
Recentemente participei num campeonato de escrita criativa e neste contexto partilho com todos vocês o primeiro texto que elaborei para este desafio. Espero que gostem…
O estrangeiro
Era uma manhã igual a tantas outras naquela cidade, não fosse a chegada de um forasteiro cuja presença começou a dominar o falatório. De meia-idade, elegante, mas algo excêntrico, havia nele uma particularidade que todos assombrava. O estrangeiro, alcunha pela qual foi apelidado, calçava uma bota diferente em cada pé, e logo brotaram as mais diversas teorias sobre esta bizarria.
Apesar do borburinho, o estrangeiro mostrou-se indiferente às chalaças, e o certo era que as botas assentavam como uma luva. Aos poucos, a rotina, como uma borracha sobre papel, fez com que o estrangeiro deixasse de se destacar.
Numa cidade em que os acontecimentos incomuns escasseavam, as pessoas viviam com medo, dado ainda não terem esquecido o assassinato de Eugénia, cujo homicídio era um mistério por desvendar. Tendo tido conhecimento do hediondo crime sem resposta, logo o estrangeiro se prontificou a ajudar o comandante Gonçalves, a quem incumbia a investigação, alegando a posse, mesmo que nunca provada, de conhecimentos científicos.
Nesse âmbito ambos visitaram Zulmira, irmã da extinta, com vista à recolha de elementos probatórios. Logo a presença do estrangeiro se tornou mais frequente, gerando-se entre ambos uma amizade que cedo dispensou a presença do comandante e muito confortava Zulmira na sua dor e solidão.
Numa dessas visitas, em dia de chuva intensa, Zulmira reparou num pormenor que a deixou transtornada. As marcas deixadas na tijoleira da sala pelas botas molhadas logo remeteram o pensamento de Zulmira para uma passagem do diário de Eugénia, que se sentia perseguida por alguém que deixava uma pegada peculiar, com rastos de um par de solas diferentes. Afinal, as botas desiguais, mais que uma marca eram uma dissimulação. Logo que ficou a sós, e mal se recompôs, foi a correr falar com Gonçalves, após o que se recolheu em casa até à sua morte.

(Manuela Resendes)
Muito bem! Gostei! Este teu texto despertou me a vontade de reler Albert Camus… Obrigado Beijinhos
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Obrigada!!!
Beijinhos
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