Palavras ao vento (5)

Em seguida partilho o quinto texto que elaborei para o campeonato de escrita criativa em que estive envolvida. Espero que apreciem o resultado desta minha aventura com as palavras, que espero sejam mais pesadas que o vento…

Notas soltas

Guilherme tinha sido uma criança alegre, muito afetuosa e dotado de uma energia transbordante. Desde muito cedo que os instrumentos musicais eram os seus brinquedos preferidos, dando espetáculo aos adultos que se deliciavam com a sua capacidade de os entreter em dias de festa familiar.

Os pais viam no seu único filho um talento prodigioso, guardado para os mais altos voos, o que augurava um futuro brilhante no mundo do espetáculo. Tal levou-os a investir todas as sobras do seu magro orçamento familiar na educação musical do seu rebento que tanto prometia, contratando inclusivamente mestres para aulas particulares. Contudo, apesar do enorme gosto inato pela música, Guilherme foi aos poucos afastando-se do seu putativo futuro radioso pois, pouco dado ao estudo e à disciplina repetitiva exigida pelas pautas, foi dando crescente prioridade à brincadeira.

Mas hoje Guilherme sentia-se extremamente feliz, como se do seu corpo irradiasse todo o brilho de uma estrela, e não tinha dúvidas em considerar euforicamente estar a viver o momento mais feliz da sua vida: acabava de ganhar o prémio de melhor violinista português do ano 2023, reconhecendo o seu trabalho de excelência na orquestra da Gulbenkian, em que tinha conquistado um lugar como solista. Assim, perante uma plateia repleta de figuras de renome do mundo da música, e do espetáculo em geral, recebeu este troféu com que sonhou toda a sua vida, agradecendo aos pais orgulhosos, sentados na primeira fila, todo o apoio dado à sua formação.

Quando o despertador anunciou que eram seis horas da manhã, Guilherme foi arrancado intempestivamente do seu sonho, percebendo que afinal era só mais um amanhecer corriqueiro, que o conduziria ao seu emprego de administrativo numa empresa de construção civil. Afinal, a sua imaginação, alimentada pela quietude do sono, não passaria de uma quimera utópica.

(Manuela Resendes)

2 Comments

  1. Manuel Maia's avatar

    O Sonho é o Ponto de Encontro da Arte com a Cultura, e estas o Caminho certo para a Felicidade. É certo que nem todos os caminhos são para todos os caminheiros, porque nem todos têm capacidade ou ousadia para sonhar. Mas diga-lhes, Drª Manuela, diga-lhes da forma mais veemente em cada palavra que escreva e seu estro lhe permita, diga-lhes que pelo sonho é que vamos…pelo sonho é que nos ultrapassamos! Diga a todos os Guilhermes que encontrar: Poeta sê tu, em poesia, e serás como te sonhaste, um dia! E à Drª Manuela, se me permite, dir-lhe-ei eu: não deixe que o Poeta que há dentro de si esmague sua ilusão. Continue, obrigue-nos a cultivar o espírito e a submeter o corpo a essa cultura. Parabéns.

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