Palavras ao vento (4)

Partilho em seguida o quarto texto que escrevi para o campeonato de escrita criativa em que participei. Espero que apreciem o resultado desta minha aventura com as palavras…

Digam à lua que eu não quero vê-lo

Era a alma da casa, e quando nela entrava espalhava alegria a rodos. Cantava, dançava, e sabia dizer a palavra certa, no momento exato, e com uma ironia que a todos encantava. Alice era também muito popular na escola e entre os seus amigos, talvez porque estar na sua companhia era sinónimo de boa disposição.

Contudo, num dia sem nome, tudo se alterou, e Alice passou a remeter-se a um silêncio inexpugnável. Em casa isolava-se no seu quarto, e só tolerava os familiares à hora da refeição, como se apenas cumprisse uma obrigação. Na escola acantonou-se na última fila, e entrava e saía como um espectro invisível aos demais.

Os pais desesperados consultaram todos os médicos possíveis, que prescreveram mil e um exames e tratamentos infrutíferos. Em desespero recorreram a um curandeiro, que logo diagnosticou um pacto com o diabo como causa de tal silêncio, mas não obstante inúmeras mezinhas, e não menos rituais, este perdurou, insensível à passagem dos dias.

No seu diário, Alice registava os seus medos, e mesmo sem perceber fazia a catarse das emoções, e assim mitigava a culpa que a consumia vorazmente. Todos os dias passavam na sua mente, estrepitosamente, as imagens daquela tarde em que, ao querer afagar um cão de pequeno porte, este se assustou e ao correr para a estrada foi atropelado mortalmente sobre o seu olhar.

Perante a situação ficou de tal modo perturbada que a partir desse dia não mais conseguiu articular o som encadeado de uma qualquer palavra. Só muitos anos mais tarde, um sobrinho, ao folhear aquele velho diário jacente no meio dos despojos daquela vida triste, deu sentido a uma afasia que no fundo até ressoava a poesia: afinal, como escreveu o poeta Garcia Lorca – Digam à lua que venha, que não quero ver o sangue…

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento (3)

Partilho abaixo mais um dos textos que elaborei no âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa. Espero que seja do agrado de todos…

Aldeia da Bruxa

Numa aldeia remota, Veneranda era conhecida por fazer feitiçarias e lançar maus-olhados, o que intimidava os seus habitantes. Todos os dias Veneranda visitava o cemitério, acompanhada pelo seu gato pardo, onde se dizia que recolhia materiais para os seus feitiços. Quando passava no centro da aldeia, os habitantes efabulavam grandes histórias sobre o seu passado a partir de ínfimas verdades, e alguns até chegaram a propor expulsá-la daquele lugar.

Revoltada com essa situação, Veneranda lançou uma maldição sobre a aldeia, fazendo saber que grandes tragédias sobreviriam sobre todos se uma certa frase de dúvida ecoasse em público. Entre descrentes e temorosos, estes mais que os primeiros, a população resolveu pedir ao pároco que abençoasse a aldeia, por forma a afugentar qualquer poder oculto.

Depois daquele tempo de sobressalto, aquela proteção divina esbateu o medo, os anos passaram e tal assunto caiu no esquecimento, sendo que para os mais novos passou a ser uma história divertida sobre crendices de antepassados mais ou menos longínquos.

Mas era nos animados serões em casa de Manuel que este tema voltava à baila, com a animação e leveza que só o vinho oferece. Era um homem abastado, com terras, gado e vinhas, que julgava que pelas muitas esmolas que oferecia se redimia.

A Manuel faltava, contudo, a presença do seu filho, que após estudar em Lisboa por aí criou raízes. Numa das raras visitas à família, este questionou quem era aquela mulher estranha que via a caminho do cemitério. Em ambiente jocoso, foram-lhe explicando as peculiaridades de Veneranda e a maldição que pendia sobre a aldeia. Foi quando o visitante se apressou a acrescentar

– Se fosse verdade já tinha acontecido.

Conta-se que a partir desse momento uma série de acontecimentos nefastos se abateram na aldeia, que passou a designar-se por aldeia da Bruxa.  

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento (2)

No âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa volto a partilhar mais um dos textos que então escrevi. Espero que apreciem…

Uma outra janela

Acordava e logo me dirigia à janela do meu quarto, cumprindo um ritual antigo de assistir ao despertar da luz a atravessar a nudez dos vidros. Seguia o rumo do vento, marcado pela inclinação dos arbustos, vergados ao peso de uma força inominável que fazia o ar mais pesado que as folhas, até alcançar o horizonte colorido pelo arco-íris.

Escutava a voz sábia dos pássaros, que regressavam de outras latitudes cantando melodias felizes. Mas sinto uma névoa de incerteza, que não me permite mais vislumbrar as paisagens à distância. Aos poucos, a reserva de esperança que atravessava a minha janela foi tomando a forma de uma luz opaca, com sombras que não são filhas da luz.

Perdi gradualmente a visão do mar que, com a sua tonalidade e estados de espírito mutáveis, ora calmo, ora agitado num comovente inconformismo, deixou de me assaltar. Fui deixando de ver os barcos ao longe na sua passagem para outros destinos, ou as árvores que se agitavam com o vento a sibilar, numa dança coordenada que me embalava. Que força vil engoliu o mar, todos os seres que o habitam e o sal eterno que lhe dá um sabor agridoce?

Essa metamorfose, em que a visão ampla foi minguando, por força do amontoado de blocos de cimento que paulatinamente foi erigido do outro lado da rua, pontuado por vidros reluzentes e alumínios a imitar materiais nobres, provocou em mim a necessidade de um outro olhar sobre o mundo que antes atravessava a minha janela e nela se detinha.

Substitui esse olhar pelo meu imaginário, transcendendo a realidade e conquistando um pedaço de céu com as suas fascinantes minúcias. Abri, assim, um espaço para tempos interiores em que, mesmo que a janela se abra apenas para dentro, a memória traz-me a paz que procuro.

(Manuela Resendes)

Palavras ao vento

Recentemente participei num campeonato de escrita criativa e neste contexto partilho com todos vocês o primeiro texto que elaborei para este desafio. Espero que gostem…

O estrangeiro

Era uma manhã igual a tantas outras naquela cidade, não fosse a chegada de um forasteiro cuja presença começou a dominar o falatório. De meia-idade, elegante, mas algo excêntrico, havia nele uma particularidade que todos assombrava. O estrangeiro, alcunha pela qual foi apelidado, calçava uma bota diferente em cada pé, e logo brotaram as mais diversas teorias sobre esta bizarria.

Apesar do borburinho, o estrangeiro mostrou-se indiferente às chalaças, e o certo era que as botas assentavam como uma luva. Aos poucos, a rotina, como uma borracha sobre papel, fez com que o estrangeiro deixasse de se destacar.

Numa cidade em que os acontecimentos incomuns escasseavam, as pessoas viviam com medo, dado ainda não terem esquecido o assassinato de Eugénia, cujo homicídio era um mistério por desvendar. Tendo tido conhecimento do hediondo crime sem resposta, logo o estrangeiro se prontificou a ajudar o comandante Gonçalves, a quem incumbia a investigação, alegando a posse, mesmo que nunca provada, de conhecimentos científicos.

Nesse âmbito ambos visitaram Zulmira, irmã da extinta, com vista à recolha de elementos probatórios. Logo a presença do estrangeiro se tornou mais frequente, gerando-se entre ambos uma amizade que cedo dispensou a presença do comandante e muito confortava Zulmira na sua dor e solidão.

Numa dessas visitas, em dia de chuva intensa, Zulmira reparou num pormenor que a deixou transtornada. As marcas deixadas na tijoleira da sala pelas botas molhadas logo remeteram o pensamento de Zulmira para uma passagem do diário de Eugénia, que se sentia perseguida por alguém que deixava uma pegada peculiar, com rastos de um par de solas diferentes. Afinal, as botas desiguais, mais que uma marca eram uma dissimulação.  Logo que ficou a sós, e mal se recompôs, foi a correr falar com Gonçalves, após o que se recolheu em casa até à sua morte.

(Manuela Resendes)

Acolher a Primavera

Num mundo que anda a alta velocidade, e pintado em tons de cinzento, a passagem das estações faz-se sem celebração nem rituais.

A primavera, que se aproxima, é sem dúvida uma das estações mais prazerosa e que faz brotar em nós uma alegria pueril, quase desconhecida.

Reconhecemos este tempo no despontar das folhas, no festival de cores das flores e nas essências perfumadas que a brisa lisa do vento transporta. Borboletas que se soltam na imensidão do azul dos céus, anunciam a visita de pássaros antigos com vozes novas, que traduzem a sua identidade nas árias cantadas.

A primavera chega para todos, crentes ou descrentes, otimistas ou pessimistas, e até para quem não tem jardim. Ilumina pensamentos obscuros com a sua intensa luz, dando espaço ao sonho, ao devaneio e à imaginação.

E nesta rotação eterna, que saibamos preparar os olhos para visões quiméricas.

Que o futuro aconteça com o sabor da primavera!

(Manuela Resendes)

Para um Ano verdadeiramente Novo

E janeiro caminha já para o seu término, em passos largos e algo apressados, como quem tem uma importante missão a cumprir mas segue sem plano.

E nós já com respiração ofegante, queremos é acompanhar este ritmo como quem “bebe a vida” mas sem tempo para a saborear.

Depois da grande azáfama dos preparativos e comemorações do Natal, apressamo-nos a embalar tudo o que a essa época diz respeito, sem deixar vestígios que bloqueiem o que se segue.

Sem demoras, as montras enchem-se de fantasias de carnaval, as crianças passam das canções natalícias para os disfarces temáticos e as malassadas são, por agora, rainhas dos lanches.

O dia de Amigos( tradição açoriana) já movimentou restaurantes e outros espaços noturnos, num dia em que as mulheres ficam em casa, e na semana seguinte faz-se ao contrário, celebrando neste caso o dia de Amigas.

Mais 3 semanas de palhaçadas e muita folia e na Quarta-feira de cinzas, para nāo desanimarmos, começamos a sonhar e planear as férias da Páscoa.

Já com dias grandes e perspetiva de sol, sonhamos com praias mais ou menos distantes e paradisíacas, onde os problemas do mundo não façam eco nas nossas consciências.

Mas este modo de vida devora o tempo, os afetos e emoções e desumaniza-nos. Alienamo-nos dos nossos deveres cívicos, de solidariedade e até familiares, mas sempre reclamando por um mundo melhor.

Deixamos de conseguir usufruir de alegrias simples, do nada fazer, deixando o pensamento vaguear livremente, e do tédio que obriga à criatividade.

Deixamos de querer ouvir os mais experientes e sábios, confiando nas novas tecnologias cujo acesso é rápido, mas efémero.

Até a informação jornalística cedeu à tentação de preferir as maiores audiências ao rigor e qualidade, numa toada sensacionalista que não informa nem educa.

Gostava de ver o mundo tomar outro rumo, mas a esperança de começar de novo em 2024 vai-se esvaindo, nunca esquecendo que todos somos responsáveis.

Um dia lá chegaremos!

(Manuela Resendes)

Ambiguidades

O chão nem sempre é de terra

A ponte nem sempre é passagem

Nem todo o medo é falta de coragem

Nem todas as armas são de guerra

O mar nem sempre separa

A saudade nem sempre desvanece

A luz nem sempre incandesce

O tempo nem sempre repara

A vida nem sempre é corrente

O futuro nem sempre é progresso

Nem sempre o sol é nascente

Nem toda a partida tem regresso

Mas o tempo nāo pára de correr

E é só a vida a acontecer!!!

(Manuela Resendes)

O tempo que o tempo tem

Cada vez paramos menos, pensamos menos e desfrutamos menos do tanto que temos. A nossa energia some-se entre rotinas banais, como a luz do entardecer se desvanece até ser noite.

Nem nos concedemos a oportunidade para descodificar o que nos vai na alma, não dando espaço para que a vida alcance a esperança.

Vivemos rodeados de mar, mas não ouvimos a música das ondas, ora em ritmos suaves ou mais agrestes, onde nos agasalhamos dos ventos, com a ternura das emoções que carregamos.

O nosso contador do tempo tem um ritmo próprio, dependente dos labirintos temporários que habitamos, dos paraísos que por vezes visitamos e das memórias que carregamos. E temos de aprender a aceitar que tudo é passageiro e mutável como o movimento das nuvens no céu e os recursos para gerir os sobressaltos da vida têm de nos ser intrínsecos.

A maior sapiência que a vida nos pode dar é perceber que podemos encontrar “quase tudo” em “quase nada” se soubermos olhar para o que está debaixo dos nossos olhos, sem estarmos condicionados pelos gestos repetitivos que quotidianamente fazemos, e que tornam invisíveis tanto do que olhamos.

É conseguir escapar à tentação de tergiversar sobre aquilo que não somos, não fazemos ou não encontramos, fugindo da nossa própria responsabilidade.

O mundo não está um sitio fácil, mas cabe a cada um de nós contribuir para que o deixemos, pelo menos, um pouco melhor!!!

(Manuela Resendes)

A vida a acontecer…

Os sonhos são interrompidos pelo som do despertador, na manhã escura, em que os gestos se repetem com o automatismo de quem os sabe de cor.

Ouço os pingos da chuva a cair do beiral, o tilintar de fechaduras que se abrem e os passos na calçada, onde segredos dissimulados nas pedras antigas são desvendados pelos olhares opacos.

Corro atrás do vento, para apanhar a fantasia que preenche o espaço deixado por dias caóticos, em que os horizontes coloridos são engolidos pelos predadores da vida.

Ouço a música silenciosa das flores, para ocultar o som de ardilosas palavras alheias, e é com a poesia que alumio os meus dias nublados, transformando-me em acrobata do tempo e do espaço, mesmo quando a crueza do mundo atravessa a janela da minha alma, pronta a aniquilar a minha reserva de esperança.

Junto então todos os meus “eus” e, ao escrever o futuro que por instantes pensei ter desaparecido, volto a voar, porque “o poema ensina a cair” e a poesia salva!!!

(Manuela Resendes)

Quase Outono

Nas ruínas nascem heras

Tal catedral abandonada

Dos sonhos brotam quimeras

Apesar desta luz velada

O mar agora revolto e inquieto

Marés que carregam melancolia

Abrigo dos sons da poesia

Luz de um túnel indiscreto

E nem a falsa alegria

De ouvir ao longe a lira

É virtude ou hipocrisia

É um sentimento inusitado

Inebriante, este mar safira

De imenso leito abandonado!!!

(Manuela Resendes)