Palavras ao vento (7)

No âmbito da minha participação no campeonato de escrita criativa deixo aqui o sétimo texto que escrevi. Espero que gostem…

Traição

O dia chuvoso prenunciava o reviver de velhas memórias que o tempo nunca foi capaz de apagar. Em casa, entediado, revolvi caixas empoeiradas, e de repente deparei-me com uma fotografia que me fez recuar no tempo até à minha infância, e num instante um segredo que sempre fechei a sete chaves inundou o meu pensamento.

Naquele dia, com a cumplicidade do meu irmão mais novo, tinha decidido espreitar para casa de Valéria, mulher que naquela vila suscitava muitos comentários depreciativos. Valéria trabalhava num local de diversão noturna, o único tolerado pela hipocrisia das autoridades, para onde caminhava ao fim da tarde sobre uns saltos que ecoavam na calçada. O seu nome era proferido em voz baixa, o que sempre me fez despertar a curiosidade. Que quereriam dizer epítetos que ia captando – desavergonhada, dissoluta, mulher da vida – em conversas de adultos bruscamente interrompidas quando me aproximava?

Com uma moeda que tinha no bolso sorteámos qual de nós se colocaria de gatas, para que o outro subisse e conseguisse alcançar um orifício na vedação de madeira que limitava o quintal da casa de Valéria. Ainda hoje me lembro como ludibriei o meu irmão, por forma a ser o primeiro a espreitar, sem saber que tal me deixaria para sempre transtornado. Esta pequena traição fraternal, movida pela minha curiosidade, acabou por se transformar numa mentira ainda maior, porque nunca disse ao meu irmão aquilo que realmente pude observar, que se transformou num peso que ainda hoje carrego. Não se consegue ver nada – disse então, com a vergonha que me invadia a queimar-me a língua.

Passados tantos anos, com a fotografia na mão, fechei os olhos, e como então vi o meu pai a entrar na casa de Valéria, que o abraçou à porta, antes desta se fechar encerrando para sempre a minha inocência. 

(Manuela Resendes)

3 Comments

  1. Manuel Maia's avatar

    Neste belo texto da Drª Manuela vislumbro uma reunião íntima de coisas diversas, assim como se fosse uma combinação de “Coisas do Arco da Velha” com “Coisas da Arca da Velha”. São “coisas” muito diferentes! No “Arco da Velha” há histórias incríveis, fantásticas, surpreendentes, invulgares, envolvendo o esoterismo, o oculto, o misterioso, o estranho, por isso, muito explorado pelo “chico-espertista” em relação “chico-inocentista”. Aquele explora; este aceita. Quando não se sabe explicar, especula-se! O esperto é perito em especulações e nestas inclui sempre uma pitada de superstição. “Coisas da Arca da Velha” são coisas que se vão buscar ao fundo da gaveta mais funda da memória. Desta gaveta sacam-se os primeiros anos de vida ou, neste caso, aquilo que a imaginação der à luz. Sem dúvida que a Drª Manuela tem uma imaginação muito fértil. Parabéns.

    Gostar

Deixe um comentário