Leituras…

Comecei a gostar de livros ainda antes de saber ler!

Os livros contam histórias e acrescentam memórias, são passado e futuro e abanam o nosso pensamento, destruindo preconceitos e ensinando a tolerância.

A leitura conduz-nos a madrugadas de esperança e abre-nos caminhos por mares abertos a novos mundos, que aprendemos a compreender.

Faço dos livros as asas que transportam os meus sonhos, dando o toque de magia que alimenta as ilusões.

A matéria prima são as palavras, mas o que nos fica na alma são as emoções, que são alimento e remédio e remetem-nos para reflexões profícuas.

Uma casa onde não existem livros é como uma casa sem luz, sem janelas e sem jardim.

O conhecimento é a melhor “arma” que podemos carregar!

(Manuela Resendes)

Revisitar a infância

Neste tempo de incerteza, onde não sabemos bem onde vão dar os caminhos que percorremos, senti necessidade de revisitar a minha infância.

Por vezes é preciso desatar os nós do fio que une passado, presente e futuro, para podermos calibrar a bússola e encontrar novamente o norte.

Viajar através do pensamento, pelos lugares onde fui criança, deambulando por estradas e campos, vendo as mesmas casas e os mesmos rostos e sentindo os mesmos cheiros de um tempo agora reencontrado.

Mas num olhar mais atento, senti um vazio, vislumbrei sombras e ouvi o eco da falta de mim própria.

Vi crianças de rostos desconhecidos, rindo e saltando nos mesmos espaços e com a mesma alegria barulhenta. Olharam-me com indiferença, como se aquele sítio não tivesse também sido meu um dia.

Cruzei-me com rostos carregados de marcas do tempo, com ruínas cobertas de plantas invasoras, que ocuparam o espaço deixado pelos seus habitantes, devorando a sua história e as suas memórias.

Entro no “minha igreja”, onde os silêncios estão à espera de serem escutados, para melhor compreender a biografia do meu íntimo e olhar a janela da minha alma.

A partir deste olhar ampliado do meu lugar no mundo, percebi que se deixar uma pequena dose de esperança a quem vive despido dela deixo algo que vai para além de mim.

Imprevisibilidades

A ideia de que temos tudo controlado, a falsa sensação de segurança que os bens materiais e as apólices de seguro nos dão, fazem-nos por vezes pensar que estamos a salvo das tempestades.

Mas a vida vai-nos mostrando que nada é totalmente linear, existindo inúmeros labirintos e curvas não assinaladas, recheando a nossa existência de incerteza.

Não existem fórmulas certas, cálculos matemáticos, nem cartilha, que nos indique qual o melhor caminho.

Traçamos o nosso plano, mas temos de aprender a resiliência, por forma a fazer dos tropeções uma alavanca para os recomeços.

Nāo podemos ficar presos ao passado, correndo o risco de que o futuro nos escape do nosso horizonte, hipotecando os sonhos de dias ainda em construção.

Temos que acreditar nas nossas verdades, mesmo que inventadas, na cumplicidade e conexão das almas, que nos robustecem emocionalmente e alumiam os nossos dias escuros.

A vida não se constrói com nível e fio de prumo; não podemos esperar pelo tempo ideal para realizar, pelo longínquo, é preciso ser permeável ao novo, à surpresa, e aceitar o risco, mesmo que isso por vezes faça doer a alma.

Vivo grandes alegrias e tristezas absolutas com a mesma intensidade, com as mesmas lágrimas, e sempre com uma dose inesgotável de esperança que me permite tocar o infinito!

(Manuela Resendes)

Frio…

E de forma repentina a temperatura baixou e o Outono corre indiferente, num tempo vazio onde nem a palavra nem o silêncio aquietam a alma.

O frio que sentimos vem também de dentro para fora, do gelo da indiferença, de silêncios feitos de hostilidade em janelas abertas para espaços plenos de solidão.

Os dias são mais pequenos e menos luminosos, e as nuvens ocultam a visão da lua.

O calendário lembra-nos que se aproxima o Dia de Finados, mas os cemitérios fecham-se, deixando ausências tatuadas no nosso coração e uma saudade inquieta.

As luzes de Natal vão-se acender, mas nāo vão dar brilho aos dias em que as distâncias ficam desenhadas nas estradas da nossa memória.

Mas assim como por entre a enigmática bruma, surge um raio de sol que faz luzir a gota de orvalho, um olhar atento pode derreter o gelo de um dia triste.

Venceremos assim o frio e o medo, com coragem e ousadia, na certeza de que os abraços nos voltarão a dar abrigo e a melancolia nos irá revelar o céu!

(Manuela Resendes)

Sábado, a olhar o céu

O dia amanhece revestido de tons cinza, com uma pitada de sol a abrilhantar o mar que se reveste de prata.

Sinto saudades de um mundo alegre, sem o frio das incertezas provocado por aragens de descontentamento, que procuram abrigo na alma.

Vejo olhares submersos em solidão, olhando para o infinito, que cabe na palma de uma mão.

O céu tem as mesmas cores de sempre, mas falta a luz imaculada das auroras. As aves dançam sobre espumas frondosas, mas já não ouço o canto das cigarras.

As tardes alaranjadas, com as cores do fogo, já nāo têm a mesma harmonia de outros tempos, agora pontuadas pela angústia do anoitecer sem o brilho de um céu estrelado.

Sinto pouca felicidade no mundo, mas a esperança irá renascer de segredos escondidos nos abismos dos mares e no infinito que se abrirá para nos oferecer a liberdade.

(Manuela Resendes)

O baloiço

O baloiço sempre foi um dos meus brinquedos preferidos, ainda que o poder de escolha não fosse muito diversificado.

A sensação de voar, de ser levada e desenhar sonhos no ar, sempre me fascinou. Rasgava os céus para atingir destinos longínquos, inventava novas vidas, fugindo assim à monotonia dos dias que corriam sem novidade.

Neste voo, dançava com o vento e cantava para ouvir o eco das palavras, ganhando a voz que não tinha, prenúncio de um novo tempo.

Aproveitando cada impulso deixava a vida fluir, perdendo a medida do tempo na certeza que um novo sol iria sempre raiar.

E neste vai e vem deixava cair medos e angústias, e colhia a liberdade e audácia de querer ver para além do horizonte.

Ainda hoje gosto de andar de baloiço, num movimento que sinto como uma metáfora da vida: com altos e baixos, ganhar impulso para o voo com os pés assentes na terra, com a inevitabilidade de que o caminho nāo é linear e que a corda pode ruir.

Mas se nāo ousarmos, o tempo passa e a vida acaba por seruma promessa por cumprir!

(Manuela Resendes)

Desafios

Estes são tempos desafiadores, em que os dias se sucedem mas a passagem do tempo faz-se num silêncio perturbador.

O sol vai e vem e os dias enchem-se de vazios, despojados de proximidade, espontaneidade, parcos em afetos, num quotidiano inventado para preencher os espaços vazios de vidas suspensas.

Olhares que se perdem, em rostos colados à janela, bálsamo para a ansiedade resultante destes dias tão cheios de nada.

O vazio de olhares que se perdem a procura de uma mão amiga, do perfume conhecido, do calor que humaniza quartos frios onde quase nada resta, de vidas tão repletas de tudo.

Em caras tapadas, descortinamos olhares de medo, incerteza, revolta, de vidas adiadas, numa nova realidade destruidora de sonhos e de futuro.

Mas é nestes momentos que temos de pôr à prova a nossa resiliência, focar no que é essencial, adaptando as nossas rotinas e inventando novos sonhos.

É o tempo de sorrir com os olhos, tocar na alma e abrir o coração, reinventando a corrente dos afetos.

E com a certeza de que na Primavera as flores voltarão a florir, teremos na natureza uma fonte inesgotável de força e inspiração.

(Manuela Resendes)

Cores quentes…

E o Outono chegou, ora de mansinho, ou num tom mais agreste, numa paleta de cores que contemplamos e acolhemos, num verdadeiro convite ao recolhimento em abrigo seguro.

Nas suaves madrugadas de brisas amenas encontro o colo que me embala e as palavras que me inspiram.

Olho a janela por onde assombro o futuro e vejo o despontar do sol em tons dourados, que se esbatem à passagem das nuvens, onde descortino uma estrada de luz.

Quando as manhãs se revestem de nevoeiro revelam-se mistérios e segredos por entre as brumas, de anjos com asas transparentes.

E nas tardes incandescentes, em que línguas de fogo invadem os céus, antevejo um convite ao recolhimento, para que a vida aconteça num registo mais silencioso e intimista.

E em noites de luar, ao som de melodias do vento, alimento sonhos demorados que varrem orvalhos do meu rosto. Caminhando sobre um tapete de folhas de Outono invento caminhos inusitados, onde as doces lembranças me devolvem a esperança que acolho com um infinito sorriso.

Gosto destes dias em que a alegria é feita de poesia!

(Manuela Resendes)

Cansaços…

Hoje acordei cansada… despertei do sono e para alcançar a luz da aurora tive de atravessar densos nevoeiros.

O vento soprava de forma cruel e ouvia o rumorejar das folhas, ressequidas pelo sol, a serem revolvidas junto ao chão.

Os meus olhos viajavam em silêncio, encontrando mundos onde as crianças nascem já para uma vida miserável.

A minha revolta espelhava-se num mar tempestuoso, que batia com ira nos rochedos, rasgando as velas dos sonhos que embalava.

Um misto de sensações abstratas invadiram-me, com indecifráveis medos e disfarces de esperança, e vem-me à memória a angústia das primeiras despedidas, num roubo à infância, deixando no caminho uma curva invisível, apesar de mantido o rumo.

Agora, nesta melancolia que deambula em mim, nem alegre nem triste, espero a noite aconchegante, o sono que adormece o corpo e a serenidade que me acalme a alma.

Escuto, mas apenas ouço a voz da minha consciência, sempre atenta…

Mas a madrugada clara irá nascer, plena de promessa de vida feliz para cumprir!

(Manuela Resendes)

Prenúncio de Outono…

O dia amanheceu chuvoso e triste, anunciando a aproximação do Outono.

Senti o passar do vento na pele, onde se vão apagando as marcas do sol e desvanecendo o sabor a sal, tal memórias do Verão.

Cobri-me com a manta do silêncio e fiquei a ouvir a chuva límpida que caía de nuvens com a cor da melancolia.

Saio a rua e vejo pessoas de olhar vazio à espera de nada, vendo no reflexo da água resíduos de juventude, e no arrepio da pele o travo da solidão.

Vejo as folhas a soltarem-se das árvores e a serem transportadas pelo vento, lembrando o eco das despedidas e convidando à introspeção.

Os dias encurtaram, mas nāo vou deixar de caminhar na areia molhada, onde a espuma das ondas acaricia a pele e o azul do mar já denuncia a sua inquietude.

Esta brisa marítima, carregada de liberdade e imprevisto fascina-me e convoca o encontro com a esperança num reduto de paz.

E quando chega a noite, sem se anunciar, no conforto da casa rodeio-me de livros que me alargam horizontes e devolvem a luz que vai alumiar os dias mais sombrios.

Porque o Outono nāo tem de ser triste!!!

(Manuela Resendes)