Um dia de cada vez…

Estamos todos um pouco cansados de viver neste limbo de imprevisibilidade, neste equilíbrio precário onde nos faltam horizontes límpidos.

O mundo mudou e nós também, damos agora valor ao que nos parecia banal e as rotinas agora são apetecíveis num mundo em constante mutabilidade.

Esta foi a realidade que nos coube experienciar e não podemos baixar os braços: é preciso resgatar vida em cada olhar, em cada sorriso, no abrigo do nosso desamparo.

Mas esta é também uma oportunidade de ouvir o nosso pensamento, de iluminar partes mais sombrias da nossa mente , empoderando-nos da coragem que nos permite fazer travessias desafiadoras, perante a irrupção do inesperado.

É nestes momentos de maior provação, que temos de deitar mão a todos os nossos recursos, de pôr em alerta todos os sentidos e enriquecer a nossa literacia emocional.

E assim vamos criando as nossas memórias com a verdade deste tempo, vencendo a apatia e o desânimo, valorizando outras dimensões da vida, no horizonte infinito que nos redime.

Que saibamos ver em cada aurora o fio condutor da esperança…

(Manuela Resendes)

Jogo do belamento…

Esta era uma tradição na minha infância e jogava-se precisamente durante a quaresma, acabando na sexta-feira Santa.

Crianças e adultos jogavam ao belamento, que consistia em combinar com outra pessoa (o nosso adversário no jogo) que durante um determinado numero de dias quem se avistasse mutuamente, e dissesse primeiro “belamente”, ganhava um ponto. No final do jogo ganhava quem tivesse conseguido mais pontos, e o prêmio previamente combinado era normalmente um pacote de amêndoas.

Era curioso o envolvimento que se punha no jogo, inventando estratégias para lubridiar o adversário, alterando rotinas, descobrindo esconderijos e cumplicidades, sempre com o objetivo de surpreender, levando sempre a sonoras gargalhadas e até alguns sustos.

Claro que o melhor era sempre a brincadeira, mas a sensação de vencer, e o prémio inerente, também faziam parte e não eram menosprezados.

Esta tradição tem vindo a cair em desuso e as amêndoas agora chegam-nos a casa em abundância, sem esforço ou disputa, mas seria interessante recuperar uma brincadeira feita de estratégia, cumplicidades e capacidade de imaginação.

Uma Santa e Feliz Páscoa

(Manuela Resendes)

Dias elásticos…

Como são promissores estes dias de março, que começam a espreguiçar-se para se alongarem em tardes infinitas em que se abrem portas invisíveis.

Os jardins ficam coloridos com as rosas a desbrocharem, as camélias repletas de cor e as estrelícias transportam consigo luz e vitalidade.

Os pássaros ensaiam melodias, para anunciar promissoras auroras, e o sol ainda morno varre neblinas e nevoeiros, descendo encostas verdejantes.

O mar exibe a sua cor prateada cheia de reflexos, como quem veste um fato domingueiro, e as nuvens passeiam-se no céu com pressa de explorar tanto azul.

Com os pés descalços na areia sinto a vibração deste tempo em que tudo germina, recolho aquela pedrinha com forma de concha e cor de arco-íris, e penso na história do seu percurso, escolhendo este sitio para se perpetuar.

Nas tardes de brisas suaves observo as borboletas em voos sincronizados, e espero aquele pôr-do-sol laranja, que me transporta para lembranças, sonhos e saudade, com uma alegria terna.

E nas noites que caem devagar, estreladas e luminosas, gosto de divagar em amenas conversas, embalada pela esperança colhida num abraço entre passado e futuro.

Gosto destes dias harmoniosos, de poesia e mistério…

(Manuela Resendes)

Que tempo é este!!!

Tempo que transcende qualquer medida

Feito das cores da minha janela

Paisagem que se parece a aguarela

Onde germinam novidades na despedida

De céus estrelados, preencho o vazio

Olhos que se enchem de poesia

Resgato assim a minha alegria

De um lugar estéril e sombrio

Procuro luz que rasgue a escuridão

Em labirintos inconstantes

Eternidade feita de instantes

Esperança que nasce da solidão

Transporto comigo a rosa dos ventos

Para me conduzir a novos alentos

(Manuela Resendes)

Parabéns Meu Amor

Faz hoje 24 anos que a minha vida mudou para para todo o sempre, e pelo melhor motivo…

Tudo ganhou um novo sentido, assumi novas responsabilidades e o meu coração encheu-se de um Amor transbordante e arrebatador.

Fizeste de mim Mãe, que é a minha maior missão, o “papel” mais desafiador e enriquecedor da minha vida e a viagem mais interessante, mesmo sabendo que também é preciso enfrentar ventos desfavoráveis.

Foste construindo a tua história, formando a tua personalidade, com espaço para explorares o teu talento e a tua criatividade, e sempre fazendo-te perceber que as escolhas têm consequências, mas com a segurança de ter sempre um abrigo para voltar.

Deixaste o colo, a mão e o ninho, seguiste o teu caminho levando na bagagem os valores e o “treino de voo” que te fui dando ao longo do tempo, e também um pouco de mim.

Mesmo de longe, fiz tudo para amparar as tuas quedas, proteger os teus passos e dar-te ânimo em momentos mais sombrios.

Foste crescendo e adaptando-te, conquistando mais mundo, com a tua forma carinhosa e educada, com o teu sentido de humor desconcertante e com o teu saber, deixando-me tão orgulhosa do filho, pessoa e profissional que és.

Hoje a festa não vai ser com os Heróis da Disney e casa cheia de amigos, bem colorida, como pedias na tua infância, mas os teus olhos irão brilhar por outros motivos…

Parabéns Meu Amor

(Manuela Resendes)

Prenúncio de Primavera…

Hoje acordei ao som da melodia dos pássaros, no seu canto de alvorada. O céu ainda se mostra em tons acinzentados, mas já se sente o vibrar da natureza e o perfume de campos floridos, que nos chegam transportados em brisas suaves.

Nos meus olhos já se vê o reflexo dessa luz, que alumia os dias cansados de demoradas esperas. Avisto o mar imenso e a praia ainda deserta, mas a terra já se encontra com o céu, em dias de sol e luas claras.

E neste tempo desencontrado e sem calendário, é no passar das estações que vamos encontrando referências, que nos permitem colmatar vazios e trazer novos alentos, para aprender um novo conceito de liberdade, de socialização e inventar formas de dar utilidade ao tempo.

O futuro é incerto, mas também uma oportunidade de nos reinventarmos e criarmos memórias, de um tempo que constará nos manuais da História da Humanidade, em que fomos protagonistas.

E o futuro é já hoje…

(Manuela Resendes)

Ao Francisco (meu terceiro sobrinho-neto)…

O Francisco tem apenas horas de vida mas já conseguiu inundar os nossos corações de alegria, fazer-nos sentir um Amor transbordante e uma vontade infinita de o proteger nos nossos braços.

O “nosso” bebé também ainda nāo sabe que chegou a um mundo virado do avesso, a que também nós nos estamos a habituar a viver. Por isso as fotos e os ecrãs são por estes dias a única forma que temos de acompanhar este momento tão especial das nossas vidas.

Chegaste como um prenúncio de Primavera, com perfume de novidade, espaço onde podem germinar todos os sonhos, e com uma luz que varreu as nuvens de dias sombrios.

Tens um nome que nos vai saber bem pronunciar, remetendo para felizes lembranças, mas o que vemos através dos teus olhos é um futuro cheio de promessa, onde te queremos ver feliz e completo.

Em dias de maior tempestade, seremos o teu abrigo, pois tens a sorte de ter tanto colo para te acolher, Meu Amor Pequenino.

Parabéns Ana e Tomás!!!

(Manuela Resendes)

Sentido de Pertença…

Durante uma fase da minha vida senti que pertencia a vários lugares mas que não tinha as “medidas padrão ” que me permitissem encaixar em algum deles. Esse sentimento de não pertença a um lugar provocava-me uma sensação de algum desamparo.

Como a planta que colhemos pela raiz, à qual roubamos a oportunidade de florir, no caminho percorrido até aqui senti muitas vezes a fragilidade de uma maturidade roubada à infância.

O percurso não foi linear, fui-me ajustando, defendendo, sentindo-me tantas vezes invisível, e outras tantas em destaque fruto de um trabalho silencioso e persistente, mas sem saber lidar com uma pele que não se ajustava ao corpo. Quanto mais mundo, mais rica é a vida, quanto mais experiências, mais ensinamentos, quanto mais questões resolvidas mais perguntas surgem.

Mas aos poucos aprendi a confiar em mim, a vincar a minha identidade e a potenciar as minhas capacidades, acreditando na bondade dos caminhos longos, percorridos numa solidão consentida. Fiz assim a ligação do passado ao futuro, adquirindo uma serenidade e bem estar que me permite viver de forma harmoniosa, quer com o meu mundo interior , quer com a realidade que me rodeia.

Hoje vivo sem ressentimentos nem angústias, olhando sempre o lado bom das coisas, exultando com as alegrias próprias e dos que vivem no meu coração, e ultrapassando as dores da vida com serenidade e capacidade de aceitação.

Agora percebo que há um sitio que nos pertence, onde estão as nossas raízes, ponto de partida para todo o tipo de viagens onde voltamos sempre por ser o abrigo mais aconchegante do mundo.

Que a vida me permita sempre ter esta curiosidade quase infantil de olhar para o que está para além do horizonte e sentir vida a acontecer…

(Manuela Resendes)

Abro as gavetas…

Todos nós temos aquelas gavetas misteriosas, onde se escondem tesouros de um passado guardado num recanto da nossa memória.

Posso encontrar mapas de estradas já percorridas, relógios onde o tempo parou ou fotos de um registo feliz; ainda roupas de encenação de outros tempos, cartas escritas com muita emoção ou poemas que nunca viram a luz do dia.

É uma viagem de sensações, em que a novidade está no que já foi vivido, onde se encontra o que nunca se perdeu e se avistam horizontes carregados de nostalgia.

E vem-me à memória um dia de chuva, um cheiro a perfume, uma casa fechada…

Lembranças reencontradas, como se as não tivesse sempre possuído, dum património silencioso sempre à espera de ser revisitado.

(Manuela Resendes)