Hoje acordei triste…

A vida é feita de pedaços que se vão encaixando, costurando, rasgando, bordando, num fluxo contínuo em que vamos escrevendo a nossa história.

Vão-se somando momentos tristes, alegres, memoráveis, desgastantes, empolgantes, que vão deixando a sua marca por entre dias que vão correndo, muitas vezes marcados apenas pelo correr das horas.

Vamos contabilizando tudo, o sono, as calorias, os passos, os batimentos, mas nāo cuidamos da mesma forma das emoções, dos afetos e da procura do que nos possa fazer mais sentido.

E hoje acordei angustiada por falta de respostas a tantos níveis, por ver tanta injustiça, tanta violência e tanta falta de empatia e soluções para com os mais vulneráveis.

Precisei sair à rua, para o vento me limpar a alma da poeira que me impedia de ver o céu infinitamente azul e luminoso.

Procurei ainda em todas as palavras e em todos os silêncios, as asas que me transportassem ao sonho porque não sei viver constantemente com os pés no chão. São dias quietos em que quero ouvir melodias que me embalem, viver sem fórmulas e inspirar-me numa noite de luar eternamente bela.

E na linha do horizonte consigo já espreitar uma nesga dos dias coloridos de primavera…

(Manuela Resendes)

Último dia de 2021

O mundo não está um sitio fácil, vivemos inquietos, vazios e mergulhados em preocupações, o que nos deve levar a refletir sobre o que podemos mudar para uma vida mais plena.

É preciso encontrar caminhos esquecidos, onde habite a alegria, resgatando a nossa “criança” escondida, escavando brechas para a janela da infância.

Assim iremos conseguir espreitar o futuro com a alma transparente, apreciar a novidade e olhar com espanto mas sem sobressalto.

Conservaremos assim a porção de infância que nos coube, evitando uma vida feita apenas de uma realidade áspera, onde dificilmente os sonhos terão lugar.

As crianças de hoje são a nossa inesgotável fonte de inspiração para transformar a rotina numa eterna novidade, ensinando-nos a graça do banal e a alegria de um reencontro.

É preciso voltar a acreditar em utopias, fazer da poça de água um mar onde viajamos num barco de papel ,e do reflexo das nuvens na água um céu infinitamente azul onde podemos voar nas asas de um papagaio de papel.

E nos dias de maior angústia, adoçar as horas com sorrisos de bondade que abrem novos caminhos e olhares de aconchego que clareiam as sombras da vida.

Juntos, com os que nos acrescentam, somos mais fortes…

Feliz 2022

(Manuela Resendes)

Pai, 22 anos sem ti…

O dia nasceu escuro e triste e as nuvens de tão pesadas transbordaram. O vento hoje é feito de melancolia, os olhares são de mar e prevalecem as velhas vontades.

Acolho o silêncio desnudado de onde brotam muitas lembranças, doces memórias e algumas histórias.

A tua chegada a casa era sempre o ponto alto do dia, trazias a segurança, a novidade e o mimo. Lembro as tardes em que pressentia a preocupação do teu atraso e tudo em mim ficava em alerta, com idas e vindas constantes ao ponto de onde te poderia avistar ou ouvir o tão característico barulho da tua chegada.

A “algazarra” acalmava com a tua presença e à tua volta todos queriam ouvir as novidades do dia, que com a tua voz serena ias dizendo, como quem conta uma história, transformando acontecimentos banais em verdadeiras aventuras, fazendo assim as nossas delícias.

Lembro o tempo em que a terra era amanhada, enquanto eu partilhava a espera da água da nascente, sem nunca te querer perder de vista.

Lembro a tua inteligência e cultura, o teu espirito visionário e a sabedoria daquela palavra amiga a todos e a qualquer um, tocando o coração como só as almas bondosas o sabem fazer.

Lembro as soluções improváveis que inventavas para resolver problemas do quotidiano, que me fascinavam, pois sempre gostaste mais de pensar do que executar (e como te compreendo Pai!).

Eras sem duvida o nosso porto de abrigo, de onde muito cedo nos deixaste partir sabendo que iríamos enfrentar tempestades, mas com a certeza de que só assim nos poderias oferecer o Mundo. Sentias depois aquele orgulho de nos ver voltar sãos e salvos, vencendo os desafios e sempre com vontade de fazer mais e melhor.

Ficamos vazios com a tua partida, mas com o tempo foste-te tornando presente nos desenhos das nuvens, nas estrelas brilhantes e no alto do horizonte. E neste encontro o conforto da tua presença aconchega-me…

Sei que olhas pela Mãe, por nós todos, e nos momentos de maior provação fazes-te presente na tua forma subtil e sensata, e com aquela “malícia” deliciosa, feita de um sentido de humor não explicito e tão teu.

Pai, o meu almoço hoje é favas porque vens almoçar comigo e fiz o teu prato preferido…

Beijinhos para o Céu… Pai

(Manuela Resendes)

Procuro…

Procuro na chuva a transparência que clareie os tons mais escuros de que se reveste o mundo, iluminando mentes obscuras e perversas.

Procuro no vento a alegria levada pelo peso de certas palavras e de muitas espadas, acreditando na leveza do voo que capta a bondade dos anjos.

Procuro no horizonte um céu pincelado de azul, ao invés da luz impura que ilumina cidades bombardeadas, massacrando inocentes.

Procuro o ar puro das florestas onde se respira uma ternura cândida onde a alma se renova e os sonhos não sucumbem.

Procuro a navegação segura, nestes dias em que cedo colhemos a noite para encontrar os atalhos da luz nascente.

Procuro o espirito natalício, mas o que mais encontro são luzes coloridas a simular a alegria, palavras a imitar o silêncio e solidariedade em forma de caridade. E muito remoer da solidão no fundo do tempo onde se contam as horas lentas da espera.

Sinto ainda que as palavras que escrevo são seduzidas pelo silêncio, na esperança que algo de novo se revele.

(Manuela Resendes)

Sonhos de Natal

Neste Natal quero atravessar fronteiras à boleia de nuvens ligeiras, espalhando pedaços de sonhos onde possam germinar, matando a sede de esperança.

Quero levar o brilho das estrelas às janelas escurecidas de solidão, e devolver a alegria roubada à aurora da vida.

Vou transformar em lares, construções de pedra fria com soalhos a ranger de frio, resgatando antigas lembranças e esquecimentos propositados, à volta de uma lareira em que se ouve o crepitar do fogo e se sente o calor da presença. Recordam-se assim Natais memoráveis em que nada atrapalhava a alegria e criam-se novas memórias.

Quero fazer morada em corações alheios, áridos e solitários, que batem descompassadamente, devolvendo o ritmo e a alegria de dias felizes.

E que o milagre aconteça, permitindo que as crianças não mais sejam vitimas de guerras, violência e abandono, no respeito pelos mais básicos direitos que se lhes assistem.

Por fim, que a “Estrela de Belém ” ilumine o caminho dos todo poderosos deste mundo, no sentido de fazerem deste planeta um lugar melhor, hoje, amanhã e sempre…

(Manuela Resendes)

Ler, escrever e viajar…

Estamos sempre a ouvir que “o tempo voa”, que “a vida é um sopro”, porque os dias se esboroam num quotidiano alucinante, sem deixar rasto de memórias.

Esta inquietude por vezes deixa-nos alienados, presos numa teia labiríntica de afazeres que ocupam corpo e mente, de onde não nos conseguimos libertar.

Muitas vezes preferimos assistir resignados a esta erosão da vida do que dar voz aos nossos silêncios, com receio do confronto com a nossa própria realidade.

Não nos podemos fechar a novos conhecimentos, evitar o desconhecido ou utilizar sempre o mesmo caminho, mesmo que isso possa abalar as nossas verdades absolutas.

Temos de procurar na viagem a novidade, o que ainda não sentimos e o que amplia o nosso mundo. Entender outras culturas e religiões, ouvir novas histórias de vida e degustar sabores do que nem sabíamos existir.

Através dos livros também podemos viver pedaços de outras vidas, realizar novos sonhos e participar em acontecimentos em latitudes distantes, sem sair do mesmo lugar. Este é um superpoder que não podemos desperdiçar, porque cada livro é uma nova oportunidade de viver uma história que nos acrescenta e faz feliz.

E depois vem a escrita que é o resultado da depuração de todas as emoções e sentimentos despoletados pelas nossas vivências, traduzidas por palavras que são ditadas pelo coração.

(Manuela Resendes)

Chuva e mais chuva…

Ouço uma melodia que me é familiar e que chega até mim através da janela do tempo. As ruas vazias e silenciosas deixam sobressair a musicalidade de grossas gotas de chuva a cair, com uma cadência ritmada como as batidas do coração.

Não vejo o azul do mar nem do céu, mas vou desenhando nuvens com as formas e cores do meu pensamento.

Resgato memórias de vazios não explorados, navegando no lençol de água e tendo como bússola o perfume destes dias chuvosos.

Vou juntando estes pequenos retalhos de vida que vão sendo costurados com o fio do pensamento, ganhando assim forma, sentido e transportando novas emoções.

Apesar da chuva e trovoada, estes também podem ser dias serenos e harmoniosos, de lavagem da alma dos resíduos tóxicos de dias ruidosos e fúteis.

Gosto destes dias de aconchego e poesia…

(Manuela Resendes)

Manhãs de nevoeiro

Não se vê o céu nem o mar, as nuvens não têm forma e o denso nevoeiro encobre até as doces lembranças.

Os sítios parecem estar fora do mapa, entre sombras e vazios, onde se espelham pensamentos numa escuridão arbitrária.

A água vai caindo gota a gota do beiral, lavando saudades indefinidas, à espera de uma luz que se irá refazer.

Estes dias têm de ser temperados de riso e ironia, em que se colhem as palavras mal habitadas e delas se faz poesia.

E para abrir clareiras é preciso espreitar além do escuro, procurar portos abrigados, não permitindo perder o norte e de forma livre acolher o futuro.

Nestes dias até os pássaros ficam em silêncio, não sei se por med,o ou por falta de alegria, mas é preciso ousar romper o nevoeiro!

(Manuela Resendes)

O prazer de partilhar

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Escrever é cada vez mais uma necessidade e um prazer. Partilhar o que escrevo faz sentido neste novo caminho que vou trilhando e aos poucos os sonhos vão-se concretizando.

Assim foi com muita satisfação que vi selecionados dois poemas da minha autoria para serem incluídos no Coletivo de Poesia intitulado “No Calor da Poesia, A Esperança”, vol. 2, Edições Vieira da Silva.

Vou percorrendo este caminho de forma serena e saboreando cada detalhe…

Manuela Resendes

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