer desejos antigos.

Gosto de sol manso e luar intenso, na companhia de um bom livro e ao som de boa música, proporcionando viagens sem mapa, seguindo o rasto de um fio azul.

É neste embalo que sou transportada a memórias de infância, o brinquedo preferido, os amigos reais e imaginários bem como aventuras e sonhos pintados com as cores do arco-íris.

As corridas no trigal e o pisar do restolho remetem-me para ausências consentidas em momentos levados pelo vento, que se eternizam na poesia.

Sou muitas vezes previsível e outras tantas surpresa, nesta sede infinita de procura de respostas, mesmo que me leve ao que nem ouso compreender.

Mas é no aconchego de um abraço prolongado, na gargalhada genuína e por vezes no silêncio, que melhor me regenero das mágoas do mundo. Também sei que há sempre um raio de sol que atravessa as nuvens escuras e os dias que são mais noite do que as noites, desde que saibamos revestir o nosso tempo de Amor e o saibamos oferecer ao mundo.

(Manuela Resendes)

Aniversário Saudeacores.com

E já lá vão 5 anos…

Muitas horas, muito empenho, muito prazer e sempre a mesma vontade de fazer mais e melhor, num percurso nem sempre linear, mas em que os ensinamentos sempre compensaram e permitem fazer um balanço extremamente positivo.

O blogue nasceu da minha necessidade de acolher novos desafios, explorar novas áreas e adquirir novos conhecimentos, partilhando sempre conteúdos que considero adequados…

Quero assim deixar o meu agradecimento muito sentido, a todos os que com gestos ou palavras me inspiram, motivam e elogiam, funcionando como “catalisador” nos dias mais sombrios em que nos falta ânimo.

Que venham mais cinco, com novas conquistas, que possam corresponder às minhas e sobretudo às vossas expectativas.

Um bem haja a todos vós!!!

(Manuela Resendes)

Tia-avó…

E chegou a Júlia…

O nome Júlia deriva do latim e significa “brilho”, e foi sem dúvida, neste verão mais sombrio, o nosso sol mais radioso.

A tua expressão serena dá-nos a tranquilidade e a esperança de um futuro risonho, de mão dada com o Guilherme, que será o teu primeiro ídolo.

A tua pele rosada e suave, perfumada de vida, e o tudo delicado que há em ti, lembra-nos o cuidado com que cada criança tem de ser acolhida, no respeito por todas as suas peculiaridades, traços de personalidade e vontade própria, que vamos reconhecendo ao longo do tempo.

Este sentir de vida a despontar com tanta verdade, inocência e potencial chega a ser comovente, num mundo tão “feroz”, mas cá estaremos para te dar as necessárias ferramentas e amparar sempre que as dificuldades surgirem.

É todo um novo mundo de aventuras e emoções para somar e dividir com o irmão Guilherme e os primos José e Francisco.

Bem-Vinda Júlia

(Manuela Resendes)

Trilho Mata do Canário/Sete Cidades

Este trilho teve todos os” ingredientes” de uma caminhada feita nos Açores. Começou com nevoeiro, aguaceiros fracos e depois sol, tudo esquecido quando nos deparávamos com as deslumbrantes panorâmicas do percurso.

É um trilho relativamente exigente, com subidas e descidas muito íngremes ao longo de um percurso relativamente extenso, mas com vista para o Paraíso.

Inicia-se no” Muro das Nove Janelas”, que é um aqueduto de pedra que servia outrora para abastecer de água os fontanários públicos da cidade de Ponta Delgada. O percurso faz-se ao longo da Cumeeira da Lagoa Azul, com as paisagens deslumbrantes das Sete Cidades sempre connosco.

Com a possibilidade de apreciar também várias espécies endêmicas ao longo do percurso, o trilho termina com a chegada ao centro da freguesia das Sete Cidades.

Para quem gosta de fazer trilhos é a não perder!!!

(Manuela Resendes)

Trilho Salto do Prego/Sanguinho

O trilho começa na localidade de Faial da Terra e decorre num percurso entre vegetação variada e exuberante, riachos e pequenas cascatas, apresentando algum grau de dificuldade para iniciantes devido à inclinação do mesmo.

No entanto a beleza do percurso compensa largamente o esforço, culminando na cascata do Salto do Prego, que surge com pujança do meio da vegetação e onde nos podemos refrescar e usufruir de uma paisagem paradisíaca.

Andando um pouco mais, chegamos a um lugar encantado chamado Sanguinho, que era uma pequena aldeia de agricultores com pequenas casas e quintas, mais tarde abandonada e que está agora aos poucos a ser reconstruída.

A vista é deslumbrante…

(Manuela Resendes)

Escrever…

Gosto de escrever quando a casa se enche de silêncios, quando pressinto a presença dos outros, mas sem ruído, e o tempo é apenas assinalado pelo sino da igreja.

Ouço ladrar o cão do vizinho, os pássaros parecem-me felizes, entre o voo e o canto, e de longe chegam-me risos de crianças.

Com o eco destes sons vou-me desligando da realidade e confinando no meu reduto de mistério e singularidade para uma conversa comigo própria. Num misto de inquietude melancólica e de nostalgia serena vão fluindo perguntas e respostas, mesmo relativamente a questões para as quais não tinha encontrado ainda solução.

Vou assim abrindo as portas de sótãos e arrecadações da mente, sítios mais escuros e sombrios, e soltam-se emoções e sentimentos, que ficam plasmados em folhas brancas, libertos de opressão e passíveis de serem melhor compreendidos.

Alcanço desta forma o que há de mais profundo e subtil em mim, conferindo maior transparência e leveza à minha forma de olhar a realidade.

E num acolher de horizontes, cada vez mais extensos, vou ganhando infinitas possibilidades de escolha e cada vez maior gratidão à vida de que sou portadora.

(Manuela Resendes)

Trilho da Lagoa das Furnas

Fazemos este trilho partindo da povoação das Furnas até à Lagoa, contornando depois toda a extensão da mesma e voltando depois à novamente ao ponto de partida, percorrendo cerca de 12km.

Paisagem de rara beleza, com vegetação luxuriante, e todo o tipo de flores, que brotam por todo o lado, oferecendo um colorido que desperta todos os sentidos.

A Lagoa é sempre grandiosa em tamanho e beleza, dando a sensação de frescura também por estar cercada de vegetação, num contraste raro quanto agradável.

Porque as Furnas não se esgotam nas famosas caldeiras, esta é uma sugestão para melhor ficar a conhecer este local encantado.

(Manuela Resendes)

As voltas da vida

O mundo está em constante mutação e a vida vai-nos surpreendendo das mais diversas formas, sem termos escolha sobre o que nos coube experienciar, mas sim na forma como acolhemos os desafios deste constante pulsar de emoções.

Nós próprios vamos evoluindo, dando espaço a diferentes formas de entendimento do mundo, pelo conhecimento e vivências, e alcançando o mais profundo do nosso ser para interpretar a nossa história de vida.

Aprendemos a aceitar o que não se cumpre, o futuro que nos é confiscado e a relativizar os imprevistos, confiando serem oportunidade para mudança de rumo que irá desembocar num cais, que nos retira dos circuitos rotineiros e cómodos que nos impedem de ver a novidade.

Não deixo de me revoltar com as injustiças e atrocidades que todos os dias acontecem mas, ao invés de alimentar sentimentos corrosivos de raiva e ódio, prefiro ser uma voz harmoniosa e eficaz, pondo ao serviço do coletivo todos os contributos ao meu alcance.

E não menos importante é comemorar todas as minhas secretas vitórias, sem testemunhas nem pódio, mas que funcionam como lampejos de luz que iluminam os dias sombrios.

E apesar da aridez destes tempos, tento manter aquela ternura doce de criança sonhadora, acreditando na bondade dos pequenos gestos e na virtude do exemplo. Foco aí os holofotes para ver refletida uma imagem luminosa e inspiradora, sabendo que mesmo em dias de nuvens escuras podemos avistar o colorido do arco-íris.

Que nos saibamos sempre reconciliar com a vida…

(Manuela Resendes)