
A casa que um dia deixei, com a voz embargada e os olhos marejados, não permanece mais lá.
Quando regresso, tudo está tão distante daquela manhã, que nem reconheço os abrigos de rigorosa ternura, nem os esconderijos de pedra morna e suave, restando apenas uma esperança desvitalizada.
A algazarra das crianças foi engolida por noites de temporais, onde as emoções se insinuam tão subtilmente através de fios de silêncio à espera de serem escutados.
O jardim viçoso e colorido é agora um terreno alagado, que percorro num passo desamparado e solitário sentindo o perfume insinuado das roseiras e do jasmim.
O aconchego que alumiava a escuridão da alma é agora um misto de sensações devolutas, que apenas dão sentido ao tempo.
Os dias inocentes perderam-se no meio das ruínas carregadas de histórias escritas a partir das teias da realidade.
A soleira da porta que servia de varanda para o mundo, não tem mais o encanto de perscrutar a novidade, nem tão pouco serve para descansar o corpo deste tempo dilatado.
Mas a janela do meu quarto, onde o sol cedo o iluminava, ampliando a sua luz, permanece lá com os vidros salpicados com vestígios dessas manhãs.
Foi então que me senti em casa…
(Manuela Resendes)


















