Este é um trilho que se faz ao longo de cones vulcânicos, com vista para lagoas e uma vegetação sempre exuberante, podendo assim usufruir-se de paisagens deslumbrantes.
As condições meteorológicas têm de ser favoráveis, sendo que a altitude se situa entre os 750m e os 900m, zona de nevoeiros e neblinas frequentes.
O esforço é largamente recompensado pela paisagem, caminho percorrido ao som do coaxar das rãs e cantar dos pássaros, ar puro e sensação de um “lavar de alma”.
Concentro-me no movimento das marés, que tal como o tempo nunca param e sinto-me serena sem razão. Vêem-me à memória lembranças nebulosas de vida devorada por um tempo invisível.
Mas desta teia de pequenos instantes, brotam também esperanças que estavam perdidas na luz incandescente que nos impede de ver, mas que de alguma forma se revelam.
Deixo-me embalar pelo movimento leve e sincronizado das ondas e sinto uma avidez transbordante de vida. Não deixo que o ruído da multidão me impeça de ouvir o meu silêncio, os meus medos e os meus sonhos.
E hoje foi dia de fazer o trilho da “Rota da Água – Janela do Inferno”, que de inferno não tinha nada pois apenas vi um pequeno paraíso.
Foram 9 km com paisagens deslumbrantes, ao som da água a correr e do canto dos pássaros, entre vegetação luxuriante ou caminhos mais duros, com algumas subidas e pisos a puxar pelo corpo e pela mente.
Que leveza nos traz este “saborear” a natureza, e que bem faz à mente este desligar de tudo para usufruir na plenitude o que a natureza nos oferece.
Quero apenas poder pensar, sem desejos ou convicções, sentindo as várias tonalidades do dia e captando as que me provocam uma maior serenidade.
Não quero medir a velocidade de nada, nem cronometrar o tempo, deixando que este passe por mim de forma escorreita e sem sobressaltos.
Vou deixar as palavras ecoarem em mim, rasgando os silêncios dos meus olhares fascinados a captar o que existe em vazios profundos.
Carrego em mim tantas memórias, de um tempo que não é de hoje nem de ontem, e que existe na sombra da luz que me ilumina.
E porque a minha maior capacidade é a de sentir, quando a luz orvalhada da madrugada surge já reflete em espelho o que me vai na alma, coberta por véus transparentes.
E o tempo escorregadio vai-se sumindo e vai descendo o crepúsculo, fazendo nascer em mim uma nostalgia de não conseguir escrever uma história.
A vida ocorre entre chegadas e partidas, planos e acasos, encontros e desencontros…
E é neste fluir de emoções que vamos trilhando o caminho entre madrugadas hesitantes e memórias graníticas. Neste balanço entre perdas e ganhos, encontros improváveis e reencontros esperados, vamos sendo iluminados pela inexorável luz da alegria, que dissipa a neblina das partidas.
Somos assim abrigo dos nossos próprios cansaços, acreditando em regressos numa nuvem apressada, numa onda bem esculpida ou numa rajada de vento de norte.
E se a saudade aperta, peço ao mar para me levar em vez de me ancorar.
Não sei lidar com a violência, com a guerra, com a morte de inocentes em nome de um qualquer credo ou de um pedaço de território.
Não sei lidar com as exploração dos pobres e desvalidos, em que tudo lhes é retirado a começar pela sua dignidade.
Não sei lidar com o abandono a pessoas vulneráveis, com a falta de empatia e solidariedade em nome de um egoísmo feroz.
Não sei lidar com o tanto que no mundo me incomoda e o tanto que sinto que me transborda.
Mas ainda assim sou sonhadora, ancorada nos valores que vou vendo desmoronar e mantendo uma inocente esperança de que pequenos contributos poderão fazer germinar necessárias mudanças.
Vou refazendo os sonhos para que sejam tangíveis, e busco na natureza a serenidade e energia para os combates fatigantes.
Não me sinto perdida, mas desencontrada por teimar em carregar comigo objetivos exigentes, seguindo o rumo traçado pela minha consciência cívica e emocional.
E vou reinventando a vida, procurando na poesia conforto para as situações dolorosas e fazendo da saudade o trampolim que dá o impulso, rumo a um futuro esperançoso. E neste voo sem asas, mas pleno de intenção, recomeço com a força de quem nunca deixou de acreditar!!!
Estes despertares azuis, radiosos e com borboletas coloridas em voo, são prenúncio de dias de sossego.
Esta luz do amanhecer clareia cada pensamento escuro e permite descansar o olhar em horizontes longínquos, que ficam plasmados na retina límpida.
O mundo, agora já um pouco mais vasto, depois de quebrados alguns muros, já permite matar a sede infinita de liberdade. Agora é preciso recriar a vida, que se foi tornando mesquinha e sonolenta, acreditar na humanidade e na ciência, superar as angústias e fazer brotar poesia de palavras sombrias e inertes.
Carrego em mim todos os caminhos que percorri para alcançar azuis distantes, seguindo o sol que me foi servindo de clarabóia do futuro.
Mas quando os dias se enchem de vazios é nos lugares secretos da minha infância que procuro o colo que me embala e me dá o necessário impulso para novas travessias.
Por vezes é preciso dar um passo atrás, para ganhar o impulso para o salto…
Sinto em mim um estranho cansaço, que nāo sei se é angústia da alma ou os limites do corpo. Há uma ausência de mim, neste viver rodeada de exiguidade.
O meu olhar vai-se esvaziando na exaustão dos dias, nesta busca constante de transcendências, inventando um chão infinito para tocar as distâncias.
Acordo todos os dias, na esperança de boas marés que permitam fazer-me à viagem, na esperança de avistar novos azuis que me devolvam o brilho no olhar.
Esta inquietude, de olhar o Mundo desequilibrado e desequilibrador, num silêncio perturbador que faz um eco fascinado por palavras, tira-me a Paz.
Mas ao abrir todas as cortinas e deixar entrar a luz do Sol, em todas as minhas janelas, afastei a escuridão que me suga a energia e me rouba a alegria dos amanheceres. Começo então a sonhar que o calor que sinto, dos raios solares que me inundam, serão capazes de destruir o ódio, a violência e a injustiça, e volto a ter esperança na Humanidade.
Talvez seja utopia, ou a minha inabilidade para lidar com esperas inúteis…