
Partilho em seguida o quarto texto que escrevi para o campeonato de escrita criativa em que participei. Espero que apreciem o resultado desta minha aventura com as palavras…
Digam à lua que eu não quero vê-lo
Era a alma da casa, e quando nela entrava espalhava alegria a rodos. Cantava, dançava, e sabia dizer a palavra certa, no momento exato, e com uma ironia que a todos encantava. Alice era também muito popular na escola e entre os seus amigos, talvez porque estar na sua companhia era sinónimo de boa disposição.
Contudo, num dia sem nome, tudo se alterou, e Alice passou a remeter-se a um silêncio inexpugnável. Em casa isolava-se no seu quarto, e só tolerava os familiares à hora da refeição, como se apenas cumprisse uma obrigação. Na escola acantonou-se na última fila, e entrava e saía como um espectro invisível aos demais.
Os pais desesperados consultaram todos os médicos possíveis, que prescreveram mil e um exames e tratamentos infrutíferos. Em desespero recorreram a um curandeiro, que logo diagnosticou um pacto com o diabo como causa de tal silêncio, mas não obstante inúmeras mezinhas, e não menos rituais, este perdurou, insensível à passagem dos dias.
No seu diário, Alice registava os seus medos, e mesmo sem perceber fazia a catarse das emoções, e assim mitigava a culpa que a consumia vorazmente. Todos os dias passavam na sua mente, estrepitosamente, as imagens daquela tarde em que, ao querer afagar um cão de pequeno porte, este se assustou e ao correr para a estrada foi atropelado mortalmente sobre o seu olhar.
Perante a situação ficou de tal modo perturbada que a partir desse dia não mais conseguiu articular o som encadeado de uma qualquer palavra. Só muitos anos mais tarde, um sobrinho, ao folhear aquele velho diário jacente no meio dos despojos daquela vida triste, deu sentido a uma afasia que no fundo até ressoava a poesia: afinal, como escreveu o poeta Garcia Lorca – Digam à lua que venha, que não quero ver o sangue…
(Manuela Resendes)


















