11 de setembro…

Faz hoje 19 anos que o mundo assistiu incrédulo ao maior ataque terrorista da história, em que cerca de 3000 pessoas perderam a vida.

Da responsabilidade da organização fundamentalista Al Qaeda, que lançou quatro aviões comerciais de passageiros contra alvos americanos, tendo sido o ataque às Torres Gémeas, em Nova Iorque, o mais grave e donde resultou a maior parte das vítimas.

O dia tinha amanhecido com o céu azul, prometendo ser um dia agradável e igual a tantos outros, mas pelos piores motivos passou a ser aquele que ninguém esquece, que todos sabem onde estavam e o que faziam naquela hora, deixando uma marca que não há tempo que consiga apagar.

No meu caso pessoal, encontrava-me em serviço no estrangeiro e, depois daquele choque brutal da notícia, a única coisa que queria era regressar rapidamente para junto dos meus e para o meu porto de abrigo, a que chamo casa.

Nesse dia o meu – e o nosso – mundo também mudou!

(Manuela Resendes)

Os Deuses zangaram-se…

A noite foi de tempestade, com chuva abundante a cair ao som de uma trovoada ensurdecedora e iluminada por intensos clarões de relâmpagos.

Olhei da janela e tinha tanto de belo como de tenebroso, em que os céus se abriam em estradas de luz que desabavam as suas mágoas em jorros de água.

Despertaram em mim medos sentidos na infância, quando era necessário enfrentar tempestades em que, na aparente valentia, escondia o medo de monstros com contornos sombrios.

Hoje percebo que a natureza também tem os seus dias de revolta, mas com a água da chuva lavo a alma, com o barulho da raivosa trovoada aprendo a saborear o silêncio e com a luz dos relâmpagos ilumino os claustros mais profundos da mente, donde resgato questões pertinentes.

A natureza tem de ser respeitada e nunca devemos subestimar o seu poder avassalador de destruição, ou de nos deslumbrarmos com as suas fascinantes cambiantes.

Aos poucos volta a acalmia, surgindo o arco-íris a colorir o horizonte, e vou serenando a minha inquietude e volto a ter o meu olhar tranquilo sobre a realidade.

Os meus olhos avistam agora o futuro em novos céus!

(Manuela Resendes)

Brisa Outonal…

Despertei lentamente, sem pressa, nem sobressalto.

Saí à rua e senti uma brisa outonal a soprar levemente e quis ser vento, sempre tentada pelo voo.

Pareceu-me ser tão livre, vagueando carregado de saber, dominando a cartografia, vivendo desamparada, mas sem medo.

A sua força é capaz de movimentar as ondas e impulsionar a viagem dos navegantes. Muda de direção a qualquer momento, e sem ter asas toca nas nuvens, abrindo brechas e descendo as montanhas a alta velocidade.

Solta as folhas das arvores e as pétalas das flores, para que dancem livremente no chão, e parte impregnado de perfume .

Os ventos podem ser frios e tempestuosos, ou apenas uma brisa que nos afaga, numa carícia consentida e se nos deixarmos levar por ele, conseguimos levitar e soltar as amarras da nossa mente.

Mas esta ladainha do vento, a anunciar o Outono, com as janelas pontilhadas de gotículas de chuva e as nuvens quase a desabar em pranto, emprestaram-me a serenidade de saber que a natureza é feita de promessa.

E o vento com a sua invisibilidade misteriosa continua a ser o milagre que nos resgata, por ser sempre poesia ou prosa!

(Manuela Resendes)

Setembro…

Este é um mês de setembro atípico, que nasce cheio de medos e incertezas.

É hora de recomeços, num tempo de angústias purificadas em entardeceres avermelhados e dias serenos.

A solidão volta agora aos bancos de jardim, em gestos de ternura fatigados de infinitas esperas, colmatadas por palavras que devoram melancolias silenciosas.

Este é também o tempo de implementar novas rotinas, estrear novas estradas, aproveitando sempre os bons ventos e as boas marés.

E como a nascente de água se renova constantemente, vamos acolher os dias com as suas inevitabilidades, ateando a alegria com uma faísca de esperança, contagiando com essa força motivadora aqueles que connosco interagem.

E quando o desalento nos atingir vamos colher a noite, com a certeza que os dias morrem em cada madrugada e nascem em cada despertar, dando vida às flores sedentas das gotas de orvalho.

E num regresso diferente e atípico vamos tentar fazer mais e melhor!!!

(Manuela Resendes)

Flores…

Como são belas as flores!

Gosto de ver as flores num jardim bem cuidado, as que despontam no meio das pedras, fruto da sua resiliência, ou as que dão colorido e perfume em vastas planícies.

As flores têm uma delicadeza e uma linguagem própria, que fazem cintilar as nossas emoções.

Impossível ficar indiferente defronte da beleza exuberante de uma rosa vermelha, face à paz que nos transmite a rosa branca ou a alegria contida numa rosa amarela.

Difícil ficar indiferente à personalidade forte do cravo, a luz que emana do girassol ou à timidez da violeta, que prefere viver na sombra da sua frágil beleza.

Pressentimos a introspecção de um botão de flor que, ao beber uma gota de orvalho e absorver um raio de sol, se abre ao mundo, deixando as suas pétalas partirem, embaladas pelo vento, para audaciosas aventuras.

As flores são o esteio onde as borboletas exibem as suas maravilhosas danças ao som de melodias risonhas entoadas pelos pássaros, alimentando-se deste néctar dos deuses.

E num dia de sol intenso, quero adormecer à sombra de uma árvore frondosa, com vista para um campo florido!

(Manuela Resendes)

Dizer adeus…

Nunca aprendi a dizer adeus sem sentir uma dor indecifrável, que me paralisa.

Procuro o mar e o vento, sigo o voo da gaivota, mas os meus olhos nāo conseguem alcançar o horizonte.

Há um silêncio em mim, que aos poucos vai ganhando eco nas palavras que escrevo e nos olhares que me fazem sorrir.

Vou calcorreando todos os caminhos, saboreando todas as lembranças e começo a pressentir a alegria do reencontro.

Percebo então que cada despedida é também uma nova possibilidade de recomeço. Volto a abrir a janela e sinto o calor do dia ensolarado.

Sinto a vida lá fora a cumprir-se e ganho alento para abrir portas fechadas, que encerram novos sonhos, novas histórias e muita vida para viver.

Encontro assim o caminho do futuro, esperançoso e sorridente!

(Manuela Resendes)

Sonhos de verão…

Quero habitar num sonho de verão!

Nas auroras resplandecentes ganho o impulso das ondas que me permite transpor os muros e vislumbrar paisagens deslumbrantes, onde encontro o silêncio e a paz que me regeneram.

Solto os cabelos, que soprados pelo vento ganham asas, permitindo-me aceder a misteriosos caminhos. Conquisto a liberdade, prendendo o tempo com o fio invisível da ousadia, a esse instante.

E no meu barco de papel, deslizo em aguas calmas e transparentes, iluminadas por luares de agosto.

Aporto num lugar seguro, onde deixo a saudade e esbanjo esperançosas vontades, lendo poemas nos troncos das arvores, nas pétalas das flores e nos bancos de jardim, que inspiram a mudança.

E nas águas que correm de um rio sem fim vi o futuro a nascer em gente de rosto luminoso, num mundo reconfigurado.

Quero saber transportar esta sabedoria, emprestada pelos deuses, até onde a minha voz possa ser ouvida.

(Manuela Resendes)

Contemplação…

Todos nós somos persuadidos pelo belo!

A beleza expressa-se de inúmeras formas, quer seja através de uma paisagem deslumbrante, um gesto bondoso ou uma obra de arte, despoletando em nós boas sensações.

O belo atrai-nos, podendo ser transformador, e ajuda-nos a inventar uma vida menos sombria em que o futuro se reveste de tons dourados.

Não ficamos indiferentes perante um lago sereno, mas cheio de vida e reflexos de luz, ou assistindo à passagem do rio que perante o nosso olhar embevecido, prossegue o seu caminho indiferente ao despertar do nosso imaginário.

E o pôr do sol que ocorre num tempo fugidio, deixa a sua beleza plasmada na nossa memória com solidez granítica, resgatando assim o abstrato sentido da vida.

E não esqueço os sorrisos que exalam o perfume da alegria, bem como os olhares mágicos que tornam fascinante tudo à sua volta, numa intrusão inesperada que acolhemos de forma ternurenta, amortecendo os duros combates da vida.

(Manuela Resendes)

Verão do nosso (des)contentamento

Este é um verão diferente, sem festas, nem festivais, sem convívios alargados, nem viagens exóticas.

Mas estes dias de luz intensa e muito colorida podem-nos trazer a tão almejada paz, de um tempo sem tempo com que tanto sonhávamos.

Contemplando um pôr do sol laranja, que se mistura com o azul do mar, sentindo a brisa que me refresca, sinto um desejo que me transcende de eternizar estes momentos.

Passeiam-se em mim lembranças e saudades, mas também novos encontros e reencontros, em que não só se esbanjam risadas e emoções como se sacia a sede de uma alegria quase inocente.

Não podemos deixar que a nostalgia nos impeça de sentir o aroma das amoras silvestres e da terra molhada, perfumes de verão que nos inebriam.

E dos azuis que irrompem do mar e do céu soltam-se palavras desertas e desamparadas, que ganham agora um novo sentido. E a natureza prossegue o seu ciclo, indiferente, como a seara de trigo que depois de ser restolho, germina novamente.

Na hora de acolher a noite, a olhar as estrelas, sinto-me fascinada pelo silêncio, em que calo as palavras para poder usufruir de tantas sensações, que uma noite de verão pode despoletar.

(Manuela Resendes)