Pai, 22 anos sem ti…

O dia nasceu escuro e triste e as nuvens de tão pesadas transbordaram. O vento hoje é feito de melancolia, os olhares são de mar e prevalecem as velhas vontades.

Acolho o silêncio desnudado de onde brotam muitas lembranças, doces memórias e algumas histórias.

A tua chegada a casa era sempre o ponto alto do dia, trazias a segurança, a novidade e o mimo. Lembro as tardes em que pressentia a preocupação do teu atraso e tudo em mim ficava em alerta, com idas e vindas constantes ao ponto de onde te poderia avistar ou ouvir o tão característico barulho da tua chegada.

A “algazarra” acalmava com a tua presença e à tua volta todos queriam ouvir as novidades do dia, que com a tua voz serena ias dizendo, como quem conta uma história, transformando acontecimentos banais em verdadeiras aventuras, fazendo assim as nossas delícias.

Lembro o tempo em que a terra era amanhada, enquanto eu partilhava a espera da água da nascente, sem nunca te querer perder de vista.

Lembro a tua inteligência e cultura, o teu espirito visionário e a sabedoria daquela palavra amiga a todos e a qualquer um, tocando o coração como só as almas bondosas o sabem fazer.

Lembro as soluções improváveis que inventavas para resolver problemas do quotidiano, que me fascinavam, pois sempre gostaste mais de pensar do que executar (e como te compreendo Pai!).

Eras sem duvida o nosso porto de abrigo, de onde muito cedo nos deixaste partir sabendo que iríamos enfrentar tempestades, mas com a certeza de que só assim nos poderias oferecer o Mundo. Sentias depois aquele orgulho de nos ver voltar sãos e salvos, vencendo os desafios e sempre com vontade de fazer mais e melhor.

Ficamos vazios com a tua partida, mas com o tempo foste-te tornando presente nos desenhos das nuvens, nas estrelas brilhantes e no alto do horizonte. E neste encontro o conforto da tua presença aconchega-me…

Sei que olhas pela Mãe, por nós todos, e nos momentos de maior provação fazes-te presente na tua forma subtil e sensata, e com aquela “malícia” deliciosa, feita de um sentido de humor não explicito e tão teu.

Pai, o meu almoço hoje é favas porque vens almoçar comigo e fiz o teu prato preferido…

Beijinhos para o Céu… Pai

(Manuela Resendes)

Procuro…

Procuro na chuva a transparência que clareie os tons mais escuros de que se reveste o mundo, iluminando mentes obscuras e perversas.

Procuro no vento a alegria levada pelo peso de certas palavras e de muitas espadas, acreditando na leveza do voo que capta a bondade dos anjos.

Procuro no horizonte um céu pincelado de azul, ao invés da luz impura que ilumina cidades bombardeadas, massacrando inocentes.

Procuro o ar puro das florestas onde se respira uma ternura cândida onde a alma se renova e os sonhos não sucumbem.

Procuro a navegação segura, nestes dias em que cedo colhemos a noite para encontrar os atalhos da luz nascente.

Procuro o espirito natalício, mas o que mais encontro são luzes coloridas a simular a alegria, palavras a imitar o silêncio e solidariedade em forma de caridade. E muito remoer da solidão no fundo do tempo onde se contam as horas lentas da espera.

Sinto ainda que as palavras que escrevo são seduzidas pelo silêncio, na esperança que algo de novo se revele.

(Manuela Resendes)

Sonhos de Natal

Neste Natal quero atravessar fronteiras à boleia de nuvens ligeiras, espalhando pedaços de sonhos onde possam germinar, matando a sede de esperança.

Quero levar o brilho das estrelas às janelas escurecidas de solidão, e devolver a alegria roubada à aurora da vida.

Vou transformar em lares, construções de pedra fria com soalhos a ranger de frio, resgatando antigas lembranças e esquecimentos propositados, à volta de uma lareira em que se ouve o crepitar do fogo e se sente o calor da presença. Recordam-se assim Natais memoráveis em que nada atrapalhava a alegria e criam-se novas memórias.

Quero fazer morada em corações alheios, áridos e solitários, que batem descompassadamente, devolvendo o ritmo e a alegria de dias felizes.

E que o milagre aconteça, permitindo que as crianças não mais sejam vitimas de guerras, violência e abandono, no respeito pelos mais básicos direitos que se lhes assistem.

Por fim, que a “Estrela de Belém ” ilumine o caminho dos todo poderosos deste mundo, no sentido de fazerem deste planeta um lugar melhor, hoje, amanhã e sempre…

(Manuela Resendes)

Ler, escrever e viajar…

Estamos sempre a ouvir que “o tempo voa”, que “a vida é um sopro”, porque os dias se esboroam num quotidiano alucinante, sem deixar rasto de memórias.

Esta inquietude por vezes deixa-nos alienados, presos numa teia labiríntica de afazeres que ocupam corpo e mente, de onde não nos conseguimos libertar.

Muitas vezes preferimos assistir resignados a esta erosão da vida do que dar voz aos nossos silêncios, com receio do confronto com a nossa própria realidade.

Não nos podemos fechar a novos conhecimentos, evitar o desconhecido ou utilizar sempre o mesmo caminho, mesmo que isso possa abalar as nossas verdades absolutas.

Temos de procurar na viagem a novidade, o que ainda não sentimos e o que amplia o nosso mundo. Entender outras culturas e religiões, ouvir novas histórias de vida e degustar sabores do que nem sabíamos existir.

Através dos livros também podemos viver pedaços de outras vidas, realizar novos sonhos e participar em acontecimentos em latitudes distantes, sem sair do mesmo lugar. Este é um superpoder que não podemos desperdiçar, porque cada livro é uma nova oportunidade de viver uma história que nos acrescenta e faz feliz.

E depois vem a escrita que é o resultado da depuração de todas as emoções e sentimentos despoletados pelas nossas vivências, traduzidas por palavras que são ditadas pelo coração.

(Manuela Resendes)

Chuva e mais chuva…

Ouço uma melodia que me é familiar e que chega até mim através da janela do tempo. As ruas vazias e silenciosas deixam sobressair a musicalidade de grossas gotas de chuva a cair, com uma cadência ritmada como as batidas do coração.

Não vejo o azul do mar nem do céu, mas vou desenhando nuvens com as formas e cores do meu pensamento.

Resgato memórias de vazios não explorados, navegando no lençol de água e tendo como bússola o perfume destes dias chuvosos.

Vou juntando estes pequenos retalhos de vida que vão sendo costurados com o fio do pensamento, ganhando assim forma, sentido e transportando novas emoções.

Apesar da chuva e trovoada, estes também podem ser dias serenos e harmoniosos, de lavagem da alma dos resíduos tóxicos de dias ruidosos e fúteis.

Gosto destes dias de aconchego e poesia…

(Manuela Resendes)

Manhãs de nevoeiro

Não se vê o céu nem o mar, as nuvens não têm forma e o denso nevoeiro encobre até as doces lembranças.

Os sítios parecem estar fora do mapa, entre sombras e vazios, onde se espelham pensamentos numa escuridão arbitrária.

A água vai caindo gota a gota do beiral, lavando saudades indefinidas, à espera de uma luz que se irá refazer.

Estes dias têm de ser temperados de riso e ironia, em que se colhem as palavras mal habitadas e delas se faz poesia.

E para abrir clareiras é preciso espreitar além do escuro, procurar portos abrigados, não permitindo perder o norte e de forma livre acolher o futuro.

Nestes dias até os pássaros ficam em silêncio, não sei se por med,o ou por falta de alegria, mas é preciso ousar romper o nevoeiro!

(Manuela Resendes)

O prazer de partilhar

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Escrever é cada vez mais uma necessidade e um prazer. Partilhar o que escrevo faz sentido neste novo caminho que vou trilhando e aos poucos os sonhos vão-se concretizando.

Assim foi com muita satisfação que vi selecionados dois poemas da minha autoria para serem incluídos no Coletivo de Poesia intitulado “No Calor da Poesia, A Esperança”, vol. 2, Edições Vieira da Silva.

Vou percorrendo este caminho de forma serena e saboreando cada detalhe…

Manuela Resendes

dav

Últimos dias de outubro

As madrugadas são escuras, surgindo de mansinho um fio de luz a anunciar a nova aurora.

Nas folhas das plantas aninham-se as gotas de orvalho noturno à espera que um raio de sol as torne resplandecentes.

Há uma névoa de incerteza no ar, que não permite assomar as paisagens que deslizam na distância, embaladas por uma brisa suave que faz estalar as folhas crepusculares que se deslocam sonolentas rastejando ou flutuando em movimentos sincronizados.

O ar fresco matinal, remete-me para a lembrança da casa silenciosa de uma indizível paz e das alegrias ruidosas, carregando uma saudade que se aconchega no calor da pele.

E apesar das palavras estarem ainda carregadas de noite, os primeiros raios de sol são o estímulo para a tarefa sempre inacabada de procura de felicidade!

(Manuela Resendes)

O farol

Ao longe avisto um farol

Que ilumina o mundo sombrio

Cais que vai abrigar do frio

Noites sem perfume de lençol

Em noites de tempestade

Almas inundadas de anseios

Olhos que são pátria de receios

Matam a fome com a dignidade

Mar incerto, espelho do mundo

Reflexo de uma luz inconformada

Onde se acendem velas de esperança

E neste momento que é fecundo

Nasce o sol, rompendo a madrugada

Soltando o grito da vitória, mudanca!

(Manuela Resendes)