Dia Mundial da Rádio

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Rádio, tendo esta data sido escolhida por ter sido a 13 de fevereiro de 1946 que a United Nations Radio, emitiu pela primeira vez. Contudo, só em 2011 a UNESCO declarou o Dia Mundial da Rádio, que se comemorou pela primeira vez em 2012.

A rádio acompanhou os principais acontecimentos históricos mundiais, continuando a ser um dos meios de comunicação social mais fiável e acessível em todo o mundo.

Aproveito a efeméride para agradecer a oportunidade que me foi dada pela Rádio Atlântida, na pessoa do seu Diretor, para ter uma crónica semanal intitulada “Alquimia das Palavras”. Esta rubrica pode ser ouvida às terças-feiras e quintas-feiras na Rádio Atlântida, pelas 18h30m (hora dos Açores), e às quartas-feiras e sextas-feiras na R80, às 8h30m (hora dos Acores).

Parabéns a todos os profissionais da rádio!

(Manuela Resendes)

Horizonte…

Abro a janela do tempo e avisto o horizonte, que surge na minha retina como um enigma opaco. Em manhãs claras, descortino ilusões desenhadas nos recortes das sombras e invento pontes para a realidade, em tardes de céu ao rubro.

Perscruto a coreografia da dança das nuvens, carreadas pelo vento a uma distância imprecisa em harmoniosos movimentos num espetáculo irrepetível.

É nesta visão da liberdade que os sonhos vão faiscando, e através da sensibilidade do olhar o poema se escreve.

As velas brancas agitam-se ao vento, onde incide uma luz que tudo reveste, feita de estrelas cintilantes e de uma lua como um espelho.

Ganho assim asas de Condor que me permitem ir mais além, derrubando muros e desvendando mistérios manifestos.

Vou assim seguindo o fio da vida até ao infinito, porque o horizonte norteia mas nunca se deixa alcançar.

(Manuela Resendes)

Decifrar o mundo…

Vivemos com uma clara falta de aproximação, alheados de tudo e sem escutar o que nos rodeia. Deixamos de decifrar estados de espirito nos rostos com quem nos cruzamos, de prever a chuva a olhar o céu ou de perceber a passagem do tempo pelo germinar das sementes.

Olhamos a lua só como espetáculo, alvo de foto para o Instagram, sem tão pouco a correlacionar com os ciclos da natureza.

Olhamos as flores porque as cores são apelativas e o belo nos atrai. Mas não nos detemos nos pormenores, na delicadeza de cada pétala, na interação com o sol ou na subtileza do seu perfume.

Mas tudo isto é poesia, permitindo-nos mergulhar num mar de ternura, de esperança que nos alavanca para um olhar mais humanizado.

Esta transcendência é o melhor ansiolítico para amenizar a inquietude em que vivemos e conquistar uma serenidade harmoniosa, dando um salto de fé que nos vai permitindo compreender melhor a infinita complexidade da vida.

E não estamos sós, podemos sempre ir buscar a necessária inspiração e exemplo a outras vidas que connosco partilham esta misteriosa aventura que é a vida, para que o futuro encontre o seu espaço, ligado ao passado por fios invisíveis que fazem a devida conexão.

(Manuela Resendes)

O mar que nos separa…

Sempre vivi assim, entre chegadas e partidas com um mar a separar vidas…

Este mar que traz e que se abre à alegria com o seu azul safira, agrega todos os pedaços para que os dias se façam inteiros.

Este mar feito caminho para o futuro é onde se semeiam todas as cores do mundo.

Mas quando se vira do avesso é cinzento de despedida, feito de marés carregadas de silêncio e melancolia.

Agora é a noite que carrega o dia, mas a ausência que habita em mim está aconchegada e já assimilada, até ao dia em que as palavras roubadas ao tempo irão irromper por auroras carregadas de luz.

E vou apagar o fogo que queima o tempo…

(Manuela Resendes)

Ler a realidade…

Todos concordamos que há um déficit de leitura, não apenas de livros porque que se aplica a tudo o que nos rodeia.

Deixamos de ler estados de alma daqueles com quem nos cruzamos, já não olhamos as nuvens para ver os sinais meteorológicos, nem pressentimos as estações pelo germinar das sementes.

Ler também permite viver outras vidas, usufruir de novas sensações e absorver novos conhecimentos sem sairmos do mesmo lugar.

E a poesia em particular é o que nos permite inundarmos de ternura, de esperança e ver o invisível, numa transcendência que funciona como sedativo para a inquietude em que vivemos.

Não podemos ficar aprisionados ao totalmente racional, ao extremo bom senso ou apenas nos cingirmos à aprendizagem institucional. A infinita complexidade da vida não é percetível se não nos permitirmos entrar no ” planeta dos sonhos”.

Só assim podemos evoluir como pessoas e acreditar num futuro promissor e em pequenos milagres, depois de derrubar muros e atravessar desertos.

Não podemos permanecer numa subtil e silenciosa “preguiça ” de escutar os murmúrios da terra e o eco das vozes silenciadas, acomodados na sensação de impotência e de nada poder mudar.

Se todos nós cumprirmos a nossa missão, deixaremos certamente um melhor legado às gerações vindouras.

(Manuela Resendes)

Liberdade…

Soltem os ventos de liberdade

Gritem as palavras silenciadas

Soltem as virtudes da humanidade

Dando voz às minorias negligenciadas

Soltem quem rompe madrugadas puras

Abrindo asas para o voo da esperança

Soltem quem acredita no fim das agruras

Fazendo dos recomeços a mudança

Soltem quem não abre mão da honestidade

Sabendo que da espera se faz tempo

Soltem os que nunca perdem a dignidade

Mesmo que tenham de dormir ao relento

Soltem todos os prisioneiros

Destes invisíveis cativeiros!

(Manuela Resendes)

Hoje acordei triste…

A vida é feita de pedaços que se vão encaixando, costurando, rasgando, bordando, num fluxo contínuo em que vamos escrevendo a nossa história.

Vão-se somando momentos tristes, alegres, memoráveis, desgastantes, empolgantes, que vão deixando a sua marca por entre dias que vão correndo, muitas vezes marcados apenas pelo correr das horas.

Vamos contabilizando tudo, o sono, as calorias, os passos, os batimentos, mas nāo cuidamos da mesma forma das emoções, dos afetos e da procura do que nos possa fazer mais sentido.

E hoje acordei angustiada por falta de respostas a tantos níveis, por ver tanta injustiça, tanta violência e tanta falta de empatia e soluções para com os mais vulneráveis.

Precisei sair à rua, para o vento me limpar a alma da poeira que me impedia de ver o céu infinitamente azul e luminoso.

Procurei ainda em todas as palavras e em todos os silêncios, as asas que me transportassem ao sonho porque não sei viver constantemente com os pés no chão. São dias quietos em que quero ouvir melodias que me embalem, viver sem fórmulas e inspirar-me numa noite de luar eternamente bela.

E na linha do horizonte consigo já espreitar uma nesga dos dias coloridos de primavera…

(Manuela Resendes)

Último dia de 2021

O mundo não está um sitio fácil, vivemos inquietos, vazios e mergulhados em preocupações, o que nos deve levar a refletir sobre o que podemos mudar para uma vida mais plena.

É preciso encontrar caminhos esquecidos, onde habite a alegria, resgatando a nossa “criança” escondida, escavando brechas para a janela da infância.

Assim iremos conseguir espreitar o futuro com a alma transparente, apreciar a novidade e olhar com espanto mas sem sobressalto.

Conservaremos assim a porção de infância que nos coube, evitando uma vida feita apenas de uma realidade áspera, onde dificilmente os sonhos terão lugar.

As crianças de hoje são a nossa inesgotável fonte de inspiração para transformar a rotina numa eterna novidade, ensinando-nos a graça do banal e a alegria de um reencontro.

É preciso voltar a acreditar em utopias, fazer da poça de água um mar onde viajamos num barco de papel ,e do reflexo das nuvens na água um céu infinitamente azul onde podemos voar nas asas de um papagaio de papel.

E nos dias de maior angústia, adoçar as horas com sorrisos de bondade que abrem novos caminhos e olhares de aconchego que clareiam as sombras da vida.

Juntos, com os que nos acrescentam, somos mais fortes…

Feliz 2022

(Manuela Resendes)

Pai, 22 anos sem ti…

O dia nasceu escuro e triste e as nuvens de tão pesadas transbordaram. O vento hoje é feito de melancolia, os olhares são de mar e prevalecem as velhas vontades.

Acolho o silêncio desnudado de onde brotam muitas lembranças, doces memórias e algumas histórias.

A tua chegada a casa era sempre o ponto alto do dia, trazias a segurança, a novidade e o mimo. Lembro as tardes em que pressentia a preocupação do teu atraso e tudo em mim ficava em alerta, com idas e vindas constantes ao ponto de onde te poderia avistar ou ouvir o tão característico barulho da tua chegada.

A “algazarra” acalmava com a tua presença e à tua volta todos queriam ouvir as novidades do dia, que com a tua voz serena ias dizendo, como quem conta uma história, transformando acontecimentos banais em verdadeiras aventuras, fazendo assim as nossas delícias.

Lembro o tempo em que a terra era amanhada, enquanto eu partilhava a espera da água da nascente, sem nunca te querer perder de vista.

Lembro a tua inteligência e cultura, o teu espirito visionário e a sabedoria daquela palavra amiga a todos e a qualquer um, tocando o coração como só as almas bondosas o sabem fazer.

Lembro as soluções improváveis que inventavas para resolver problemas do quotidiano, que me fascinavam, pois sempre gostaste mais de pensar do que executar (e como te compreendo Pai!).

Eras sem duvida o nosso porto de abrigo, de onde muito cedo nos deixaste partir sabendo que iríamos enfrentar tempestades, mas com a certeza de que só assim nos poderias oferecer o Mundo. Sentias depois aquele orgulho de nos ver voltar sãos e salvos, vencendo os desafios e sempre com vontade de fazer mais e melhor.

Ficamos vazios com a tua partida, mas com o tempo foste-te tornando presente nos desenhos das nuvens, nas estrelas brilhantes e no alto do horizonte. E neste encontro o conforto da tua presença aconchega-me…

Sei que olhas pela Mãe, por nós todos, e nos momentos de maior provação fazes-te presente na tua forma subtil e sensata, e com aquela “malícia” deliciosa, feita de um sentido de humor não explicito e tão teu.

Pai, o meu almoço hoje é favas porque vens almoçar comigo e fiz o teu prato preferido…

Beijinhos para o Céu… Pai

(Manuela Resendes)