Raízes…

Sopra uma brisa de saudade

Ouço o crepitar do fogo na lenha

Vou cantarolando uma resenha

Que tem por nome liberdade

Entre cascatas e pontes seculares

Navegando ao sabor do vento

Vou ganhando um novo alento

Sobre nuvens de cores solares

O galo canta a madrugada

De um tempo sem medida

O sino anuncia a despedida

A enxada repousa cansada

A noite despontou já escura

Perfumada de melancolia

Conta histórias que conhecia

Embala sonhos de ternura

(Manuela Resendes)

Viragem…

O dia já nasceu cinzento e triste, não correspondendo ao brilho do que é novo, da luz do que acaba de nascer, nem das expetativas dos recomeços.

Mas a partir de um olhar mais atento não deixo de me deslumbrar com a cadência da chuva a cair, com o vaivém das ondas ou com o eco da minha voz, ampliada pela sua ressonância.

Quando conseguimos tirar prazer das coisas simples ganhamos asas invisíveis, o brilho das estrelas e a saciedade das esperas recompensadas. Porque só conseguimos impulso para a mudança depois de lavar a alma com a água da chuva, cicatrizar as feridas com o sal do mar e evaporar as mágoas, soltando ao vento ensejos de esperança.

Depois quero partir para lugares que desconheço, sentir vida a brotar do chão e a liberdade coada pelo tempo, conseguindo assim preencher de sonhos o vazio das noites vagas.

Porque a vida será sempre um mistério…

(Manuela Resendes)

Ano Novo…

Os finais de Ano são tempo de balanço e de formular expetativas quase infantis de que a mudança cronológica será milagrosamente transformadora do mundo.

Mas nada acontece, se continuarmos na nossa imutabilidade; temos sim de fazer uma paragem para perceber o que precisa ser costurado com pequenos arranjos e o que requer ser refeito, ou mesmo rasgado.

É tempo de festa, mas também de introspeção, em que devemos dar espaço ao silêncio e acolhê-lo, escutando as perguntas que emergem do nosso íntimo e que teimamos em adiar a resposta para um momento ideal, que raramente acontece.

Que saibamos ver, e não apenas olhar, os subtis detalhes do nosso quotidiano, para que a mudança aconteça a partir de decisões conscientes que tomamos.

Mudar de Ano é apenas a passagem de mais um ciclo, nesta convenção de medida do tempo que nos permite fazer uma paragem para ganhar embalo para o futuro.

Mas não bastam listas de intenções, nem promessas já banalizadas, porque a mudança acontece a partir das sementes que fazemos brotar e pela conquista da liberdade de pensar e concretizar. Existem, no entanto, imprevisibilidades e situações adversas, que não conseguimos mudar, restando-nos aceitar e tomar as decisões que nos tragam paz ao coração.

Não podemos deixar que a indiferença nos atinja, perante as injustiças, a desumanização ou a violência, porque já fazem parte do nosso quotidiano. As situações de vulnerabilidade têm sempre de ser acolhidas, escutadas e, do que nós depender, mitigadas.

O meu desejo para 2021 é que a vida aconteça na sua plenitude, em que possa ter todas as idades, desde sentir uma inocência infantil, à responsabilidade pessoal e de cidadania, sabendo por vezes tocar a eternidade, porque são as emoções que acendem a chama da vida.

Para ganhar um Novo Ano, não basta esperar pelas doze badaladas e brindar aos desejos para o novo Ano, é preciso mudar, é preciso merecê-lo…

(Manuela Resendes)

O Natal acabou! E agora?

Este foi um Natal diferente, mas cheio de significado e rico de sentimentos recheados de intensidade, apelando a uma bondade nova, com a magia e o brilho de uma fé quase infantil.

Não tivemos as reuniões de família alargada, os convívios com amigos ou os jantares com colegas de trabalho, mas tivemos a possibilidade de abrir a janela a uma experiência nova, de um tempo prolongado numa intimidade mais silenciosa e reflexiva.

Foi tempo de guardar caixas com novas memórias, bater a portas fechadas para avistar as estrelas e confiar na espera de auroras luminosas, dando alento a quem vai perdendo a coragem.

Percebemos a nossa interdependência, porque só a breves espaços a vida é vivida individualmente, mas o que faz sentido é a partilha e o conforto do abrigo do outro nos momentos de fragilidade, aquecendo assim corações gelados que vivem desabrigados de corpo e alma.

Que nos saibamos libertar das teias que inconscientemente vamos tecendo com o amontoado de concessões e frustrações não verbalizadas, bem como das vulnerabilidades não acolhidas, que nos aprisionam tornando impossível o voo. Façamos antes um laço, que ligue a nossa vida à do outro, pelos afetos cúmplices pela entrega e doação, conectando assim a vida e a esperança.

E se assim for, das nossas palavras, mesmo que ditas em silêncio, vai-se ouvir o eco do Amor…

(Manuela Resendes)

Obrigada…

E nas voltas da vida completei mais um Outono, rodeada de carinho de tantos que quiseram estar de alguma forma presentes neste dia tão especial de um ano tão difícil e atípico.

Estes têm sido tempos desafiadores, com novos problemas, dores já conhecidas e diferentes lições, vividos com uma estranheza que nos intimida. Mas os tempos difíceis, podem também ser de oportunidade, dando espaço a vontades antigas e alcançando horizontes desconhecidos.

Nasci no dia do solstício de inverno e transporto essa luz no olhar, permitindo-me um espanto renovado a cada noite de céu estrelado, ou com a gota de orvalho em forma de lágrima sobre a pétala frágil.

Gosto do cheiro a terra molhada, a urze queimada ou do alecrim, que me despertam todos os sentidos para um regresso a infância onde me reposiciono para novos voos.

Que nunca deixe de me emocionar com a dor de alguém que sofre, para rapidamente limpar as lágrimas e ser amparo.

Que mantenha sempre a capacidade de me indignar com todo o tipo de injustiças e a vontade de lutar ao lado daqueles que vão perdendo a força ou não se conseguem fazer ouvir.

Que consiga viver apaziguada com a presença dos ausentes, sorrindo das suas histórias bonitas e honrando sempre a sua memória. E que os atropelos da vida nunca me façam perder a doçura e a capacidade de ser grata às pessoas “farol” da minha vida.

E porque a vida é uma oportunidade única, que este novo número augure um tempo para me ir reinventando neste caminha cada vez mais espiritual, ajustando o ângulo que me permita a melhor perspetiva e deixando-me transportar pelo vento para além do que já sou…

(Manuela Resendes)

Natal com sentido…

Este Natal vai ser necessariamente diferente atendendo às circunstâncias que todos estamos a viver.

Mas podemos fazer desta dificuldade uma oportunidade para alavancar o renascer do verdadeiro espírito Natalício, abrindo uma brecha por onde espreite uma renovada esperança.

Não teremos o consumo desenfreado, nem as casas cheias de tudo e de nada, mas teremos o essencial e tempo para oferecer sobre variadas formas.

Estaremos mais serenos e harmoniosos, transmitindo paz e esperança a quem vive dias áridos de sofrimento e solidão.

Seremos o brilho, que iluminará mentes sombrias que só conhecem dias de escuridão, e saberemos perdoar sem ressentimentos aqueles que viveram privados de Amor.

Vamos oferecer sorrisos, alento e ternura embrulhados em belos laços coloridos de amizade. Escrever poesia em postais de Natal com mensagens genuínas que irão tocar o coração dos seus destinatários.

Vamos dar oportunidade às crianças de fazerem uso do seu e do nosso tempo, segundo as suas prioridades, e assim aprenderemos a magia do Amor desconstruído e a conseguir um maior equilíbrio entre o ser e o ter.

Que as manhãs destes dia auroreais, com cheiro a azevinho e tangerina, de preparação para a comemoração do nascimento de Jesus Cristo, nos inspire a dar ao outro morada no coração, abrigo no abraço e força nos momentos de vulnerabilidade.

Talvez assim este Natal diferente venha a ser memorável!

(Manuela Resendes)

Puzzle…

O frio que faz lá fora também se faz sentir dentro de mim!

Os dias passam, o tempo some pelo coador das horas, mas nada é linear. Entre alegrias e tristezas, chegadas e partidas, sonhos e frustrações, vamos compondo as peças do “puzzle” da nossa vida.

Mas há sempre um fio de luz, uma réstia de esperança, que nos dá o alento para prosseguir e vencer as provações.

É preciso desafiar as dificuldades, inventar novas soluções e corrigir a rota sempre que necessário.

Por vezes temos de mudar o nosso ancoradouro de sítio porque a felicidade também muda de porto.

E não podemos ter medo dos ventos fortes, pois muitas vezes correm a nosso favor e transportam-nos mais rapidamente ao nosso destino.

Em dias sombrios temos de procurar as janelas com vista para o céu, sair da penumbra e deixar entrar o sol e ver o mundo com olhos de fé.

E para nos aquecer o coração, acendemos a chama do Amor, degustamos Poesia e aprendemos a Gratidão.

(Manuela Resendes)

Quando cai a noite…

Vejo a noite a espreitar por entre as cortinas e fixo-me na luz que vai sendo cada vez mais precária e fugidia.

Penso nas pessoas para quem a noite é tempo de inquietude e sobressalto, num mundo que vai morrendo à mingua do que é essencial.

Penso nas crianças que são violentadas, sendo-lhes roubado os olhares inocentes que eram a janela para as maravilhas do mundo.

Penso nos idosos que passaram mais um dia sedentos de atenção e afetos, olhando o tempo a fugir e a esperança a desvanecer-se.

Penso nas pessoas que são” invisíveis “para a sociedade, e que cansados de lutar se afogam nas águas turvas da desilusão.

Penso em quem é vitima de ódios crispados, fazendo dos céus estrelados noites opacas.

Penso naqueles que não têm voz e no silêncio da noite ouvem o eco do seu grito.

E penso se estarei a fazer a minha parte para tornar este mundo injusto e hipócrita num lugar melhor.

A sós comigo irei fazer essa reflexão!

(Manuela Resendes)

Silêncios que falam

Existem silêncios que dizem mais do que vozes que soltam palavras ao vento…

Quando o silêncio nos aborda, carregado de melancolias que brotam das nossas sombras, emergem as verdades silenciadas.

Quando somos invadidos por medos, nas noites infinitas onde o futuro nos vai sendo confiscado, o silêncio pesa mais do que qualquer aurora sonolenta.

Quando a promessa de resistir à dura realidade se desvanece, e a réstia de esperança se esfuma, vivemos a mais radical experiência da nossa vulnerabilidade.

Mas o silêncio também pode ser paz e reconciliação, momentos em que se decifram enigmas opacos que permitem destravar bloqueios. Permite-nos, assim, um manuseamento tão atento e tão íntimo das palavras, fugindo a juízos mecânicos e precipitados.

E neste tempo em que fomos obrigados ao recolhimento, à travagem do quotidiano vertiginoso, que nos saibamos inspirar em existências mais atentas e humanizadas.

Que saibamos sair dos claustros e olhar as transparências, donde irrompe o inesperado para ser acolhido e habitado num lugar chamado Futuro!

(Manuela Resendes)

O meu olhar…

Gosto de florestas e de mares onde me possa perder, para me distanciar do que melhor quero ver.

Quero que os meus olhos se habituem à calma e à serenidade para me permitir deter nos pormenores.

Gosto de olhar a vida do alto de uma montanha, neste desejo insano de voar, almejando tocar a eternidade.

Gosto de perscrutar os recantos da vida, sondar rostos e corações, permitindo que a miséria não me pareça estranha, tendo assim oportunidade de ser solidária com quem precisa.

Persigo nas ruínas luzes raras que produzam sombras claras, donde se possa avistar o céu.

Gosto de olhares ternos, verdadeiros e que vêm por bem, fazendo esquecer a feira de egos e vaidades que vai predominando no mundo.

Gosto de aplaudir o sucesso dos que trilharam o caminho do esforço, do talento e do mérito.

Não me calo perante a injustiça em que tropeço a cada passo, e ponho todo o meu empenho no resgate da esperança numa sociedade em que me reveja.

Gosto de preencher os meus vazios com sonhos, encetando assim as raízes de novas emoções, que permitam atravessar os desertos mantendo-me inteira.

E a minha sensibilidade leva-me por vezes às lágrimas quando consigo abrir as janelas que fazem ponte para o mundo, tocando a alma do outro e apaziguando assim a minha inquietude!

(Manuela Resendes)