Guerra…

A Guerra

Não sei a quem a guerra serve

Porque a vida é sempre breve

Desumanidade que tanto doi

Destruindo povos e nações

Por eloquentes aspirações

Levam ao caos que tudo destrói

A vida corre, aparentemente

E a morte surge disfarçadamente

Soldado que morre e é herói

Auroras que rompem escurecidas

Porque as armas já estão munidas

Levam ao caos que tudo destrói

São os donos do povo e da nação

Não olham ao rasto de destruição

Indiferentes ao que a Paz constrói

Roubam o futuro, que se quer abraçar

A antiga coragem começa a faltar

Levam ao caos que tudo destrói

Sobra a fome para repartir

Sobra injustiça e vontade de ir

Sobra a dor e o medo, que corroi

Levam ao caos que tudo destrói!

(Manuela Resendes)

Avessos…

Existem dias em que os silêncios nascem de palavras que acordam já fatigadas. Os vazios multiplicam-se e ficam repletos de sombras que não são filhas da luz.

Os dias adormecem antes da noite, numa inércia que se faz de um movimento sem fim, num cansaço sonolento de rotinas banais.

Na casa pequena, em que do telhado se faz chão, são os sonhos que a ampliam até nela caber o universo.

O vento que bate na janela não vem acompanhado de tempestade mas sim de calmaria. O sol entra quando é já poente e a visão do vizinho do lado está para além do horizonte.

Os dias estão vestidos do avesso, pretendendo a dignidade que injustiça não confere. As guerras fazem-se não para matar a fome, mas para auferir mais riqueza.

As lágrimas são disfarçadas de sorrisos, a tristeza tapada com máscara e a dor anestesiada com químicos, porque o mundo é dos “fortes”.

Só um trapezista de almas, com saltos vistosos e arriscados, poderá virar novamente tudo ao contrário!

(Manuela Resendes)

Sem roteiro…

Caminho por entre pedras negras, bafejada por uma brisa fresca e reparo na onda que se demora no encontro com a rocha, numa ternura amarrotada.

As palavras são sufocadas por um falso silêncio, e ao longe avisto um barco que passa alheio à minha presença.

Neste transbordar de infinito, mergulho nas memórias, que tal como as ondas se quebram ou abraçam a enseada me remetem para novas vontades. Estas verdades exiladas, pelo correr do tempo, são suavizadas por palavras luminosas que bradam por acolhimento.

Vou vendo a vida ao longe, a partir deste grão de rocha que o vento vai desgastando como os pensamentos se vão desvanecendo.

E no limite da praia, descubro esconderijos disfarçados para melhor ouvir a voz do mar, perene como o interminável movimento das ondas.

Na conquista desta paz harmoniosa, sinto-me caminhar no Olimpo, na sombra dos Deuses!

(Manuela Resendes)

Dia Mundial da Rádio

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Rádio, tendo esta data sido escolhida por ter sido a 13 de fevereiro de 1946 que a United Nations Radio, emitiu pela primeira vez. Contudo, só em 2011 a UNESCO declarou o Dia Mundial da Rádio, que se comemorou pela primeira vez em 2012.

A rádio acompanhou os principais acontecimentos históricos mundiais, continuando a ser um dos meios de comunicação social mais fiável e acessível em todo o mundo.

Aproveito a efeméride para agradecer a oportunidade que me foi dada pela Rádio Atlântida, na pessoa do seu Diretor, para ter uma crónica semanal intitulada “Alquimia das Palavras”. Esta rubrica pode ser ouvida às terças-feiras e quintas-feiras na Rádio Atlântida, pelas 18h30m (hora dos Açores), e às quartas-feiras e sextas-feiras na R80, às 8h30m (hora dos Acores).

Parabéns a todos os profissionais da rádio!

(Manuela Resendes)

Horizonte…

Abro a janela do tempo e avisto o horizonte, que surge na minha retina como um enigma opaco. Em manhãs claras, descortino ilusões desenhadas nos recortes das sombras e invento pontes para a realidade, em tardes de céu ao rubro.

Perscruto a coreografia da dança das nuvens, carreadas pelo vento a uma distância imprecisa em harmoniosos movimentos num espetáculo irrepetível.

É nesta visão da liberdade que os sonhos vão faiscando, e através da sensibilidade do olhar o poema se escreve.

As velas brancas agitam-se ao vento, onde incide uma luz que tudo reveste, feita de estrelas cintilantes e de uma lua como um espelho.

Ganho assim asas de Condor que me permitem ir mais além, derrubando muros e desvendando mistérios manifestos.

Vou assim seguindo o fio da vida até ao infinito, porque o horizonte norteia mas nunca se deixa alcançar.

(Manuela Resendes)

Decifrar o mundo…

Vivemos com uma clara falta de aproximação, alheados de tudo e sem escutar o que nos rodeia. Deixamos de decifrar estados de espirito nos rostos com quem nos cruzamos, de prever a chuva a olhar o céu ou de perceber a passagem do tempo pelo germinar das sementes.

Olhamos a lua só como espetáculo, alvo de foto para o Instagram, sem tão pouco a correlacionar com os ciclos da natureza.

Olhamos as flores porque as cores são apelativas e o belo nos atrai. Mas não nos detemos nos pormenores, na delicadeza de cada pétala, na interação com o sol ou na subtileza do seu perfume.

Mas tudo isto é poesia, permitindo-nos mergulhar num mar de ternura, de esperança que nos alavanca para um olhar mais humanizado.

Esta transcendência é o melhor ansiolítico para amenizar a inquietude em que vivemos e conquistar uma serenidade harmoniosa, dando um salto de fé que nos vai permitindo compreender melhor a infinita complexidade da vida.

E não estamos sós, podemos sempre ir buscar a necessária inspiração e exemplo a outras vidas que connosco partilham esta misteriosa aventura que é a vida, para que o futuro encontre o seu espaço, ligado ao passado por fios invisíveis que fazem a devida conexão.

(Manuela Resendes)

O mar que nos separa…

Sempre vivi assim, entre chegadas e partidas com um mar a separar vidas…

Este mar que traz e que se abre à alegria com o seu azul safira, agrega todos os pedaços para que os dias se façam inteiros.

Este mar feito caminho para o futuro é onde se semeiam todas as cores do mundo.

Mas quando se vira do avesso é cinzento de despedida, feito de marés carregadas de silêncio e melancolia.

Agora é a noite que carrega o dia, mas a ausência que habita em mim está aconchegada e já assimilada, até ao dia em que as palavras roubadas ao tempo irão irromper por auroras carregadas de luz.

E vou apagar o fogo que queima o tempo…

(Manuela Resendes)

Ler a realidade…

Todos concordamos que há um déficit de leitura, não apenas de livros porque que se aplica a tudo o que nos rodeia.

Deixamos de ler estados de alma daqueles com quem nos cruzamos, já não olhamos as nuvens para ver os sinais meteorológicos, nem pressentimos as estações pelo germinar das sementes.

Ler também permite viver outras vidas, usufruir de novas sensações e absorver novos conhecimentos sem sairmos do mesmo lugar.

E a poesia em particular é o que nos permite inundarmos de ternura, de esperança e ver o invisível, numa transcendência que funciona como sedativo para a inquietude em que vivemos.

Não podemos ficar aprisionados ao totalmente racional, ao extremo bom senso ou apenas nos cingirmos à aprendizagem institucional. A infinita complexidade da vida não é percetível se não nos permitirmos entrar no ” planeta dos sonhos”.

Só assim podemos evoluir como pessoas e acreditar num futuro promissor e em pequenos milagres, depois de derrubar muros e atravessar desertos.

Não podemos permanecer numa subtil e silenciosa “preguiça ” de escutar os murmúrios da terra e o eco das vozes silenciadas, acomodados na sensação de impotência e de nada poder mudar.

Se todos nós cumprirmos a nossa missão, deixaremos certamente um melhor legado às gerações vindouras.

(Manuela Resendes)

Liberdade…

Soltem os ventos de liberdade

Gritem as palavras silenciadas

Soltem as virtudes da humanidade

Dando voz às minorias negligenciadas

Soltem quem rompe madrugadas puras

Abrindo asas para o voo da esperança

Soltem quem acredita no fim das agruras

Fazendo dos recomeços a mudança

Soltem quem não abre mão da honestidade

Sabendo que da espera se faz tempo

Soltem os que nunca perdem a dignidade

Mesmo que tenham de dormir ao relento

Soltem todos os prisioneiros

Destes invisíveis cativeiros!

(Manuela Resendes)