No âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa volto a partilhar mais um dos textos que então escrevi. Espero que apreciem…

Uma outra janela
Acordava e logo me dirigia à janela do meu quarto, cumprindo um ritual antigo de assistir ao despertar da luz a atravessar a nudez dos vidros. Seguia o rumo do vento, marcado pela inclinação dos arbustos, vergados ao peso de uma força inominável que fazia o ar mais pesado que as folhas, até alcançar o horizonte colorido pelo arco-íris.
Escutava a voz sábia dos pássaros, que regressavam de outras latitudes cantando melodias felizes. Mas sinto uma névoa de incerteza, que não me permite mais vislumbrar as paisagens à distância. Aos poucos, a reserva de esperança que atravessava a minha janela foi tomando a forma de uma luz opaca, com sombras que não são filhas da luz.
Perdi gradualmente a visão do mar que, com a sua tonalidade e estados de espírito mutáveis, ora calmo, ora agitado num comovente inconformismo, deixou de me assaltar. Fui deixando de ver os barcos ao longe na sua passagem para outros destinos, ou as árvores que se agitavam com o vento a sibilar, numa dança coordenada que me embalava. Que força vil engoliu o mar, todos os seres que o habitam e o sal eterno que lhe dá um sabor agridoce?
Essa metamorfose, em que a visão ampla foi minguando, por força do amontoado de blocos de cimento que paulatinamente foi erigido do outro lado da rua, pontuado por vidros reluzentes e alumínios a imitar materiais nobres, provocou em mim a necessidade de um outro olhar sobre o mundo que antes atravessava a minha janela e nela se detinha.
Substitui esse olhar pelo meu imaginário, transcendendo a realidade e conquistando um pedaço de céu com as suas fascinantes minúcias. Abri, assim, um espaço para tempos interiores em que, mesmo que a janela se abra apenas para dentro, a memória traz-me a paz que procuro.
(Manuela Resendes)

De uma Excelente Escritora só podem brotar excelentes textos. Gostei. Parabéns…
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Obrigada!!!
Beijinhos
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