A casa que deixei…

A casa que um dia deixei, com a voz embargada e os olhos marejados, não permanece mais lá.

Quando regresso, tudo está tão distante daquela manhã, que nem reconheço os abrigos de rigorosa ternura, nem os esconderijos de pedra morna e suave, restando apenas uma esperança desvitalizada.

A algazarra das crianças foi engolida por noites de temporais, onde as emoções se insinuam tão subtilmente através de fios de silêncio à espera de serem escutados.

O jardim viçoso e colorido é agora um terreno alagado, que percorro num passo desamparado e solitário sentindo o perfume insinuado das roseiras e do jasmim.

O aconchego que alumiava a escuridão da alma é agora um misto de sensações devolutas, que apenas dão sentido ao tempo.

Os dias inocentes perderam-se no meio das ruínas carregadas de histórias escritas a partir das teias da realidade.

A soleira da porta que servia de varanda para o mundo, não tem mais o encanto de perscrutar a novidade, nem tão pouco serve para descansar o corpo deste tempo dilatado.

Mas a janela do meu quarto, onde o sol cedo o iluminava, ampliando a sua luz, permanece lá com os vidros salpicados com vestígios dessas manhãs.

Foi então que me senti em casa…

(Manuela Resendes)

O vento

Ali, num recanto do meu jardim

A folhear um velho livro de poesia

Olho as folhas e nuvens em romaria

Pássaros a saltitar num grande frenesim

Palavras soltam-se, no vento da madrugada

Transportam com ele o perfume da saudade

E vejo pétalas que caem por pura vaidade

Deixando assim a sua alma subjugada

Não sei a forma nem a cor do vento

Leva mil promessas e traz alguns sonhos

Inventa futuros que podem ser risonhos

Que são magia e outras vezes lamento

Nasci em tempos ainda áridos e rudes

Em noites que despem madrugadas

Luzes que iluminam, almas enganadas

Sofrimentos feitos de grandes virtudes

Mas mesmo quando estou ausente

Sei de cor a textura do meu chão

Que me deixa aguçada a impressão

De sempre ter estado lá, presente.

(Manuela Resendes)

Caminhada nas Furnas

Aliar o exercício físico com o prazer de desfrutar da natureza e, em silêncio, usufruir de paisagens deslumbrantes, da brisa macia e do perfume das conteiras, transmite-me uma sensação de paz, que tanto aprecio.

Nunca me canso de voltar a este lugar místico, nuances e mistério. A luz, o nevoeiro, o vapor das caldeiras, fazem das Furnas um lugar impar e sempre diferente.

E hoje a lagoa exibia-se em espelho, deslumbrante, de uma forma tão inspiradora que cativou de forma especial, o meu olhar.

Este lugar é pura poesia…

(Manuela Resendes)

Caminhada matinal

Tão bom começar o feriado com uma caminhada matinal, sob uma temperatura amena, a ouvir o mar e com o cheiro a maresia.

Foram 5 km percorridos a um ritmo de 8,32 minutos por km, sem se sentir o esforço tão distraída estava com a paisagem.

Este tipo de exercício físico, para além de agradável, faz bem ao corpo e à mente, empoderando-nos de uma energia e bom humor que nos permite acolher o dia com outra disposição.

Bom Feriado

(Manuela Resendes)

Gratidão…

A gratidão é um sentimento de almas nobres que se sentem em paz com o passado e têm capacidade de aceitação ao que a vida vai proporcionando, dando-lhe assim sentido.

A vida não é uma linha de montagem na qual o que já conseguimos, os sonhos concretizados e os objetivos alcançados, são passado sem história porque o nosso foco está apenas no que está por concretizar.

É tão bom perceber o caminho percorrido com o inesperado, os obstáculos e as vitórias.

Tudo contribui para a nossa construção como pessoas e a capacidade de usufruir do que temos/somos é que permite a nossa realização.

Tão bom sonhar e fazer por concretizar, ser persistente, mas se a vida nos mostrar alternativas não podemos deixar de as olhar como novas possibilidades, mapear novos caminhos e permitirmo-nos avistar outros patamares.

Não nos podemos fechar em “bunkers” em nome da segurança, seguir à risca os planos em nome do medo e não nos entregarmos aos outros em nome do sofrimento, correndo o risco de perdermos assim os momentos mais mágicos, inesperados e surpreendentes da vida.

Que saibamos sempre acolher o que a vida tem de memorável!

(Manuela Resendes)

Batizado do Francisco

E já batizámos o Francisco…

O Francisco é um bebé arco-íris, sorridente e cativante, que veio enriquecer ainda mais as nossas vidas.

Recebeste o sacramento do batismo, uma benção divina que irá iluminar o teu caminho, as tuas decisões e a tua vida.

Foi com o coração apertado, e um enorme orgulho, que assistimos a tão importante momento da tua vida, comemorado em família e amigos, numa festa cheia de luz, cor e muito amor.

Esta é uma memória que será guardada no “cofre” dos momentos especiais e fará parte das histórias que te vamos contar mais tarde.

Que bom ter-te nas nossas vidas, Francisco….

(Manuela Resendes)

Na passagem do tempo…

Sinto o cheiro da terra lavrada onde germina a semente do tempo, num ciclo infinito onde aos dias se sucedem as noites.

O sol debruça-se sobre a planície, num jogo de luzes e sombras, aquecendo a pedra fria, testemunha de tantos segredos.

Mas faço a viagem sem medir a passagem do tempo, não sou de hoje nem de ontem, porque só me sinto inteira onde não me impõem limites. Perco-me por caminhos invisíveis, como as estrelas no céu da liberdade e sigo leve como o voo do pássaro.

Caminho descalça na areia, para deixar pegadas de momentos felizes e subtis angústias, numa soma de histórias que fazem as nossas memórias.

Guardo comigo todos os instantes onde as paisagens eloquentes se estendem na distância, à luz de um doce entardecer, percorridas como as nuvens no céu, sem tempo, nem amarras.

Porque o tempo não são as horas contadas e os dias medidos, é sim a vida a acontecer, com os mistérios e evidências na sua infinita sabedoria.

(Manuela Resendes)

Aconchego…

Todos nós temos um sítio que nos aconchega, nos cura e nos transmite uma paz reveladora que emerge do nosso íntimo.

Vivemos num certo sobressalto, pelos acontecimentos de um mundo que “tritura” inocentes em guerras, pela violência gratuita e pobreza extrema, deixando-nos vulneráveis e com sentimentos de desamparo.

Mas para nos protegermos da dor não nos devemos refugiar em rotinas previsíveis e fechar no nosso pequeno mundo. Temos de fazer da nossa casa a varanda com vista para além de nós, e confrontarmo-nos com a realidade numa perspetiva transformadora.

Porque é nos momentos de crepúsculo, de desafio e desesperança que nos revelamos. Recorrendo às nossas ferramentas espirituais, renegar a uma existência sonâmbula carente de sentido, abrindo o coração na procura de um oásis de alegria para mitigar a nossa dor.

Devemos dizer “presente” à vida com entusiasmo e motivação, para nos alavancar até ao sítio das visões claras, não nos entregando ao desânimo, remoendo mágoas e ressentimentos. Na maior parte das vezes apenas precisamos de um outro olhar, para o mesmo caminho, retirar automatismos ao quotidiano e permitirmo-nos saborear a gratuitidade da nossa existência.

Quantas vezes a felicidade está onde nunca a procuramos…

(Manuela Resendes)

Brisa outonal

Os dias já não se estendem em longas tardes de brisa suave e morna, lembrando-nos que o Verão está prestes a acabar. O tempo incerto e o sol tímido, que aparece para logo se esconder por baixo das nuvens, é prenúncio de que os dias sem horas, descontraídos, e com a pressa estacionada numa qualquer praia, vão ficando para trás.

Mas este é o eterno ciclo da natureza, da mutabilidade das coisas que vamos absorvendo com a passagem de uma aragem carregada de liberdade.

As cores vão desmaiando e adquirindo novas tonalidades, mais quentes e temperadas de utopia, de uma espera com portas abertas para o horizonte.

Mas é no silêncio das tardes de Outono, que agasalho a alma com poesia ao som de melodias suaves, para que possa albergar em mim todas as cores e todos os sentimentos, reinventando-me, mas sempre na procura de azuis suaves.

Mas como num olhar atento tudo tem uma beleza peculiar, fico extasiada a ver os tapetes de folhas secas que se estendem à minha passagem…

(Manuela Resendes)

Silêncios que falam…

O silêncio é quase imperturbável!

Ouço apenas o rasgar do vento e os pássaros a cantar mas, ao invés de me apaziguar, esta aparente serenidade remete-me para as minhas vozes interiores.

Ecoam em mim os gritos do mundo, o choro de fome das crianças, o desespero de mães em salvarem os seus filhos e o medo da morte que leva a atos tresloucados.

Vejo imagens de inocentes a morrer numa total desvalorização pela vida, violência gratuita em nome de deuses evocados em vão, fazendo desaguar o desespero em becos sem saída.

Ouço gritos de revolta de sonhos de uma vida desfeitos por uma bala perdida, dores que não têm analgesia que as cure, injustiças que não vêm uma fresta de luz.

Sinto-me impotente mas inquieta e incomodada perante esta avalanche de violência, opressão e injustiça de que o mundo padece, para além de doenças, invejas e egoísmos odiosos.

É então que abro a minha janela e o espetáculo da natureza devolve-me uma nesga de esperança, regeneradora, porque me faz acreditar que gota a gota, com os nossos pequenos contributos, possamos contribuir para mitigar as dores do mundo, não nos escudando na nossa pequenez perante a grandiosidade dos problemas.

As dores que não vemos ou sentimos não deixam de existir…

(Manuela Resendes)