Últimos dias de outubro

As madrugadas são escuras, surgindo de mansinho um fio de luz a anunciar a nova aurora.

Nas folhas das plantas aninham-se as gotas de orvalho noturno à espera que um raio de sol as torne resplandecentes.

Há uma névoa de incerteza no ar, que não permite assomar as paisagens que deslizam na distância, embaladas por uma brisa suave que faz estalar as folhas crepusculares que se deslocam sonolentas rastejando ou flutuando em movimentos sincronizados.

O ar fresco matinal, remete-me para a lembrança da casa silenciosa de uma indizível paz e das alegrias ruidosas, carregando uma saudade que se aconchega no calor da pele.

E apesar das palavras estarem ainda carregadas de noite, os primeiros raios de sol são o estímulo para a tarefa sempre inacabada de procura de felicidade!

(Manuela Resendes)

O farol

Ao longe avisto um farol

Que ilumina o mundo sombrio

Cais que vai abrigar do frio

Noites sem perfume de lençol

Em noites de tempestade

Almas inundadas de anseios

Olhos que são pátria de receios

Matam a fome com a dignidade

Mar incerto, espelho do mundo

Reflexo de uma luz inconformada

Onde se acendem velas de esperança

E neste momento que é fecundo

Nasce o sol, rompendo a madrugada

Soltando o grito da vitória, mudanca!

(Manuela Resendes)

A casa que deixei…

A casa que um dia deixei, com a voz embargada e os olhos marejados, não permanece mais lá.

Quando regresso, tudo está tão distante daquela manhã, que nem reconheço os abrigos de rigorosa ternura, nem os esconderijos de pedra morna e suave, restando apenas uma esperança desvitalizada.

A algazarra das crianças foi engolida por noites de temporais, onde as emoções se insinuam tão subtilmente através de fios de silêncio à espera de serem escutados.

O jardim viçoso e colorido é agora um terreno alagado, que percorro num passo desamparado e solitário sentindo o perfume insinuado das roseiras e do jasmim.

O aconchego que alumiava a escuridão da alma é agora um misto de sensações devolutas, que apenas dão sentido ao tempo.

Os dias inocentes perderam-se no meio das ruínas carregadas de histórias escritas a partir das teias da realidade.

A soleira da porta que servia de varanda para o mundo, não tem mais o encanto de perscrutar a novidade, nem tão pouco serve para descansar o corpo deste tempo dilatado.

Mas a janela do meu quarto, onde o sol cedo o iluminava, ampliando a sua luz, permanece lá com os vidros salpicados com vestígios dessas manhãs.

Foi então que me senti em casa…

(Manuela Resendes)

O vento

Ali, num recanto do meu jardim

A folhear um velho livro de poesia

Olho as folhas e nuvens em romaria

Pássaros a saltitar num grande frenesim

Palavras soltam-se, no vento da madrugada

Transportam com ele o perfume da saudade

E vejo pétalas que caem por pura vaidade

Deixando assim a sua alma subjugada

Não sei a forma nem a cor do vento

Leva mil promessas e traz alguns sonhos

Inventa futuros que podem ser risonhos

Que são magia e outras vezes lamento

Nasci em tempos ainda áridos e rudes

Em noites que despem madrugadas

Luzes que iluminam, almas enganadas

Sofrimentos feitos de grandes virtudes

Mas mesmo quando estou ausente

Sei de cor a textura do meu chão

Que me deixa aguçada a impressão

De sempre ter estado lá, presente.

(Manuela Resendes)

Caminhada nas Furnas

Aliar o exercício físico com o prazer de desfrutar da natureza e, em silêncio, usufruir de paisagens deslumbrantes, da brisa macia e do perfume das conteiras, transmite-me uma sensação de paz, que tanto aprecio.

Nunca me canso de voltar a este lugar místico, nuances e mistério. A luz, o nevoeiro, o vapor das caldeiras, fazem das Furnas um lugar impar e sempre diferente.

E hoje a lagoa exibia-se em espelho, deslumbrante, de uma forma tão inspiradora que cativou de forma especial, o meu olhar.

Este lugar é pura poesia…

(Manuela Resendes)

Caminhada matinal

Tão bom começar o feriado com uma caminhada matinal, sob uma temperatura amena, a ouvir o mar e com o cheiro a maresia.

Foram 5 km percorridos a um ritmo de 8,32 minutos por km, sem se sentir o esforço tão distraída estava com a paisagem.

Este tipo de exercício físico, para além de agradável, faz bem ao corpo e à mente, empoderando-nos de uma energia e bom humor que nos permite acolher o dia com outra disposição.

Bom Feriado

(Manuela Resendes)

Gratidão…

A gratidão é um sentimento de almas nobres que se sentem em paz com o passado e têm capacidade de aceitação ao que a vida vai proporcionando, dando-lhe assim sentido.

A vida não é uma linha de montagem na qual o que já conseguimos, os sonhos concretizados e os objetivos alcançados, são passado sem história porque o nosso foco está apenas no que está por concretizar.

É tão bom perceber o caminho percorrido com o inesperado, os obstáculos e as vitórias.

Tudo contribui para a nossa construção como pessoas e a capacidade de usufruir do que temos/somos é que permite a nossa realização.

Tão bom sonhar e fazer por concretizar, ser persistente, mas se a vida nos mostrar alternativas não podemos deixar de as olhar como novas possibilidades, mapear novos caminhos e permitirmo-nos avistar outros patamares.

Não nos podemos fechar em “bunkers” em nome da segurança, seguir à risca os planos em nome do medo e não nos entregarmos aos outros em nome do sofrimento, correndo o risco de perdermos assim os momentos mais mágicos, inesperados e surpreendentes da vida.

Que saibamos sempre acolher o que a vida tem de memorável!

(Manuela Resendes)

Batizado do Francisco

E já batizámos o Francisco…

O Francisco é um bebé arco-íris, sorridente e cativante, que veio enriquecer ainda mais as nossas vidas.

Recebeste o sacramento do batismo, uma benção divina que irá iluminar o teu caminho, as tuas decisões e a tua vida.

Foi com o coração apertado, e um enorme orgulho, que assistimos a tão importante momento da tua vida, comemorado em família e amigos, numa festa cheia de luz, cor e muito amor.

Esta é uma memória que será guardada no “cofre” dos momentos especiais e fará parte das histórias que te vamos contar mais tarde.

Que bom ter-te nas nossas vidas, Francisco….

(Manuela Resendes)

Na passagem do tempo…

Sinto o cheiro da terra lavrada onde germina a semente do tempo, num ciclo infinito onde aos dias se sucedem as noites.

O sol debruça-se sobre a planície, num jogo de luzes e sombras, aquecendo a pedra fria, testemunha de tantos segredos.

Mas faço a viagem sem medir a passagem do tempo, não sou de hoje nem de ontem, porque só me sinto inteira onde não me impõem limites. Perco-me por caminhos invisíveis, como as estrelas no céu da liberdade e sigo leve como o voo do pássaro.

Caminho descalça na areia, para deixar pegadas de momentos felizes e subtis angústias, numa soma de histórias que fazem as nossas memórias.

Guardo comigo todos os instantes onde as paisagens eloquentes se estendem na distância, à luz de um doce entardecer, percorridas como as nuvens no céu, sem tempo, nem amarras.

Porque o tempo não são as horas contadas e os dias medidos, é sim a vida a acontecer, com os mistérios e evidências na sua infinita sabedoria.

(Manuela Resendes)

Aconchego…

Todos nós temos um sítio que nos aconchega, nos cura e nos transmite uma paz reveladora que emerge do nosso íntimo.

Vivemos num certo sobressalto, pelos acontecimentos de um mundo que “tritura” inocentes em guerras, pela violência gratuita e pobreza extrema, deixando-nos vulneráveis e com sentimentos de desamparo.

Mas para nos protegermos da dor não nos devemos refugiar em rotinas previsíveis e fechar no nosso pequeno mundo. Temos de fazer da nossa casa a varanda com vista para além de nós, e confrontarmo-nos com a realidade numa perspetiva transformadora.

Porque é nos momentos de crepúsculo, de desafio e desesperança que nos revelamos. Recorrendo às nossas ferramentas espirituais, renegar a uma existência sonâmbula carente de sentido, abrindo o coração na procura de um oásis de alegria para mitigar a nossa dor.

Devemos dizer “presente” à vida com entusiasmo e motivação, para nos alavancar até ao sítio das visões claras, não nos entregando ao desânimo, remoendo mágoas e ressentimentos. Na maior parte das vezes apenas precisamos de um outro olhar, para o mesmo caminho, retirar automatismos ao quotidiano e permitirmo-nos saborear a gratuitidade da nossa existência.

Quantas vezes a felicidade está onde nunca a procuramos…

(Manuela Resendes)