Palavras ao vento (6)

Partilho abaixo o sexto texto que preparei para o campeonato de escrita criativa em que estive envolvida. Espero que gostem e que possam voar longe nas asas da imaginação

Gavião sem asas

Gavião nasceu magro, de estatura meã e algo desajeitado. Cresceu de uma forma solitária, e o tempo livre que dispunha, cercado pelas tarefas escolares e o quotidiano caseiro, era passado a observar as aves a voar, acalentando o sonho de um dia viajar para locais distantes. Que épico poderia ser esse voo – pensava – transportando-o para uma qualquer outra realidade.

Com imaginação, todos os dias inventava estruturas aladas que, com afinco, ou mesmo algum grau de loucura, arrastava para um qualquer galho de uma árvore, para logo se atirar num voo insano que sempre acabava no chão a carpir mais umas mazelas a acrescentar a uma longa lista.

Cresceu triste e melancólico, o que se foi agravando com os sucessivos insucessos, que lhe mostravam a verdadeira dimensão da sua quimera, e após atingir a idade adulta decidiu rumar do Alentejo até à capital. Em Lisboa poderia começar do zero, pois ninguém o conhecia, e livrar-se assim da alcunha de Gavião que os seus conterrâneos lhe colaram à pele, como o Sol nas tardes de Verão do seu Alentejo castigava os que inadvertidamente se punham ao seu alcance. Voltou, assim, a usar o seu nome – José Pevide – como se retomar a sua identidade lhe permitisse uma segunda vida.

Na cidade, para além do trabalho de jardineiro, que lhe pagava as contas, estudava aeronáutica em horário noturno, com a intenção de conseguir construir uma pequena aeronave. Nunca conseguiria voar ao bater simplesmente os braços, como faziam as aves que povoaram as suas observações pueris, mas finalmente perspetivava realizar o sonho de atravessar o espaço aéreo, com os pés bem levantados do chão, numa máquina por si construída. Afinal, ao invés do que sempre Gavião tinha ouvido dizer, a vida pode domesticar o sonho.

(Manuela Resendes)

Sem roteiro…

Caminho por entre pedras negras, bafejada por uma brisa fresca e reparo na onda que se demora no encontro com a rocha, numa ternura amarrotada.

As palavras são sufocadas por um falso silêncio, e ao longe avisto um barco que passa alheio à minha presença.

Neste transbordar de infinito, mergulho nas memórias, que tal como as ondas se quebram ou abraçam a enseada me remetem para novas vontades. Estas verdades exiladas, pelo correr do tempo, são suavizadas por palavras luminosas que bradam por acolhimento.

Vou vendo a vida ao longe, a partir deste grão de rocha que o vento vai desgastando como os pensamentos se vão desvanecendo.

E no limite da praia, descubro esconderijos disfarçados para melhor ouvir a voz do mar, perene como o interminável movimento das ondas.

Na conquista desta paz harmoniosa, sinto-me caminhar no Olimpo, na sombra dos Deuses!

(Manuela Resendes)

Caminhada matinal

Tão bom começar o feriado com uma caminhada matinal, sob uma temperatura amena, a ouvir o mar e com o cheiro a maresia.

Foram 5 km percorridos a um ritmo de 8,32 minutos por km, sem se sentir o esforço tão distraída estava com a paisagem.

Este tipo de exercício físico, para além de agradável, faz bem ao corpo e à mente, empoderando-nos de uma energia e bom humor que nos permite acolher o dia com outra disposição.

Bom Feriado

(Manuela Resendes)

Cidadania…

Se estamos cansados das restrições impostas pela pandemia? Claro que sim, são muitos meses de uma vida vivida pela metade, de sonhos roubados e perdas irreparáveis.

Mas esta não é hora para desistir porque este é o tempo de exercer o nosso dever de cidadania, cumprindo de forma responsável todas as recomendações preconizadas pelas autoridades de saúde, protegendo-nos e protegendo os outros.

Sem esta corrente de cuidado, respeito e solidariedade intergeracional colocamos em risco o esforço de muitos e esbanjamos os preciosos, mas escassos, meios alocados ao combate a esta pandemia.

Por vezes os dias nascem já desmaiados de motivação e o medo visita-nos, mas nem assim podemos ficar indiferentes às lutas do outro, evitando sermos tocados pelo seu sofrimento.

Não podemos deixar de comparecer aos pedidos de socorro que reconhecemos em olhares de súplica.

Temos de ser a luz que entra em janelas abandonadas para aquecer corações onde já não habita a esperança.

Que cada um de nós se inspire a ser exemplo de cidadania, responsabilidade e solidariedade.

Juntos somos mais fortes!!!

(Manuela Resendes)

Depressão…

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A depressão não é um estado de alma, mas sim uma doença mental que tal como outra qualquer patologia tem de ser tratada por profissionais de saúde  devidamente habilitados para o efeito.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem deste transtorno, com maior incidência nas mulheres.

Cerca de 800 000 pessoas por ano morrem  por suicídio na sequência de sintomas provocados pela depressão, vendo na morte a solução para uma dor que se lhes apresenta intransponível.

 

Procuro uma réstia de luz

Que o coração não alcança

Eterno desejo de mudança

Neste calvário sem cruz

 

Perdi-me algures no mundo

Perdi o  norte e a vontade

Vejo sempre a pior metade

O resto é vazio profundo

 

Procuro na noite o sono

De dia busco energia

Nesta infinita solidão

 

Eu apenas pretendia

Ter o dom e o condão

Deixar a dor sem  dono

(Manuela Resendes)

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