Obrigada…

E nas voltas da vida completei mais um Outono, rodeada de carinho de tantos que quiseram estar de alguma forma presentes neste dia tão especial de um ano tão difícil e atípico.

Estes têm sido tempos desafiadores, com novos problemas, dores já conhecidas e diferentes lições, vividos com uma estranheza que nos intimida. Mas os tempos difíceis, podem também ser de oportunidade, dando espaço a vontades antigas e alcançando horizontes desconhecidos.

Nasci no dia do solstício de inverno e transporto essa luz no olhar, permitindo-me um espanto renovado a cada noite de céu estrelado, ou com a gota de orvalho em forma de lágrima sobre a pétala frágil.

Gosto do cheiro a terra molhada, a urze queimada ou do alecrim, que me despertam todos os sentidos para um regresso a infância onde me reposiciono para novos voos.

Que nunca deixe de me emocionar com a dor de alguém que sofre, para rapidamente limpar as lágrimas e ser amparo.

Que mantenha sempre a capacidade de me indignar com todo o tipo de injustiças e a vontade de lutar ao lado daqueles que vão perdendo a força ou não se conseguem fazer ouvir.

Que consiga viver apaziguada com a presença dos ausentes, sorrindo das suas histórias bonitas e honrando sempre a sua memória. E que os atropelos da vida nunca me façam perder a doçura e a capacidade de ser grata às pessoas “farol” da minha vida.

E porque a vida é uma oportunidade única, que este novo número augure um tempo para me ir reinventando neste caminha cada vez mais espiritual, ajustando o ângulo que me permita a melhor perspetiva e deixando-me transportar pelo vento para além do que já sou…

(Manuela Resendes)

Natal com sentido…

Este Natal vai ser necessariamente diferente atendendo às circunstâncias que todos estamos a viver.

Mas podemos fazer desta dificuldade uma oportunidade para alavancar o renascer do verdadeiro espírito Natalício, abrindo uma brecha por onde espreite uma renovada esperança.

Não teremos o consumo desenfreado, nem as casas cheias de tudo e de nada, mas teremos o essencial e tempo para oferecer sobre variadas formas.

Estaremos mais serenos e harmoniosos, transmitindo paz e esperança a quem vive dias áridos de sofrimento e solidão.

Seremos o brilho, que iluminará mentes sombrias que só conhecem dias de escuridão, e saberemos perdoar sem ressentimentos aqueles que viveram privados de Amor.

Vamos oferecer sorrisos, alento e ternura embrulhados em belos laços coloridos de amizade. Escrever poesia em postais de Natal com mensagens genuínas que irão tocar o coração dos seus destinatários.

Vamos dar oportunidade às crianças de fazerem uso do seu e do nosso tempo, segundo as suas prioridades, e assim aprenderemos a magia do Amor desconstruído e a conseguir um maior equilíbrio entre o ser e o ter.

Que as manhãs destes dia auroreais, com cheiro a azevinho e tangerina, de preparação para a comemoração do nascimento de Jesus Cristo, nos inspire a dar ao outro morada no coração, abrigo no abraço e força nos momentos de vulnerabilidade.

Talvez assim este Natal diferente venha a ser memorável!

(Manuela Resendes)

Puzzle…

O frio que faz lá fora também se faz sentir dentro de mim!

Os dias passam, o tempo some pelo coador das horas, mas nada é linear. Entre alegrias e tristezas, chegadas e partidas, sonhos e frustrações, vamos compondo as peças do “puzzle” da nossa vida.

Mas há sempre um fio de luz, uma réstia de esperança, que nos dá o alento para prosseguir e vencer as provações.

É preciso desafiar as dificuldades, inventar novas soluções e corrigir a rota sempre que necessário.

Por vezes temos de mudar o nosso ancoradouro de sítio porque a felicidade também muda de porto.

E não podemos ter medo dos ventos fortes, pois muitas vezes correm a nosso favor e transportam-nos mais rapidamente ao nosso destino.

Em dias sombrios temos de procurar as janelas com vista para o céu, sair da penumbra e deixar entrar o sol e ver o mundo com olhos de fé.

E para nos aquecer o coração, acendemos a chama do Amor, degustamos Poesia e aprendemos a Gratidão.

(Manuela Resendes)

Quando cai a noite…

Vejo a noite a espreitar por entre as cortinas e fixo-me na luz que vai sendo cada vez mais precária e fugidia.

Penso nas pessoas para quem a noite é tempo de inquietude e sobressalto, num mundo que vai morrendo à mingua do que é essencial.

Penso nas crianças que são violentadas, sendo-lhes roubado os olhares inocentes que eram a janela para as maravilhas do mundo.

Penso nos idosos que passaram mais um dia sedentos de atenção e afetos, olhando o tempo a fugir e a esperança a desvanecer-se.

Penso nas pessoas que são” invisíveis “para a sociedade, e que cansados de lutar se afogam nas águas turvas da desilusão.

Penso em quem é vitima de ódios crispados, fazendo dos céus estrelados noites opacas.

Penso naqueles que não têm voz e no silêncio da noite ouvem o eco do seu grito.

E penso se estarei a fazer a minha parte para tornar este mundo injusto e hipócrita num lugar melhor.

A sós comigo irei fazer essa reflexão!

(Manuela Resendes)

Silêncios que falam

Existem silêncios que dizem mais do que vozes que soltam palavras ao vento…

Quando o silêncio nos aborda, carregado de melancolias que brotam das nossas sombras, emergem as verdades silenciadas.

Quando somos invadidos por medos, nas noites infinitas onde o futuro nos vai sendo confiscado, o silêncio pesa mais do que qualquer aurora sonolenta.

Quando a promessa de resistir à dura realidade se desvanece, e a réstia de esperança se esfuma, vivemos a mais radical experiência da nossa vulnerabilidade.

Mas o silêncio também pode ser paz e reconciliação, momentos em que se decifram enigmas opacos que permitem destravar bloqueios. Permite-nos, assim, um manuseamento tão atento e tão íntimo das palavras, fugindo a juízos mecânicos e precipitados.

E neste tempo em que fomos obrigados ao recolhimento, à travagem do quotidiano vertiginoso, que nos saibamos inspirar em existências mais atentas e humanizadas.

Que saibamos sair dos claustros e olhar as transparências, donde irrompe o inesperado para ser acolhido e habitado num lugar chamado Futuro!

(Manuela Resendes)

O meu olhar…

Gosto de florestas e de mares onde me possa perder, para me distanciar do que melhor quero ver.

Quero que os meus olhos se habituem à calma e à serenidade para me permitir deter nos pormenores.

Gosto de olhar a vida do alto de uma montanha, neste desejo insano de voar, almejando tocar a eternidade.

Gosto de perscrutar os recantos da vida, sondar rostos e corações, permitindo que a miséria não me pareça estranha, tendo assim oportunidade de ser solidária com quem precisa.

Persigo nas ruínas luzes raras que produzam sombras claras, donde se possa avistar o céu.

Gosto de olhares ternos, verdadeiros e que vêm por bem, fazendo esquecer a feira de egos e vaidades que vai predominando no mundo.

Gosto de aplaudir o sucesso dos que trilharam o caminho do esforço, do talento e do mérito.

Não me calo perante a injustiça em que tropeço a cada passo, e ponho todo o meu empenho no resgate da esperança numa sociedade em que me reveja.

Gosto de preencher os meus vazios com sonhos, encetando assim as raízes de novas emoções, que permitam atravessar os desertos mantendo-me inteira.

E a minha sensibilidade leva-me por vezes às lágrimas quando consigo abrir as janelas que fazem ponte para o mundo, tocando a alma do outro e apaziguando assim a minha inquietude!

(Manuela Resendes)

Cidadania…

Se estamos cansados das restrições impostas pela pandemia? Claro que sim, são muitos meses de uma vida vivida pela metade, de sonhos roubados e perdas irreparáveis.

Mas esta não é hora para desistir porque este é o tempo de exercer o nosso dever de cidadania, cumprindo de forma responsável todas as recomendações preconizadas pelas autoridades de saúde, protegendo-nos e protegendo os outros.

Sem esta corrente de cuidado, respeito e solidariedade intergeracional colocamos em risco o esforço de muitos e esbanjamos os preciosos, mas escassos, meios alocados ao combate a esta pandemia.

Por vezes os dias nascem já desmaiados de motivação e o medo visita-nos, mas nem assim podemos ficar indiferentes às lutas do outro, evitando sermos tocados pelo seu sofrimento.

Não podemos deixar de comparecer aos pedidos de socorro que reconhecemos em olhares de súplica.

Temos de ser a luz que entra em janelas abandonadas para aquecer corações onde já não habita a esperança.

Que cada um de nós se inspire a ser exemplo de cidadania, responsabilidade e solidariedade.

Juntos somos mais fortes!!!

(Manuela Resendes)

Um dia…

Um dia quero ser o que nunca fui, construindo o futuro sobre sonhos ainda não fantasiados e alcançar objetivos não planeados.

Quero desapegar-me de tudo o que não me acrescenta e continuar esta busca incessante e sempre inacabada da felicidade.

Quero ver a vida a ampliar-se, não em resultado da mera contemplação do arco-íris mas de olhar para além dele.

Quero procurar a espiga no meio do restolho e fazer dela semente de esperança que irá germinar para dar trigo.

Quero aproveitar a rajada de vento, para me apropriar da sua energia e contrariar a inércia que por vezes me impede de prosseguir.

Quero fazer do Amor e da Poesia a alavanca para os recomeços que permitam avistar novos céus, ultrapassando as sombras e vencendo as fragilidades.

Mas sobretudo quero saber escutar e decifrar os silêncios que habitam nas conversas da vida!

(Manuela Resendes)

Leituras…

Comecei a gostar de livros ainda antes de saber ler!

Os livros contam histórias e acrescentam memórias, são passado e futuro e abanam o nosso pensamento, destruindo preconceitos e ensinando a tolerância.

A leitura conduz-nos a madrugadas de esperança e abre-nos caminhos por mares abertos a novos mundos, que aprendemos a compreender.

Faço dos livros as asas que transportam os meus sonhos, dando o toque de magia que alimenta as ilusões.

A matéria prima são as palavras, mas o que nos fica na alma são as emoções, que são alimento e remédio e remetem-nos para reflexões profícuas.

Uma casa onde não existem livros é como uma casa sem luz, sem janelas e sem jardim.

O conhecimento é a melhor “arma” que podemos carregar!

(Manuela Resendes)

Revisitar a infância

Neste tempo de incerteza, onde não sabemos bem onde vão dar os caminhos que percorremos, senti necessidade de revisitar a minha infância.

Por vezes é preciso desatar os nós do fio que une passado, presente e futuro, para podermos calibrar a bússola e encontrar novamente o norte.

Viajar através do pensamento, pelos lugares onde fui criança, deambulando por estradas e campos, vendo as mesmas casas e os mesmos rostos e sentindo os mesmos cheiros de um tempo agora reencontrado.

Mas num olhar mais atento, senti um vazio, vislumbrei sombras e ouvi o eco da falta de mim própria.

Vi crianças de rostos desconhecidos, rindo e saltando nos mesmos espaços e com a mesma alegria barulhenta. Olharam-me com indiferença, como se aquele sítio não tivesse também sido meu um dia.

Cruzei-me com rostos carregados de marcas do tempo, com ruínas cobertas de plantas invasoras, que ocuparam o espaço deixado pelos seus habitantes, devorando a sua história e as suas memórias.

Entro no “minha igreja”, onde os silêncios estão à espera de serem escutados, para melhor compreender a biografia do meu íntimo e olhar a janela da minha alma.

A partir deste olhar ampliado do meu lugar no mundo, percebi que se deixar uma pequena dose de esperança a quem vive despido dela deixo algo que vai para além de mim.