As nuvens de cinza escuro movem-se com a urgência da descarga, o vento sopra forte de norte e a chuva cai de forma raivosa.
Vejo olhares vagos, perdidos num tempo sem medida, e gestos meigos escurecidos de silêncio, fugindo de lengalengas fastidiosas e inférteis.
Ouço um murmúrio de queixume e o alento vai esmorecendo como o arome do perfume, restando uma coragem feita de cansaços.
E quando o sol desaparece a poente, os pensamentos surgem alados de medos prematuros, tocando as arestas do futuro.
Mas há sempre um novo raiar, que nos permite olhar os amplos horizontes e encher de novo a alma de uma energia retemperadora que nos reconcilia com a vida, vendo em cada gota de orvalho o germinar de um tempo harmonioso.
Que nestes tempos incertos nunca nos faltem os Sonhos e a Fé…
Na sequência do desafio lançado pela Editora Letras Lavadas para escrever uma carta a um amigo/a no âmbito das comemorações do dia de Amigos/as, tradição açoriana que este ano devido à pandemia teve de ser feita à distância, dei o meu contributo com a escrita de uma missiva endereçada a um amigo de infância.
Estas cartas foram publicadas pela referida editora no e-book “Longe da vista, mas perto do coração“, que pode ser consultado através do link letras lavadas.pt, sendo o download gratuito.
Partilho aqui a carta com que respondi ao referido desafio….
Meu Caro Luís,
Espero que esta carta te encontre bem, apesar das circunstâncias mais difíceis e desafiantes que estamos a viver. Mas como tantas vezes dissemos, a vida é feita de saltos e sobressaltos e são os amigos a tecer a rede que nos ampara ou serve de trampolim para voos mais altos.
Nestes dias mais introspetivos dei por mim a pensar nas nossas brincadeiras de infância, e no quanto ficávamos felizes com as pequenas transgressões, como saltar na poça com mais água ou visitar aquele vizinho que tinha sempre uma história engraçada para contar, atrasando o regresso a casa, com a consequente repreensão.
Mais tarde eram as longas conversas, em que tudo era questionável, fazendo-nos perder a noção do tempo, mas ganhando estatuto de gente crescida com opiniões bem demarcadas e sentindo-nos donos da verdade.
E foi-se gerando assim uma tal cumplicidade entre nós que um olhar, ou um silêncio, era imediatamente percebido, e o seu significado descodificado. Os sonhos eram também eloquentes, com projetos conjuntos com grande impacto no futuro da humanidade.
Entretanto quis o destino que a nossa vida decorra separados pelo mar, mas sempre soubemos transmitir a coragem, o otimismo e o alento de que o outro precisa.
Quantas vezes depois de um momento triste acabámos com uma gargalhada, desconstruindo e tornando mais leve a realidade, inventando soluções quase mágicas, nesta conexão mental que perdura, apesar do tempo e da distância.
E enquanto te escrevo espreito pela janela e um raio de sol rasga o cinza do céu deste dia nublado e triste, e avisto a roseira que um dia me ofereceste acompanhada de uma mensagem que me acompanha até hoje, que não, sei se te lembras, dizia o seguinte: “mesmo as rosas vermelhas de que tanto gostas, apesar da sua beleza, têm espinhos; a vida também é assim…”. Com esta recordação o dia ganhou um novo colorido, e ao ver os botões de rosa a desabrochar livremente, indiferentes ao que se passa á sua volta, senti-me voltar à infância com uma inocente sensação de liberdade.
E como a carta já vai longa, despeço-me na esperança de um reencontro breve e na expetativa de receber notícias tuas.
Um grande beijinho desta tua amiga que te traz sempre no coração.
Amanhã é dia de eleições presidenciais no nosso país, momento de exercermos o nosso direito de voto em liberdade e consciência, fortalecendo a democracia e contribuindo para o que nos parecem ser as melhores escolhas para a nossa vida em sociedade.
Não basta criticar, dizer que tudo está mal, e que as injustiças são mais do que muitas; este é o momento de dar-mos o nosso contributo, pois se nos abstivermos de forma deliberada, desvalorizamo-nos cívica e socialmente, perdendo moralmente o direito à crítica e reivindicação.
O direito de voto foi conferido a todos os portugueses maiores de 18 anos com a aprovação da Constituição Portuguesa após a Revolução do 25 de abril.
Respeitemos a luta de tantos para chegarmos até aqui e podermos livremente exercer este direito/dever de votar, participando assim nas escolhas para o nosso país.
Em tempo de pandemia a comemoração do Dia de Amigos terá de ser mais contida, com a devida distância física, mas em festa, pois a amizade não conhece muros, nem confinamentos, e muito menos faz uso de máscaras ou de restrições de liberdade.
A amizade atravessa a imensidão do espaço e transcede todos os limites, num tempo fértil e cúmplice, sempre com a porta aberta para falar e escutar, para sublimar o silêncio e perscrutar o olhar, sendo âncora quando nos foge o chão.
Mas é também feita de risos desarmados e alianças inquebráveis, aventuras em mar aberto sem rotas delineadas, fazendo ecoar azuis profundos. É resistência nas tempestades e abrigo nas chuvas de verão, sabendo acolher as palavras desamparadas, ávidas de serem escutadas antes de calcificarem, silenciadas.
Mas quando os meus olhos se alagam de água, os amigos são o porto seguro, como sou para eles o céu de azul macio em dias de raivas flamejantes.
Os amigos são pacientes e tolerantes, pois são feitos de uma bondade que poucas vezes encontramos, de uma leveza fascinante, suspensos num fio invisível de dádiva permanente.
Os amigos são o açúcar e o sal, com que temperamos a vida.
Estamos de novo privados de liberdade, mas a contagem do tempo não cessa e a vida continua a ter de se cumprir, agora com menos ruído e travagens repentinas.
É tempo de ver a paisagem da janela, ouvir a natureza e parar para pensar o nosso papel na família, na sociedade e no Mundo.
E porque o tempo é uma matéria prima escassa e de alto valor acrescentado não nos podemos dar ao luxo de o esbanjar, banalizar ou transformar num tédio que se arrasta vagaroso e sem propósito.
Vamos soltar os nossos pensamentos, soprados por uma brisa suave, que nos vai conduzindo sem roteiro prévio a lugares pouco visitados, onde encontramos respostas inesperadas.
O Mundo está em profunda metamorfose, donde resultará uma nova ordem, mas precisamos de refletir sobre a forma de continuar esta caminhada. Não podemos ter medo de ser a peça que não encaixa, de ser círculo no quadrado ou o sol em dia de chuva pois, por vezes, temos de ser disruptivos com o previamente estabelecido para ver a mudança acontecer.
Não nos podemos apenas amargurar com os males do mundo, temos antes de os escutar e combater, de indignar e acolher causas, de mobilizar e persuadir com o nosso querer e a nossa luz.
O tanto que há para fazer não nos pode paralisar, e mesmo sabendo que somos ínfimos na imensidão da terra temos de pensar no exemplo do mar que é feito de gotas e possui uma força infinita.
Vamos reaprender a parar, pensar e só depois agir, sinto que é urgente…
O dia já nasceu cinzento e triste, não correspondendo ao brilho do que é novo, da luz do que acaba de nascer, nem das expetativas dos recomeços.
Mas a partir de um olhar mais atento não deixo de me deslumbrar com a cadência da chuva a cair, com o vaivém das ondas ou com o eco da minha voz, ampliada pela sua ressonância.
Quando conseguimos tirar prazer das coisas simples ganhamos asas invisíveis, o brilho das estrelas e a saciedade das esperas recompensadas. Porque só conseguimos impulso para a mudança depois de lavar a alma com a água da chuva, cicatrizar as feridas com o sal do mar e evaporar as mágoas, soltando ao vento ensejos de esperança.
Depois quero partir para lugares que desconheço, sentir vida a brotar do chão e a liberdade coada pelo tempo, conseguindo assim preencher de sonhos o vazio das noites vagas.
Os finais de Ano são tempo de balanço e de formular expetativas quase infantis de que a mudança cronológica será milagrosamente transformadora do mundo.
Mas nada acontece, se continuarmos na nossa imutabilidade; temos sim de fazer uma paragem para perceber o que precisa ser costurado com pequenos arranjos e o que requer ser refeito, ou mesmo rasgado.
É tempo de festa, mas também de introspeção, em que devemos dar espaço ao silêncio e acolhê-lo, escutando as perguntas que emergem do nosso íntimo e que teimamos em adiar a resposta para um momento ideal, que raramente acontece.
Que saibamos ver, e não apenas olhar, os subtis detalhes do nosso quotidiano, para que a mudança aconteça a partir de decisões conscientes que tomamos.
Mudar de Ano é apenas a passagem de mais um ciclo, nesta convenção de medida do tempo que nos permite fazer uma paragem para ganhar embalo para o futuro.
Mas não bastam listas de intenções, nem promessas já banalizadas, porque a mudança acontece a partir das sementes que fazemos brotar e pela conquista da liberdade de pensar e concretizar. Existem, no entanto, imprevisibilidades e situações adversas, que não conseguimos mudar, restando-nos aceitar e tomar as decisões que nos tragam paz ao coração.
Não podemos deixar que a indiferença nos atinja, perante as injustiças, a desumanização ou a violência, porque já fazem parte do nosso quotidiano. As situações de vulnerabilidade têm sempre de ser acolhidas, escutadas e, do que nós depender, mitigadas.
O meu desejo para 2021 é que a vida aconteça na sua plenitude, em que possa ter todas as idades, desde sentir uma inocência infantil, à responsabilidade pessoal e de cidadania, sabendo por vezes tocar a eternidade, porque são as emoções que acendem a chama da vida.
Para ganhar um Novo Ano, não basta esperar pelas doze badaladas e brindar aos desejos para o novo Ano, é preciso mudar, é preciso merecê-lo…
Este foi um Natal diferente, mas cheio de significado e rico de sentimentos recheados de intensidade, apelando a uma bondade nova, com a magia e o brilho de uma fé quase infantil.
Não tivemos as reuniões de família alargada, os convívios com amigos ou os jantares com colegas de trabalho, mas tivemos a possibilidade de abrir a janela a uma experiência nova, de um tempo prolongado numa intimidade mais silenciosa e reflexiva.
Foi tempo de guardar caixas com novas memórias, bater a portas fechadas para avistar as estrelas e confiar na espera de auroras luminosas, dando alento a quem vai perdendo a coragem.
Percebemos a nossa interdependência, porque só a breves espaços a vida é vivida individualmente, mas o que faz sentido é a partilha e o conforto do abrigo do outro nos momentos de fragilidade, aquecendo assim corações gelados que vivem desabrigados de corpo e alma.
Que nos saibamos libertar das teias que inconscientemente vamos tecendo com o amontoado de concessões e frustrações não verbalizadas, bem como das vulnerabilidades não acolhidas, que nos aprisionam tornando impossível o voo. Façamos antes um laço, que ligue a nossa vida à do outro, pelos afetos cúmplices pela entrega e doação, conectando assim a vida e a esperança.
E se assim for, das nossas palavras, mesmo que ditas em silêncio, vai-se ouvir o eco do Amor…