Palavras ao vento (9)

Partilho com muito gosto mais um dos textos que preparei no âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que seja do agrado de todos…

Sem horas

Era uma novidade naquela pequena povoação, encastrada num vale tão fechado que era chamada de aldeia do Poço. Com cerca de 100 habitantes, a sua vivência era marcada pelo ritmo dos ciclos do sol e da lua, que impiedosamente também assinalavam a partida dos jovens para terras distantes.

Certo dia o presidente da junta mandou embutir na torre cimeira da igreja um relógio reluzente, que passou a marcar o ritmo quotidiano dos habitantes, logo divididos entre uma maioria que se conformou com a precisão científica do tempo, que até fazia soar os sinos de manhã à noite, em oposição a alguns poucos anciãos que preferiam o método ancestral que guiava a sucessão das suas tarefas.

Numa manhã em que o nevoeiro parecia querer abraçar para sempre o casario, apareceu morto à porta da igreja o Ti Joaquim, o mais idoso da aldeia e um dos que mais reclamou contra a instalação do relógio. Um dos primeiros que se acercou do homem prostrado foi o sacristão, que ao olhar para o alto verificou que aqueles ponteiros, que antes avançavam inexoravelmente, se mostravam parados, marcando as sete horas da manhã.

Aquela morte pareceu a todos ter desencadeado um pequeno inferno pois toda a harmonia da aldeia foi alterada: deixou de haver pão fresco pela manhã, as crianças esperavam pela professora, ou a professora pelos seus alunos, e o dia de trabalho parecia não ter início ou fim. Tal revolução só acabou com a intervenção de um relojoeiro vindo da cidade mais próxima, e pago a peso de ouro por uma subscrição dos habitantes, que logo descobriu que afinal alguém tinha desapertado uma das rodas dentadas do mecanismo.

Afinal foi o coração do Ti Joaquim que resolutamente parou, não resistindo ao esforço de ter subido a escadaria da torre da igreja naquela madrugada…    

(Manuela Resendes)

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