Tardes de agosto

Apesar da brisa suave as árvores permanecem imóveis, e apenas raras folhas dançam no chão.

O sol e a lua percorrem o seu caminho, sem pressa, deixando a sombra andar sem ter a pretensão de a alcançar.

São dias vadios, sem norte e livres da dura realidade.

As flores exalam agora um perfume mais intenso que também alcança o paladar, com formas e cores que despertam todos os sentidos.

E quando empurramos o nosso olhar até ao horizonte acolhemos um bom pedaço de céu num tempo sem medida.

Caminhamos apenas guiados pela direção do vento, nas estradas de memórias e saudades, e em outras vias que irão desembocar no futuro sonhado em noites estreladas.

E quando o sol é já poente, e tal como o tempo colhe a rosa, o dia desmaia e surge a noite numa transmutação da natureza, permitindo outros olhares, outras emoções e novas descobertas…

E amanhã é outro dia!!!

(Manuela Resendes)

O vento

O vento sussurra ao meu ouvido e fala-me de outras vidas, de outras latitudes e de memórias.

Chega até mim uma fragrância que o tempo tinha levado, para um destino onde já não habito.

E a leve brisa que me massaja o rosto transporta-me para um universo de utopias, com a alma ensolarada e o corpo banhado de mar.

Abraças os espaços e todas as existências de forma invisível, em voos carregados de ambiguidades. Até o tempo por vezes passa devagar, percorrendo lembranças que são devolvidas à memória em noites de insónia.

E as palavras, salpicadas com o orvalho da manhã, ganham asas e são levadas pelo vento, agitando a vida apagada e devolvendo respostas ou formulando novas perguntas.

Abres clareiras em céus escuros, pondo a nu o azul sedutor que faz brotar o poema do futuro sonhado.

E em noites de luar, o teu sopro suave sobre mares calmos gera um reflexo que nos remete para o infinito!

(Manuela Resendes)

O dificil é parar…

O mundo anda desinquieto, estranho, e empurra-nos a viver a uma velocidade vertiginosa, dando pouco espaço à paragem.

As notícias deixam-nos em constante sobressalto, mas sem tempo para as “digerir”, pois sucedem-se com espetacularidade, sem aprofundamento, nem reflexão, despertando apenas emoções primárias como medo, desesperança e preocupação…

É um mundo estridente, onde a impiedade do tempo serve de argumento para ignorar-mos tanto silêncio à espera de ser escutado. O que ouvimos não se esgota no que está a ser dito, e muitas vezes o não dito, mas é implícito, é o que mais precisamos de acolher para resgatar vida por cumprir.

Não podemos ver a vida como uma maratona, sempre em perda contra o tempo, pois vamos ganhando sabedoria, alicerce do nosso ser e que nos dá um sentido singular à existência.

E é neste agigantar da alma que se tece o fio que nos liga a uma escassa luz de esperança que se amplia e permite refundar a vida!!!

(Manuela Resendes)

Alerta amarelo

E não é só um alerta meteorológico, é também um alerta para o mundo.

O dia amanheceu indeciso, embalado por vento forte, em que tudo parece incerto e nada se nos afigura pleno.

As rotinas nascem já fatigadas e nas casas pressente-se o silêncio, enquanto o mundo explode de violência, com sons tenebrosos e clareiras faiscantes.

A luz é baça, e a harmonia do planeta está envolta numa cortina de nevoeiro, que impede a passagem da alegria luminosa.

O perfume do trevo esfuma-se, entre as folhas de um livro poeirento que um dia foi bestseller.

Os galhos das árvores sussurram à janela a urgência de serem salvas, e das nuvens sem horizonte jorram grossos fios de água que tanto podem fazer germinar como destruir.

Mas virão noites doces e dias amenos, que serão a dose de esperança necessária para um futuro sonhado, que terá como abrigo a paz.

(Manuela Resendes)

Elixir da juventude

A juventude não é um tempo, uma fase ou um número, mas sim um estado de espírito, ou seja uma forma de vida.

A única forma de sermos idosos sem envelhecer é ousar nas experiências, não temer a mudança e manter a capacidade de sonhar.

É isso que faz manter o olhar vivo, sagaz e brilhante.

Permitir que o luar possa ser sol e o azul do mar infinito, salpicando os dias com uma aragem de futuro.

Sentir a frescura das gotas de orvalho cristalinas depositadas num botão de rosa, e nessa gota de água ver refletida a menina que hoje é mulher.

Manter o riso e a alegria que nos dão aquela energia vibrante, dando tudo por uma causa, mesmo quando o corpo já nos trai.

Apelar às doces memórias de infância, sentir o cheiro das flores do campo e o vento que levava bem alto aviões de papel carregados de sonhos.

Continuar a ter a capacidade de nos emocionarmos com uma música, um poema ou com o olhar inocente de uma criança.

E nos dias mais difíceis, deixar que as ondas lavem a alma, para que volte a ser cristalina!

E nunca ser escravo da repetição…

(Manuela Resendes)

Manhãs Azuis

Fico deslumbrada com os azuis de uma manhã de primavera, onde ecoa a voz sábia dos pássaros que regressam de destinos distantes com novas melodias.

Invade-me uma sensação de paz que me cura do cansaço de dias de tempestade e me deixa imersa numa felicidade inocente.

A alma transborda de mar e o olhar transporta o brilho do sol, afastando assim nevoeiros que por vezes se instalam como véus de penumbra.

E assim vai correndo a vida entre vazios e plenitudes, entre a realidade e os sonhos, com presença e com saudade, nesta busca constante de alcançar o quase impossível.

E vou fazendo este caminho com pés alados sob a areia morna de praias desertas, rumo a destinos desconhecidos onde a novidade provoque um olhar de espanto.

Quero permitir-me viver intensamente todas as idades, inspirada no exemplo das árvores, e sempre reconhecida a quem me ensina a superar o medo quando este me invade.

E sigo confiante rumo ao futuro!!!

(Manuela Resendes)

Dia da Liberdade

A liberdade que hoje nos habita

Emergiu do escuro e do medo

De poemas com mensagem inaudita

Do sobressalto vivido em segredo

Da aurora de luz, nascida de noite escura

Águas claras brotaram

Em rostos curtidos do sol

De vozes que o silêncio calaram

Foram lançadas as sementes

No olhar de cada criança

Soltaram-se as correntes

E germinaram as mudanças

Num abril novo, numa outra primavera

E quando abril nos falta

Temos de acender a candeia

E protegê-la do vento que passa.

(Manuela Resendes)

Estará o mundo louco?

Todos os dias me deparo com notícias que me deixam triste, desiludida e preocupada.

Sinto que o mundo está a ruir da base até ao topo, deparo-me com uma realidade instável, enganosa e hipócrita.

Estamos confusos, com a alma enganada, num movimento perpétuo que não leva a lado nenhum.

Precisamos de nos reinventar, criar novos modelos de vida e de felicidade, mais focado nas pessoas, valorizar o conhecimento e a imaginação e colocar a ética como pilar das nossas relações pessoais e profissionais.

Mas por vezes, o que nos parece ser o fim é o recomeço de algo maior. Vamos almejar um despojamento mais amplo, valorizar as coisas belas e simples e ampliar as emoções mais fecundas.

Procurar o caminho familiar da saudade de um cheiro, de um recanto ou de um poema, que nos vai ajudar a recentrar, utilizando essa energia e essa luz.

Vamos contemplar as estrelas, as marés, e dos ventos da vida colher sempre o melhor, sabendo que a angústia mora ao lado da felicidade.

Procurar o silêncio em fundo branco, no vazio mais pleno, que aos poucos vamos colorindo com palavras, donde nasce o poema num tempo de absoluta depuração.

Olho-me de novo de forma mais atenta e no reflexo do meu olhar já vejo esperança!

(Manuela Resendes)

Ausências

Olho o horizonte desfocado, raso de nevoeiro, sem que a ausência embacie o meu olhar, enquanto do ventre da madrugada brota uma maré cheia de sonhos e promessas.

Traçam-se assim novos roteiros, que vão rasgando o véu que cobre nuvens escuras, deixando irromper azuis com aroma de futuro.

E nesta tarde que se arrasta lenta, o sol ilumina os alçapões da memória, numa solidão acolhida entre o desamparo e a fé.

Volto agora a olhar o horizonte, que se enche de velas de uma regata, real ou imaginária, mas que se apresenta repleta de sinais.

Afinal existe presença, basta ler os sinais…

(Manuela Resendes)